É no coração do Mercado do Livramento que Hélder e Rita Lopes recebem quem passa com largos sorrisos e boa disposição. De longe vê se os seus aventais impermeáveis, as galochas e as luvas, que não deixam dúvidas de qual será a sua profissão: peixeiros.
Chego às 09:20 de um domingo ensolarado e a brisa fresca já se sente no ar, mas Hélder e a sua esposa Rita já lá se encontram desde madrugada para deixar tudo preparado com a excelência que os seus clientes já se acostumaram “a gente vem aqui 5/5h30 da manhã para fazer alguma preparação de encomendas de restaurantes”. E é entre o movimento da sua banca que parece nunca ter •m que se vira com um brilho no olhar transparecendo orgulho e diz “Olá eu sou Hélder Lopes tenho 47 anos e sou peixeiro”. As suas raízes sempre estiveram ligadas ao mar, o avô pescador e a mãe trabalhadora na última fábrica de conservas de Setúbal. Faz 30 anos que trabalha de modo efetivo no Mercado, afirma que teve oportunidade de trabalhar numa fábrica após concluir os estudos, mas não é “pássaro para estar preso”, então logo de imediato percebeu que não era vida para si.
Juntou-se ao negócio da família quando regressou da tropa e ficou até hoje, mostra com entusiasmo que tem intenções de continuar “no mercado vou ficar até conseguir, também tenho que lutar para isso. É o que eu escolhi fazer”. Até o seu nome guarda origens às águas do sado, traçando de forma quase intuitiva o seu futuro. Conta de forma emocionada que a sua família tinha uma embarcação de pesca chamada “Hélder Miguel”, comprada pelo seu tio, e quando a sua mãe engravidou o seu pai disse de imediato: se for menino vai ter o nome do barco, e assim foi. /Rita Lopes, que nada tinha a ver com esta vida e não se via nunca a ter, “nem sequer entrava numa peixaria porque punha os dedos no nariz que cheirava mal, quanto mais pensar em vir para aqui vender, mexer, arranjar e fazer isso tudo”, acabou por acompanhar o seu marido nesta vida e afirma já não o trocar por nada.
São a companhia um do outro nesta aventura, mas nem todos os dias são fáceis “o mais difícil é mesmo a semana, o dia a dia é duro”, a exigência do quotidiano é algo que quem passa por esta banca não imagina. Hélder conta sobre as queixas que ouve sobre o preço elevado do peixe que vende, “mas ninguém sabe o que é que a gente passa para os obter”, muitas vezes vai a Peniche e ao Algarve só para ir buscar os seus famosos peixes, entre eles espadarte e atum. Têm orgulho no produto que vendem e da Praça que fazem parte, admira a variedade que existe e ainda mais a qualidade, afirma que é algo que não se vê em outros lugares “os outros mercados de outros países não conseguem oferecer a variedade e a qualidade que nós temos aqui no mercado”, no entanto não esconde alguma preocupação no que toca à mudança geracional “a população mais velha vinha todas as semanas… agora vêm menos”, revela com alguma tristeza.
Entre novos rostos, turistas e clientes fiéis o Mercado do Livramento continua a ser palco para encontros, amizades e convívios, mesmo fora de Portugal “ainda agora fui ver a Seleção a Dublin e encontrei dois clientes meus”, conta rindo-se. Setúbal é a casa deste casal, foi cá que nasceram e que vão passar o resto das suas vidas “é a minha cidade, é a minha mãe, a minha segunda mãe”, conta Hélder com uma facilidade como se as palavras saíssem da sua boca antes de se perceber. Entre as madrugadas, o peixe fresco, os aventais impermeáveis, as galochas e as luvas a única coisa que exigem é respeito. Nesta banca, que é casa, despedem-se com a mesma cumplicidade com que recebem todos: com largos sorrisos e boa disposição.
Texto publicado por Bárbara Antunes na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS