100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.
O estádio substituiu o antigo Campo dos Arcos, que já se tornara pequeno para acompanhar o crescimento do Vitória FC
Perante uma casa cheia e na presença de diversas figuras do Estado português, o Vitória Futebol Clube inaugurava a 16 de setembro de 1962, o Estádio do Bonfim. Esta infraestrutura desportiva nasceu da necessidade de substituir o antigo Campo dos Arcos, casa do Vitória desde 1913, que se tornara insuficiente para acompanhar o crescimento de um clube que atravessava uma das fases mais brilhantes da sua história. Na década de 1950, o então presidente vitoriano, Mário Ledo, lançou o desafio de erguer uma nova casa para os sadinos.
Nem todos acreditaram que o projeto pudesse tornar-se realidade. Contudo, a determinação de Mário Ledo e o envolvimento da população setubalense acabaram por transformar o sonho em obra. Os arquivos de O SETUBALENSE testemunham o avanço dos trabalhos ao longo dos anos. Em janeiro de 1956, o jornal dava conta da conclusão do coletor de escoamento das águas do futuro campo, da consolidação do terreno de jogo, da realização de sondagens para estudar as fundações e da intensificação das campanhas de recolha de fundos.
À medida que a inauguração se aproximava, o reconhecimento pelo papel de Mário Ledo tornava-se evidente. Na edição de 15 de setembro de 1962, véspera da abertura oficial, O SETUBALENSE publicava um texto intitulado “Mário Ledo: Um Homem do Estádio”, onde destacava a visão e a persistência do dirigente. “Mário Ledo, figura de vitoriano a que não se deve, sem se incorrer no defeito da ingratidão, negar trabalho imensamente válido na realização, sonhou um dia um Estádio para o seu Vitória. Nem todos acreditaram, Mas Mário Ledo foi por aí adiante – que a vontade firme não admite dúvidas. E o Estádio começou”, escrevia o jornal, sublinhando que o clube lhe devia uma parte fundamental daquele triunfo.
A cerimónia de inauguração realizou-se a 16 de setembro de 1962. O novo estádio recebeu milhares de espectadores e contou com a presença do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, e de António de Oliveira Salazar. O programa incluiu um desfile das modalidades do clube e culminou com o primeiro jogo disputado no recinto, frente à Académica de Coimbra, em que o Vitória saiu derrotado por uma bola a zero, com um golo aos dois minutos de jogo, marcado por Jorge.
Na edição do dia seguinte, O SETUBALENSE reproduzia as palavras de agradecimento dirigidas pelo então Presidente da República, Almirante Américo Tomás. “Em nome da própria cidade de Setúbal, eu digo a Vossa Excelência da nossa gratidão pela enorme honra que nos deu ao inaugurar este estádio, grande sonho de todos nós, ao qual tantos e tantos entregaram, com sacrifício e amor, dinheiro, trabalho, devoção”, referiu o Chefe de Estado.
Ao longo das décadas seguintes, o Estádio do Bonfim afirmou-se como um dos símbolos maiores de Setúbal. Foi palco de jogos da Primeira Divisão, da Taça de Portugal, de competições europeias e de encontros da Seleção Nacional. Em 1970 recebeu iluminação artificial, permitindo ao Vitória disputar em casa jogos internacionais. Dois anos depois viveu uma das suas noites mais memoráveis, quando cerca de 40 mil espectadores assistiram à vitória por 4-0 sobre o Spartak de Moscovo num jogo a contar para os oitavos de final da Taça UEFA.