Leituras de Verão – “O Homem Que Gostava De Cães” de Leonardo Padura

Leituras de Verão – “O Homem Que Gostava De Cães” de Leonardo Padura

Leituras de Verão – “O Homem Que Gostava De Cães” de Leonardo Padura

, Professor
27 Setembro 2026, Domingo
Professor

Um dos aspectos que aprecio no Verão, é o facto de me permtir uma outra descontracção e disponibilidade para esse exercício fascinante que é a leitura.

Daí que, nas minhas deambulações pelas livrarias, encontrei um livro que já tinha ouvido falar:“O Homem Que Gostava de Cães”.

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 Leonardo Padura é uma figura incontornável da literatura mundial e cubana. Nascido em Havana em 1955, licenciou-se em Filologia, tendo trabalhado durante 15 anos no jornalismo de investigação, antes de se dedicar exclusivamente à Literatura

Padura ganhou fama mundial através da sua série policial protagonizada pelo detective Mario Conde, através do seu olhar atento, efectua uma radiografia da realidade social e política cubana, contradições e dificuldades.

Ao contrário de muitos intelectuais que abandonaram a ilha, Leonardo Padura continua a viver e a trabalhar em Havana.

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Manifesta explicitamente a sua oposição ao regime comunista que vigora em Cuba desde 1959, o que, para grande surpresa minha, conhecendo o modus operandi dos comunistas, não lhe tem trazido consequências, nomeadamente para a sua segurança e integridade física.

Por muito menos, a polícia política cubana, a temível G2, envia os opositores para a prisão.

A sua independência intelectual e a crítica social implícita nas suas obras, que expõem a censura, a burocracia, a pobreza e a desilusão, tornam-no numa figura muito desconfortável para o regime cubano.

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Embora Padura se declare de esquerda e afirme que o seu desejo é ajudar a melhorar o país através da reflexão, as autoridades olham-no com manifesta desconfiança.

Penso que um dos principais motivos pelo qual Padura tem o estatuto de intocável, deve-se ao seu reconhecimento literário global que funciona como uma espécie de “escudo” que o protege de eventuais represálias do regime, enquanto continua a apelar ao respeito por quem pensa de forma diferente.

Contudo, em Cuba os seus livros têm tiragens muito pequenas, no circuito estatal principal.

 Como a tiragem oficial não satisfaz a procura, os cubanos lêem Padura através de cópias piratas (em formato digital ou impresso) ou obtêm exemplares trazidos do estrangeiro.

Eis-nos chegados a uma das suas obras-primas, o livro intitulado “O Homem que Gostava de Cães”; Leonardo Padura coloca o dedo numa das maiores feridas do regime, o assassínio de Leon Trotsky, expondo o comunismo, numa das suas formas extremas, o estalinismo.

No “O Homem que Gostava de Cães”, Leonardo Padura descreve com um enorme talento literário, a forma como Trotsky vai transitando no seu exílio, de país em país, como um pária, olhado de soslaio por todos, desde o Cazaquistão, passando pela Turquia, França, Noruega até chegar ao seu destino final, o México.   

Paralelamente, Padura descreve-nos magistralmente a forma como Ramon Mercader, o assassino de Trotsky, foi reeducado num campo de trabalho soviético.

O comunismo optimiza esse processo de desconstrução, imposto pela necessidade de se criar um homem novo e daí para uma sociedade considerada perfeita.   

Nesse contexto, assistimos à reeducação de Mercader, à sua reprogramação ideológica, perdendo a sua identidade, para executar com eficácia e precisão a operação que o camarada Estaline tinha decidido atribuir-lhe.  

Os fins, mesmo os mais criminosos, justificam sempre os meios.

Leonardo Padura entrelaça e vai progressivamente adensando a narrativa de uma forma notável; vamos assistindo   à transfiguração de Mercader, à viagem para o México, à aproximação ao círculo íntimo de Trotsky, até ao desenlace fatal, o seu assassínio, em 1940, utilizando, para o efeito, uma picareta de gelo desferida de forma certeira na cabeça.

 Ramon Mercader passaria 20 anos numa prisão mexicana, sem nunca revelar os mandantes, embora todos soubessem de onde veio a ordem.

Libertado em 1960, Mercader viajou para a União Soviética, onde foi condecorado secretamente com o título de “Herói da União Soviética”, tendo-lhe sido atribuída a Ordem de Lenine.

 Mais tarde, regressou a Cuba, e já dentro do universo paduriano, passeia os seus cães na praia, e onde, passados muitos anos, questiona as motivações que o levaram a cometer o seu crime.

Leonardo Padura desnuda, sem quaisquer constrangimentos, o comunismo, que, tal com o fascismo, constituem as duas ideologias mais  mortíferas e sanguinárias do século XX.

“O Homem que Gostava de Cães” de Leonardo Padura é um livro que aconselho vivamente. 

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