Nuno Carvalho justifica decisão com “desempenho abaixo do esperado” dos vogais. Lourenço Ferreira defende que presidente falta à verdade
O presidente da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo retirou pelouros e competências a dois vogais do Chega, o mesmo partido pelo qual foi eleito, por “desempenho abaixo do esperado”.
A informação consta de dois editais, publicados em 4 de dezembro e que podem ser consultados na página oficial da junta, nos quais se lê que o presidente da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo, Nuno Carvalho, determina a retirada dos pelouros de Saúde, Educação, Desporto, Ambiente e Espaços Verdes atribuídos a Carla Serafim e de Equipamento Público, Iluminação Pública, Mobilidade conferidos a Lourenço Ferreira, ambos eleitos vogais pelo Chega, com efeitos a partir de 3 de dezembro de 2025.
Nuno Carvalho justifica a decisão – tomada pouco mais de um mês depois da posse dos novos eleitos, na sequência das autárquicas de 12 de outubro – com “o desempenho abaixo do esperado […], materializado pela ausência de qualquer tipo de análise ou proposta para as áreas sob a sua responsabilidade”.
Questionado pela agência Lusa, o presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Anjo afirmou que os motivos para a decisão de retirar os pelouros aos dois vogais “estão muito claros nos despachos emitidos” em dezembro. “Ficaram aquém da expectativa”, reiterou Nuno Carvalho, assegurando que não pediu aos dois vogais para renunciarem aos mandatos.
“Quando as pessoas não entendem que estão aquém das expectativas, ou por idade, ou por falta de experiência de vida, ou por ego – eu acho que é mesmo um problema de egos –, alguém tem de reagir”, justificou.
Já na primeira sessão ordinária da Assembleia de Freguesia de Quinta do Anjo, em 29 de dezembro, disponível no canal de YouTube oficial, Nuno Carvalho, em resposta a questões levantadas por Pedro Rocha (eleito para a junta pela CDU), havia dito: “Expectativa, por si, é uma palavra que ilustra bem o seu significado: quando precisamos de mais ou esperamos ter mais.”
Mas, “ficar aquém da expectativa não quer dizer incompetente”, ressalvou, tendo sido contrariado pelo vogal Lourenço Ferreira, presente na sessão. “Acaba por ser, sim, um atestado de incompetência”, disse o vogal, acrescentando que “não é verdade” que não tenha apresentado propostas.
Nuno Carvalho afirmou então que assumiria “por ora os pelouros [retirados]” e, à Lusa, admitiu que a retirada dos mesmos aos dois vogais teve “algum impacto político”, provocando “algum incómodo” no seio do próprio partido Chega. Mas garantiu que todos os problemas serão resolvidos dentro de pouco tempo. Segundo o presidente da junta, já está prevista para o próximo dia 22, às 21h00, uma reunião extraordinária da Assembleia de Freguesia, na qual espera ver aprovada uma renovação do executivo da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo.
A Lusa tentou contactar os dois vogais através da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo, mas não obteve resposta.
Lourenço Ferreira reage
Em direito de resposta/comunicado enviado às redações, Lourenço Ferreira afirma que os dois vogais estavam disponíveis para prestar declarações, mas que a junta “ocultou deliberadamente o contacto dos jornalistas, sonegando aos eleitos o direito ao contraditório”. “Este bloqueio revela uma postura antidemocrática de quem teme a verdade”, considera o autarca, que não poupa críticas a Nuno Carvalho.
“O presidente falta à verdade quando afirma que não apresentámos propostas. Em sede de assembleia, o próprio admitiu que a ausência de propostas se verificou após o dia 3 de dezembro, data em que ele próprio nos retirou os pelouros. No entanto, quero deixar claro que apesar de não ter havido propostas desde a retirada de pelouros até à data da assembleia de freguesia (tempo muito reduzido), ser autarca exige mais do que burocracia de gabinete e propostas escritas; exige presença no terreno, contacto com as pessoas e coragem para escrutinar o executivo. A minha competência mede-se pela minha integridade, não pelo peso do papel que ponho em cima da mesa”, defende.
“Ao pedir uma ‘autorização genérica’ de 500 mil euros (metade do orçamento), o presidente está, na prática, a pedir um cheque em branco para governar sem dar cavaco à assembleia. E o facto de ter retirado o orçamento por erros técnicos prova que a ‘incompetência’ de que me acusa está, afinal, na presidência. Estes episódios são apenas a ponta do iceberg de incompetência”, aponta Lourenço Ferreira, que questiona de seguida: “Se a suposta inexperiência dos vogais dá direito a perder pelouros, qual é a penalização prevista na sua tabela para um presidente ‘experiente’ que chumba no teste mais básico de gestão, que é apresentar um orçamento sem erros? Renúncia? Se nós não servimos para gerir pelouros, o senhor, com estes erros, serve para gerir o quê?”.
O autarca considera também que “as declarações de Nuno Carvalho, justificando a sua decisão com a ‘idade’ e ‘falta de experiência de vida’ dos vogais, são um atestado de incompetência passado a toda a juventude”. “A competência na causa pública mede-se pelo trabalho, ética e respeito pelo eleitor, não pela data de nascimento”, atira.
“A decisão de retirar pelouros um mês após a posse não se deve a falta de trabalho, mas sim a um processo de saneamento político pré-anunciado. Desde o primeiro dia de mandato que o presidente da junta, Nuno Carvalho, pressionou diversos membros da lista imoralmente para renunciarem ao cargo, admitindo abertamente que esta ‘não era a equipa que queria’, apesar de ter sido esta a equipa eleita pelos fregueses. Assistimos à instrumentalização da Lei da Paridade, cujo espírito nobre está a ser desvirtuado e convertido num mecanismo de engenharia política para contornar a legitimidade democrática conferida pelas urnas”, dispara.
A terminar, Lourenço Ferreira diz que “retirar pelouros um mês depois da posse não é gestão, é autoritarismo”. “’Ficar aquém das expectativas’ do presidente significa, na verdade, não dizer ‘sim’ a tudo o que ele quer. O presidente tem razão numa coisa: há mesmo um problema de ego nesta junta. Mas é o ego frágil de quem não suporta ver a sua ‘experiência’ questionada pela frontalidade de um jovem. Não fui eleito para servir o ego do presidente, fui eleito para servir a Quinta do Anjo. E continuarei a fazê-lo, com ou sem pelouros, fiscalizando cada cêntimo e cada decisão deste executivo”, conclui. Com M.R.S.