O responsável pela direção do Vitória FC explica por que razão a ratificação do contrato com o Grupo TAVFER vai a votos nesta quinta-feira, detalha o negócio dos terrenos de Vale de Cobro e lança o alerta: um “chumbo” atirará o clube para o abismo financeiro e para salários em atraso. “Não há plano de contingência, haverá uma emergência”, frisa
O futuro do Vitória decide-se na Assembleia Geral do próximo dia 17 (quinta-feira), às 21 horas, no Pavilhão Antoine Velge. Em entrevista a O SETUBALENSE, Francisco Alves Rito lembra a importância do projeto que a direção defende ser a chave para reduzir o passivo para uns sustentáveis 4 milhões de euros.
Justifica que foram razões de saúde que empurraram a reunião magna para uma invulgar quinta-feira, responde a críticas e assume, sem rodeios, o cenário dramático que se seguirá, caso os sócios votem contra o negócio.
A Assembleia Geral foi convocada para uma quinta-feira, porquê?
Porque foi a data possível de articular com a Mesa da Assembleia Geral que é quem tem a competência de convocar as reuniões magnas. A Direção queria uma sexta-feira ou um sábado e propôs dia 18 ou 19, mas o presidente da Mesa não pode nessas datas, por razões de saúde. O dr. Rui Chumbita informou-nos de que vai ser submetido a uma intervenção cirúrgica no dia 18. Assim, para não adiar a reunião para o final do mês – porque temos dito sempre aos associados que seria a meados do mês de setembro – foi consensualizada a data de dia 17.
Acreditamos que o facto de ser a uma quinta-feira não será impeditivo de os associados participarem. Aliás, apelamos a todos para que participem, que assumam pessoalmente a decisão para que o futuro do clube não fique na mão de apenas alguns que representam apenas contestação gratuita. A maioria dos associados, que é silenciosa, tem de sobrepor-se à gritaria dos que querem desestabilizar e que ameaçam deitar tudo a perder.
Estão criadas todas as condições para que todos os associados possam participar na assembleia em segurança e liberdade. Vai haver segurança e policiamento e a votação da ratificação do contrato será feita com voto em urna.
A convocatória refere ‘votação da ratificação do contrato de parceria com o Grupo TAVFER’…
Sim, a redação desse ponto fala somente em votação, mas, obviamente, haverá, primeiro, apresentação do contrato pela Direção e debate antes da votação. A Direção promoveu já duas sessões de esclarecimento, mas na Assembleia Geral dará todas as explicações, com total disponibilidade e transparência. A nossa preocupação é que os associados votem de forma livre e esclarecida, formando a sua opinião pelo conhecimento direto e não com base na desinformação e no ódio disseminado por alguns nas redes sociais.
Por que vai ser votada a ratificação e não simplesmente o contrato?
Porque o contrato já foi assinado, pela Direção, com base na autorização conferida pela Assembleia Geral. A Direção fez questão de levar a versão final do contrato à assembleia para que possa ser plenamente conhecida dos sócios e para que possam ter ainda uma última palavra. Mas a ratificação é uma figura jurídica específica que consiste na confirmação de uma decisão ou acto que já foi concretizado. Ou seja, as opções da Assembleia geral são confirmar ou não confirmar. Não está em cima da mesa alterar o contrato, porque a fase de negociação já passou e já está em vigor. Mas a assembleia é soberana e pode recusar a ratificação, embora as consequências sejam catastróficas para o Vitória FC.
Consequências catastróficas?
Sim. Seria o caos. Teria de ser resolvida a relação com a TAVFER, o que constituiria um enorme e complexo processo jurídico, e, sobretudo, o Vitória voltaria ao abismo. Continuaríamos a executar o Plano de Insolvência e Recuperação (PIRE) apenas com base no projeto imobiliário do Bonfim, através dos pagamentos da Mirante Sideral – que está em incumprimento parcial e que, receamos, pode falhar a qualquer momento -, deixaríamos de ter uma alternativa a esse eventual incumprimento, deixaríamos de ter solução para pagar a hipoteca de 2,7 milhões dos terrenos de Vale do Cobro, que podem ser vendidos em hasta pública pela Autoridade Tributária a qualquer momento, arriscando-se o Vitoria a perder esses terrenos sem receber qualquer valor, e entraríamos em incumprimento com a equipa principal de futebol. O clube voltaria aos salários em atraso.
Alguns dizem que não há risco, que existem alternativas, mas não é verdade. Estão a ser irresponsáveis e populistas.
O primeiro ponto da ordem de trabalhos é a apresentação de uma moção da Direção. Que moção é essa?
É uma coisa simples, de apelo ao civismo e à responsabilidade individual e coletiva. Queremos pedir aos sócios, antes do início dos trabalhos, que ajudem a criar um bom ambiente, de cordialidade e respeito. De forma que todos possam ficar esclarecidos, participar livremente e que a imagem do Vitória seja a melhor. Essa imagem, que temos vindo a reconstruir, sofreu danos nos últimos dois meses e isso prejudica gravemente o clube.
A ordem de trabalhos fala também em outros assuntos. Quais?
A situação geral do clube e o novo sistema de bilhética que entrou em vigor esta época. Queremos explicar aos sócios o que está a ser feito e porquê. E poderá haver outros temas, se foram colocados pelos sócios. No fundo é um período de informações, que só não ficou como primeiro ponto da ordem de trabalhos para que o início ficasse reservado ao apelo, a tal moção, que pretendemos fazer. Essa moção será submetida a votação para ser uma posição formal da assembleia. Trata-se de uma mera declaração, simbólica, mas achamos importante que todos juntos possamos afirmar os valores que devem pautar a nossa conduta coletiva.
Alguns sócios consideram que os valores adiantados pela TAVFER não são um apoio financeiro a fundo perdido, mas sim montantes que o clube terá de reembolsar mais tarde com as receitas do projeto imobiliário. Se o negócio falhar ou as receitas ficarem aquém do esperado, como é que o Vitória vai pagar esse reembolso?
Isso está bem explicado no contrato. O espírito do acordo é a TAVFER ajudar a valorizar os terrenos de Vale o Cobro, adiantando todos os montantes necessário e, no final, serem descontados os gastos e repartidos os proveitos. Parece-me ser um excelente negócio para o Vilória, até porque não temos recursos para sermos nós a financiar a operação. Claro que a TAVFER não está a colocar todo o dinheiro a fundo perdido – embora coloque uma parte, o que já é raro e muito bom para o Vitória -, mas está a assumir todo o risco. Se o negócio falhar, como pergunta, é preciso ver depois as razões do falhanço. Se for por incumprimento de uma das partes é uma coisa se for por inviabilidade económica é outra. Mas, quer um cenário quer o outro, parece-nos nada provável.
O contrato coloca o Vitória na posição de promotor formal do loteamento e licenciamento dos terrenos de Vale de Cobro perante o município. Por que aceitou a Direção que o clube assumisse esta responsabilidade em vez do parceiro imobiliário?
Para manter o activo como propriedade do clube e, com isso, o Vitória poder ganhar muito mais. Assim não estamos a vender os terrenos agora, numa altura em que os montantes a arrecadar seriam muito reduzidos, e preparamos uma venda posterior, numa fase em que os terrenos, com o Plano de Pormenor aprovado, terão um valor muito superior. Se vendêssemos agora o Vitória receberia, na melhor das hipóteses (se alguém quisesse comprar), entre cinco a sete milhões, com o projeto aprovado serão cerca de 450 apartamentos o que corresponde a um valor de mercado de 150 milhões de euros.
Admite que o contrato não teve como base uma avaliação atualizada dos terrenos de Vale de Cobro antes e depois da aprovação do Plano de Pormenor? Como pode garantir aos sócios que o Vitória não está a alienar património por um valor muito inferior ao preço real do mercado?
Posso garantir isso aos sócios, porque o que o contrato diz é que o Vitória ficará com parte da capacidade construtiva e essa, obviamente, terá o valor correspondente ao preço de mercado na altura da comercialização. Ou seja, se o Vitória ficar com 90 apartamentos, que é a estimativa, o valor será cerca de 30 milhões de euros a preços de hoje. Mais tarde poderá ser mais. A avaliação do valor atual dos terrenos não era possível porque não está definida a capacidade construtiva. O Plano Diretor Municipal (PDM) não a define e o Plano de Pormenor, que a vai definir, não está aprovado. Mas o Vitória está salvaguardado nessa matéria porque o contrato fixa uma fórmula que vai assentar na avaliação futura.
Foram promovidas sessões de esclarecimento, mas mantém-se a crítica de que o acesso às minutas completas e anexos técnicos do contrato continua restrito. Por que é que o contrato integral não foi disponibilizado digitalmente a todos os sócios com antecedência?
O contrato e todos os documentos existentes estão disponíveis e acessíveis a qualquer sócio nos serviços do clube desde antes da Assembleia Geral anterior, há dois meses. Todos os que quiseram puderam consultar e ainda podem. Não foi disponibilizado digitalmente porque não há forma de fazer isso assegurando que fica apenas entre os sócios. Como é evidente, e infelizmente estes dois meses têm comprovado isso, se fosse enviado digitalmente, o contrato já andaria nas redes sociais na íntegra. Esta Direção tem sido a mais transparente de sempre no Vitória. Tudo está acessível aos associados, temos feito reuniões com os sócios, assembleias e ou sessões de esclarecimento, a uma média de dois em dois meses, e temos explicado sempre tudo. Veja-se, por exemplo, que este contrato vai ser submetido a ratificação pela AG, quando não era obrigatório, e que a votação será em urna. É a primeira vez na história do Vitória que um contrato é votado em voto secreto. E também é raro que seja tão conhecido dos sócios. As anteriores direções – estou a falar de há décadas – mostravam os contratos? Não mostravam, explicavam as linhas gerais e os sócios votavam assim.
O grande argumento para este projeto em Vale de Cobro é a redução drástica do passivo para cerca de 4 milhões de euros, com vista a um regresso sustentável aos palcos profissionais. Qual é o plano de contingência desportivo e financeiro, caso os sócios votem contra e chumbem definitivamente a parceria imobiliária?
Não há plano de contingência. Nesse caso o que haverá é uma emergência; o Vitória voltará ao estado de coma em que estava e a responsabilidade será daqueles que escolherem esse caminho. A Direção está de consciência tranquila; está a gerir o clube com honestidade, rigor e estratégia, encontrou a solução de que precisamos para resolver os quatro grandes problemas que persistiam e coloca a decisão final na mão dos associados. Todos somos responsáveis pelo futuro do Vitória pelo que, no final, cada um assumirá a sua responsabilidade.