Noémia Nunes: Sem estudos, mas não inculta

Noémia Nunes: Sem estudos, mas não inculta

Noémia Nunes: Sem estudos, mas não inculta

Uma porta de metal branca, vinte e sete degraus e um acesso complicado. É este o percurso que Noémia Nunes faz há 100 anos.

Recebe-me de forma acolhedora na sua pequena casa, que apenas tem uma divisão, tem uma panela com água a ferver para poder tomar banho, levanta-se da cama, veste o seu robe cor-de-rosa, senta-se na cadeira da cozinha e diz “então diz lá o que é que queres”. Nascida a 18 de agosto de 1925, na mesma casa que reside até hoje e recusa-se a sair para lares ou centros de dia, pois diz que esses lugares “são para gente velha”. Com apenas 9 anos, começou a servir outras pessoas, profissão muito comum na altura, trabalhando por conta própria e relembra que chegou a ir até Almada para o fazer.

Aos 22 anos, casa e, mesmo durante uma época onde era normalizado a mulher ficar a cuidar do lar e dos filhos, a centenária fugiu à regra. Nunca deixou de trabalhar em serviço a outros, mas, mais tarde, apercebe-se de que “aquilo não era vida para mim”, conta, com o que parece ser algum alívio por não o ter descoberto tarde demais, e decide ir para o Fórum Municipal Luísa Todi. Começou como arrumadora de limpeza, “levava as pessoas à plateia, casa de banho, fiz tudo”, mas a rotina monótona era algo que a aborrecia.

Quando era jovem andava sempre a pé para todo o lado, percorria a cidade de uma ponta à outra, com sacos na mão e uma pressa como se estivesse atrasada para algum compromisso. Por isso, esta repetição do dia a dia era algo que a chateava, “comecei a ver que a vida que era assim um bocado curta e muito aborrecida. A gente fartava-se de trabalhar, voltávamos de noite para casa e aquilo não dava assim muita coisa”. Escolhe sair e torna-se arrumadora de cozinha, mas tem a sorte de a patroa conhecê-la e oferecer-lhe uma nova posição como cozinheira e é lá que tira a Carteira profissional de Serviço de Hotelaria.

Noémia Nunes não tinha estudos, nem sabia ler, não por falta de vontade, mas porque o regime em que vivia não o permita, “queria ir para a escola e não me deixavam”, confessa um pouco triste. Ainda assim, isso não a impediu de seguir o seu coração.

É uma mulher determinada, que por vezes chega a ser teimosa, mas consegue sempre surpreender quem não a conhece. Relembra o que seu patrão costumava dizer-lhe: “Ai mulher, até me custa acreditar que a senhora não sabe ler e tem mais inteligência do que aquelas que sabem ler. Você enganou a gente”. O pré-25 de Abril e os tempos de guerra que viveu são algo que fala com naturalidade, mas com um pouco de confusão no olhar. A repressão e o medo que se sentia é algo que reforça quando conta como era a sua vida nessa altura, “quando a gente falava alguma coisa do Salazar tínhamos medo”, e não era só este pavor que pairava no ar, era, também, o clima de desconfiança, “às vezes havia um a ouvir para ir contar à policia”. Recorda uma conversa que teve no ambiente de trabalho, “Um dia vieram ter comigo e disseram: hoje a Noémia teve uma conversa assim e assim, e eu respondia: eu tenho conversas quando calha ou já não se pode falar?

Eu também era danada dos cornos, ainda hoje sou”. Não tinha medo de falar o que pensava e, caso a questionassem, tinha sempre uma resposta na ponta da língua, ainda hoje o tem, “pode-me chamar de parva, mas no fim engana-se, que sou mais esperta que o senhor. Levavam com cada uma que até iam pelo ar”, lembrando algumas das resposta que dava. Após 50 anos a trabalhar, reforma-se, e descobre um novo significado para esta nova etapa da sua vida: o café.

Há cerca de 60 anos que frequenta o seu café de eleição, “O Manel, como lhe chama. Seja em dias de chuva, sol, frio ou calor, lá está ela, sentada na mesma mesa, a ver quem passa e a falar com todos com a sua boa disposição. 100 anos de vida, 100 anos de histórias, 100 anos de conquistas, 100 anos de lutas e aprendizagens é o que Noémia Nunes carrega consigo. Tem a certeza de que hoje é alguém que sabe trabalhar, e a•rma que “não há nada que eu não saiba fazer”, mesmo achando que antigamente as coisas eram melhores. Gostava de continuar a viver “até Deus quiser, ou com saúde mais uns 10 anos”.

Texto publicado por Bárbara Antunes na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não