O homem que fez da rua o seu palco

O homem que fez da rua o seu palco

O homem que fez da rua o seu palco

Setúbal tem nomes que se apagam com o tempo, mas há rostos que resistem na memória coletiva. José Maria Tavares, conhecido por “Zé dos Gatos” ou “Zé Maluco”, foi uma dessas figuras. A sua presença era constante nas ruas, nos cafés e nas feiras, um símbolo autêntico da cidade e da sua alma popular. O seu olhar expressivo e o jeito excêntrico tornaram-no uma personagem querida, lembrada com carinho e respeito. Chamavam-lhe “Zé dos Gatos” porque acolhia dezenas de felinos que vagueavam por Setúbal. Dizia-se que os alimentava, cuidava deles e dava nomes a cada um. Mas também era “Zé Maluco” por causa das suas performances espontâneas e atitudes imprevisíveis. Num dos testemunhos mais conhecidos, partilhado por quem se cruzava com ele no dia a dia, recorda-se uma das suas brincadeiras mais famosas: “Encheu de público um dos largos do centro da cidade com uma sessão de auto-cobertura com marmelada, margarina e açúcar”. Não era provocação, era alegria pura, a expressão de quem vivia à sua maneira.

Numa altura em que a diferença nem sempre era bem compreendida, Zé afirmava-se como um espírito livre. Vivia pelas suas próprias regras, sem se preocupar com convenções. O seu modo de estar, entre a excentricidade e a ternura, fazia dele uma espécie de artista popular. Era capaz de transformar o quotidiano em espetáculo, o banal em riso e o momento em partilha. E se muitos o viam como “maluco”, para outros era simplesmente alguém que sabia viver sem máscaras.

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Anos após a sua morte, o nome dele voltou a ecoar na cidade. A peça Zé dos Gatos, criada pelo Teatro do Elefante e apresentada na Casa da Cultura, procurou homenageá-lo e refletir sobre temas como a solidão, a amizade, o envelhecimento e a diferença. Explica o encenador José Maria Dias, “esta peça traz bastante responsabilidade, porque foi baseada numa história de vida real”. O objetivo era preservar a memória de um homem que, sem o saber, ensinou sobre inclusão e o respeito pelo outro.

Quando partiu, muitos setubalenses sentiram a perda. Nos blogs e jornais locais multiplicaram-se as homenagens: “Zé, quando passar pelas ruas da cidade, vou lembrar-me de ti e vou ter saudades tuas e dos momentos de pura alegria que me proporcionaste…”. Palavras simples, mas sentidas, como a vida que viveu.

Zé Maluco foi mais do que uma figura de rua; representou a humanidade na sua forma mais pura, e foi alguém que, com gestos simples e gatos ao colo, lembrava que todos têm um lugar na cidade. Ficou o riso, as histórias e a certeza de que, enquanto existir quem se lembre dele, o Zé continuará a passear por Setúbal, livre como sempre foi.

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Hoje, a sua memória mistura-se com o som do cais, com o cheiro do peixe e com as conversas dos cafés que tanto frequentava. Muitos ainda recordam o seu sorriso rasgado e a forma como falava com todos, sem distinções. Era conhecido por cumprimentar qualquer pessoa com a mesma simpatia, fosse um amigo de longa data ou alguém acabado de chegar.

Dizem que o viam, muitas vezes, sentado ao sol, rodeado pelos seus gatos, a observar o movimento da cidade. Nesses momentos, parecia em paz, como se Setúbal fosse o seu palco e ele o ator principal de uma peça que nunca terminava. E talvez seja por isso que, ainda hoje, o seu nome desperta sorrisos nostálgicos e um sentimento de ternura. Porque o Zé Maluco, no fundo, era um reflexo do que todos queremos ser: livres, genuínos e lembrados com afeto.

Texto publicado por Gonçalo Domingues na edição especial da revista “Perfil Local” da ESE/IPS

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