100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
Nova estratégia criada nos anos 80 afirmou o local como um dos destinos turísticos mais exclusivos do país
A Reserva Natural do Estuário do Tejo, constituída a 19 de Julho de 1976, estende-se por mais de 14 mil hectares e é considerada uma das zonas húmidas mais importantes de Portugal e da Europa, sendo também uma das mais extensas. Situada na parte mais a montante do estuário, abrange os concelhos de Alcochete, Benavente e Vila Franca de Xira, integrando uma paisagem marcada por águas estuarinas, sapais, salinas, ilhas fluviais e terrenos agrícolas.
Segundo a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, com a criação desta reserva natural, o poder político que governava à data “pretendia efetuar uma gestão racional do estuário e evitar alterações em determinadas áreas que comprometessem irreversivelmente as suas potencialidades biológicas”.
O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), argumenta que a diversidade de habitats da reserva faz dela um dos ecossistemas mais ricos do país. Os sapais, influenciados diariamente pelas marés, desempenham um papel fundamental na biodiversidade local, servindo de refúgio e de zona de reprodução para várias espécies de peixes, moluscos e crustáceos.
Espécies como o linguado e o robalo utilizam estas águas como “autênticas maternidades”, enquanto peixes migradores, como a lampreia, a savelha e a enguia, encontram no estuário um ponto de passagem entre o mar e os rios.
Segundo o ICNF, é a riqueza da avifauna que distingue verdadeiramente a Reserva Natural do Estuário do Tejo. Durante o inverno, esta reserva acolhe cerca de 120 mil aves aquáticas, entre elas mais de 10 mil patos e gansos e cerca de 50 mil aves limícolas, que procuram alimento e abrigo nesta zona húmida.
A partir da criação da reserva natural, a caça passou a ser proibida e o estuário ganhou reconhecimento internacional pela sua importância ecológica. Atualmente, integra a Rede Natura 2000, através da classificação como Zona de Proteção Especial e como Sítio de Importância Comunitária, além de constar da Lista de Sítios da Convenção de Ramsar, que reúne as zonas húmidas mais importantes do mundo para a conservação da biodiversidade.
Apesar do seu elevado valor ecológico, a Reserva Natural do Estuário do Tejo enfrenta vários desafios que ameaçam o equilíbrio deste ecossistema. Entre os principais problemas estão o abandono de práticas agrícolas tradicionais e a crescente intensificação da atividade agrícola nas áreas envolventes.
De acordo com a QUERCUS, o uso intensivo de maquinaria e de produtos químicos, sobretudo nas culturas de arroz, tem provocado alterações no solo e nos habitats naturais. A acumulação de resíduos plásticos provenientes da atividade agrícola e o abandono das salinas são também fatores que afetam diretamente a fauna e a flora da reserva, colocando pressão sobre as espécies que dependem deste ecossistema para sobreviver.
A poluição continua, no entanto, a ser uma das maiores ameaças à Reserva Natural do Estuário do Tejo. Segundo a QUERCUS, as descargas de origem doméstica, industrial, agroindustrial e agropecuária “provocada pelo não investimento em equipamentos de tratamento dos efluentes”, colocam em causa a qualidade da água, resultando num constrangimento para a conservação das espécies de fauna e flora selvagem da reserva.