Numa casa simples no bairro dos Índios, em Setúbal, fui recebida na sala de estar, onde uma energia calorosa e cheia de vida me envolveu de imediato. As paredes estavam decoradas com fotografias e quadros de crianças, despertando a curiosidade sobre o dia a dia da família. A luz da tarde entrava pelas janelas, iluminando o sofá onde me sentei. Adérito Augusto Araújo dos Santos, de 56 anos, sentou-se à minha frente, com a calma de quem não tem pressa e a paciência de quem já viveu o suficiente para saber que cada história merece ser ouvida.
Nasceu em França, mais precisamente na pequena vila Val de Loire, onde viveu até aos cinco anos. Mesmo tão pequeno, ainda guarda algumas lembranças que lhe surgem como pequenos flashes de um tempo distante. “Lembro-me de brincar na rua com uma amiga… e de um café onde a minha mãe ia muitas vezes”, contou, como se essas imagens viessem à tona de repente.
O regresso a Portugal levou a Trás-os-Montes, onde os campos e a rotina da agricultura moldaram os seus dias e os seus anos. “Acordava muitas vezes ainda de noite para tratar dos animais e só depois é que ia para a escola”. Guardava ovelhas, ordenhava, cavava a terra, semeava batatas, ajudava na vinha. “Fui obrigado a crescer mais rápido, fez-me homem mais cedo”. Ali, entre o esforço e a rotina, começou a aprender o valor do trabalho e das responsabilidades.
Aos dezoito anos, sentiu que precisava de mais e partiu para o Algarve, à procura de independência e novas oportunidades. Trabalhou nas obras e, durante dois anos, viveu em contentores. “Morava nos contentores da obra, imagina!”, contou com naturalidade, quase como se fosse apenas um detalhe. Com vinte anos, mudou-se finalmente para a cidade que viria a ser a sua casa, onde acabou por se fixar. “No Norte é sempre difícil arranjar algo estável. Aqui parecia haver sempre movimento”.
Foi ali que Adérito Santos encontrou não só trabalho, mas também o mar e um ritmo de vida diferente, que contrastava com a dureza da sua infância. Tornou-se pedreiro e, ao longo do tempo, passou a encarregado na construção civil. “É um trabalho honesto e necessário… e olha que não é nada fácil de aprender”, afirmou com orgulho. Mas a cidade acabou por lhe trazer ainda mais. Foi em Setúbal que conheceu a sua esposa, nas Manteigadas, enquanto trabalhava numa obra. A história começou de forma direta e divertida, “Foi ela que teve a lata, virou-se para mim e disse que me achava muito lindo”. A partir daí começou o namoro, depois o casamento, e ,finalmente, a família que hoje é a sua maior conquista. “A coisa de que mais me orgulho são os meus filhos”, disse, olhando para as fotografias nas paredes, como se cada sorriso lhe lembrasse que todo o caminho até ali valeu a pena.
Ao longo de 36 anos, Adérito Santos assistiu a mudanças profundas no distrito e no bairro onde vive. “Onde agora está o centro comercial, aquilo era só mato… vacas, ovelhas”, contou, quase sem acreditar no que os olhos viram. “Este bairro aqui não existia, era só terra.” Para ele, ver Setúbal celebrar 100 anos é perceber o quanto cresceu e mudou. “Passo nos sítios e ainda me lembro de como aquilo era antes. E penso: ‘Caramba, o tempo passa mesmo’”. Gosta da cidade pela sua energia, pelo contacto com a comunidade e pelo dia a dia que construiu. “Aqui ainda se consegue andar na rua com tranquilidade, cumprimentar as pessoas, conhecer os vizinhos”. No final, a sensação que fica é a de um homem que construiu a sua vida tijolo a tijolo, começando cedo demais, que aprendeu o valor do esforço e encontrou na família o equilíbrio que sempre procurou.
Texto publicado por Daniela Santos na edição especial da Revista “Perfil Local” da ESE/IPS