Os portugueses, revela agora a Marktest na sua mais recente radiografia às redes sociais, querem ver uma etiqueta. Perante o avanço da Inteligência Artificial, uma esmagadora maioria dos inquiridos prefere que tudo venha devidamente identificado, torcendo o nariz à credibilidade de qualquer coisa que cheire a silício, sobretudo se o assunto for jornalismo ou política. Queremos o aviso impresso a letras gordas, com a mesma desconfiança piedosa com que a nossa avó inspecionava o certificado de qualidade na carcaça do entrecosto.
Entretanto, em Bruxelas, uma falange de eurocratas bem-intencionados rejubila com esta candura popular. O afamado Regulamento da Inteligência Artificial da União Europeia dedicou páginas ao fetichismo das marcas de água e dos rótulos de transparência, convencido de que a salvação da democracia ocidental depende de colar um dístico amarelo no ecrã a avisar: «Atenção, este parágrafo foi gerido por um algoritmo».

É uma ilusão comovente.
Há qualquer coisa de profundamente hipócrita nesta nossa súbita vertigem de pureza autoral. Imagine-se a cena, comum a qualquer conselho de administração entre a Avenida da Liberdade e Wall Street: o presidente executivo balbucia três ideias soltas, pontuadas por dois anglicismos e uma queixa sobre a economia, e pede à secretária que componha a missiva aos acionistas. A mulher passa a ferro a sintaxe, apara as arestas do disparate, injeta solenidade à fraqueza do argumento e devolve-lhe uma carta impecável. O homem lê na diagonal, assina de cruz e manda expedir. De quem é o texto?
Ou o ministro, este eterno general de batalhas alheias. O governante médio raramente distingue um megawatt de uma couve-galega, mas comparece no Parlamento a debitar relatórios orçamentais de duzentas páginas, redigidos nas madrugadas anteriores por uma legião de assessores pagos a recibos verdes. Onde andavam as comissões de ética a exigir um carimbo no rodapé a dizer que noventa por cento daqueles verbos pertenciam a um estagiário anónimo?
Nunca ninguém se lembrou de pedir a certidão de parto da ideia.
A humanidade passou os últimos milénios a fazer exatamente isto: a inventar muletas para aliviar o suor. O rapaz do balcão que soma três bicas e dois pastéis de nata numa velhinha calculadora de bolso não está a assassinar a matemática; está apenas a garantir que o troco não demora uma eternidade. O médico com um caso bicudo na enfermaria que corre aos compêndios, vasculha bases de dados na internet e debate o caso com colegas de banco não é menos cirurgião por isso; está apenas a, conscientemente, eliminar dúvidas e aprimorar um diagnóstico.
A tecnologia sempre foi isto: alavancagem de esforço.
Se tenho uma ideia promissora, mas escrevo com os pés, porque haveria de ser pecado pedir a um modelo de linguagem que me esmere a prosa e me arrume as gavetas do plano de negócios? Se preciso de verter um ensaio para alemão, língua que domino com a destreza de um pato a patinar, porque deveria a editora recusar uma tradução afinada pela máquina, desde que a fidelidade ao original seja escrupulosa?
O problema, bem entendido, nunca foi a ferramenta. O problema é o pescoço.
Quando o assessor redige um disparate grosseiro, o ministro tem de ir à televisão engolir sapos e assumir o custo político. Quando a secretária erra a vírgula que muda o sentido de um contrato, é o património do conselho de administração que vai a julgamento. Havia sempre um corpo humano no fim da linha para levar a bofetada se a obra falhasse.
A máquina, coitada, não tem cara para corar nem espáduas para carregar a culpa.
Ao exigirmos o selo de IA para sossegar a consciência, estamos apenas a construir um biombo para a cobardia generalizada. O rótulo comunitário não serve para proteger o cidadão da mentira; serve para o político, o jornalista e o burocrata poderem sacudir a água do capote quando a calinada for descoberta. «Não fui eu, foi a máquina.»
A sociedade acabará por digerir a inteligência artificial como engoliu o corretor ortográfico, a folha de cálculo e o motor de busca. Dentro de dez anos, o debate sobre o selo vai parecer tão anacrónico como discutir se um romance escrito a computador tem menos alma do que um manuscrito com pena (embora pessoalmente considere o tic-tic da máquina de escrever mais dramático que o de um teclado de computador).
A credibilidade de uma ideia nunca dependeu do fabrico do lápis com que foi desenhada. Depende, pura e simplesmente, da honra de quem aceita assinar a obra no final do dia. E essa responsabilidade não vem com um botão de reiniciar.