Não tem o pé na areia nem uma caipirinha na mão, mas tem algo maior: a coragem de recomeçar.
Foi com isso que Leonardo Pimenta, aos 27 anos, atravessou o Atlântico para se reinventar em Portugal, longe das praias quentes que o viram crescer, mas perto de um futuro que decidiu construir com as próprias mãos. No sorriso traz o Brasil, e no olhar a determinação de quem quer dar à filha uma vida com melhores condições do que aquelas que tivera. Hoje, vê através da janela da sua casa a Serra da Arrábida e o Castelo de Palmela, uma vista que ainda o surpreende. “Tudo nos surpreendeu, o clima, a beleza. Setúbal tem zonas muito, muito bonitas”. A rotina tranquila da cidade traz à tona lembranças do Brasil, onde o tempo passava devagar e a união familiar superava qualquer dificuldade.
Cresceu numa zona rural chamada Novo Horizonte do Norte, situada no estado do Mato Grosso. Carrega consigo uma bagagem cheia de memórias. Apesar de todas as dificuldades, nunca perdeu a felicidade.
“A vida sempre foi muito difícil”, confessa, recordando o trajeto cansativo que fazia diariamente para a escola, e a rotina dos pais que estavam sempre a trabalhar. Ainda assim, nunca faltou carinho. “Às vezes não conseguiam dar aquilo que nós desejávamos, mas algo parecido sempre faziam. A nossa família sempre foi muito unida.
Por mais que passássemos dificuldades, sempre tínhamos felicidade”. O cheiro da comida da mãe, as festas de fim de ano, a casa cheia… Tudo isso ainda o acompanha quando sente saudade. E sente muitas vezes, especialmente quando pensa na irmã mais nova. “Ver por vídeo não é a mesma coisa que sentir um abraço, um cheiro de mãe, de irmão, de irmã”.
Ao mesmo tempo, é essa distância que lhe dá a certeza de que fez o que precisava pela filha. Chegou, portanto, a altura de fazer por ela aquilo que os pais sempre zeram por ele. No Brasil, Leonardo e a esposa enfrentaram algumas dificuldades financeiras: “Mesmo os dois trabalhando, nunca sobrava. E quando sobrava, algum imprevisto levava embora”. Em Portugal, descobriu dificuldades diferentes, sobretudo na documentação. “Nunca consegui agendamento fácil e quando conseguia era para datas longínquas”. Sem documentos, não havia trabalho. Sem trabalho, não havia casa.
Vieram com o dinheiro contado, “quanto mais a demora, mais o dinheiro vai indo embora”, partilha com preocupação. É aqui que Setúbal entra em cena, com o azul profundo do Sado a chamar a atenção.
Passou antes por Guimarães e Lisboa, mas foi o rio que o puxou de volta, fazendo perceber que esta cidade também podia ser sua. O momento de certeza chegou, quando conseguiu a casa onde vive hoje, “tive pessoas que me ajudaram que eu nem conheço. Tenho gratidão eterna por essas pessoas”.
Depois veio o trabalho, a estabilidade e aquela sensação difícil de explicar. “Aqui para mim é um lugar perfeito”. Nem tudo é simples, claro, às vezes tem vontade de apanhar um avião só para sentir novamente o cheiro da cozinha da mãe. “Gostaria que eles estivessem cá para ter a mesma experiência que nós tivemos”, desabafa. Acredita no futuro da cidade que o recebeu, “Setúbal tem muito para crescer. Principalmente no turismo e na restauração. A gastronomia é muito rica”.
Para Leonardo, os imigrantes são parte essencial desse crescimento: “Nós contribuímos com o distrito, e o distrito contribui com as oportunidades que ele tem”. Hoje, com o coração dividido entre dois países, Leonardo Pimenta encontrou um equilíbrio e deixa um conselho a quem sonha fazer o mesmo caminho: “Vai com calma, que vai dar tudo certo. Você pode caminhar para aquilo que deseja, mas só vai acontecer quando for a hora”.
Texto publicado por Maria Santos na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS