André Ribeiro: “O Mercado do Vinho é o coração das nossas festas”

André Ribeiro: “O Mercado do Vinho é o coração das nossas festas”

André Ribeiro: “O Mercado do Vinho é o coração das nossas festas”

O espaço central das festividades vai contar este ano com provas comentadas, showcookings e música ao final de cada tarde, de forma a aproximar ainda mais o público dos produtores da região. Mas esta edição, que arranca hoje e se prolonga até terça-feira, apresentará ainda outras inovações

Em Palmela, a tradição ainda é o que era. A Festa das Vindimas arranca hoje e diferencia-se das demais comemorações populares pelo seu absoluto cariz identitário. Em entrevista à Rádio Popular FM (90.9) e a O SETUBALENSE, André Ribeiro, que preside à “Associação das Festas de Palmela – Festa das Vindimas”, destaca a maior dinamização do Mercado do Vinho, enquanto espaço central do evento, e revela outras apostas para esta edição.

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O cartaz artístico apresenta atuações conjuntas, este ano FF com a Humanitária, e Herman José com Os Loureiros. Quando é que surgiu esta ideia de juntar grandes nomes do mundo artístico nacional com as históricas bandas de Palmela?
Estes moldes já tinham sido realizados por outras direções. Em 2024, fomos obrigados a deixar este projeto de parte, porque tomámos posse já muito tarde e tornava-se também difícil conseguirmos realizar os ensaios com as filarmónicas, os ensaios com o artista. Em 2025 regressámos [com esse formato] e este ano voltamos também a fazê-lo, porque para nós é muito importante darmos destaque às duas grandes filarmónicas de Palmela. Queremos que tenham o destaque merecido e que os milhares de visitantes que vêm à nossa festa conheçam os bons músicos que temos em Palmela.

O alinhamento no Fontanário traz desde o flamenco ao fado, com Sangre Ibérico, tributos de Abba Mia, também Phil Collins Legacy… É um cartaz eclético.
Temos vindo a tentar desenvolver um cartaz que seja para todo o tipo de público, para todos os gostos, com vários estilos musicais. Essa é a nossa intenção. Este ano tivemos que reduzir aqui um bocadinho por questões financeiras, porque atravessamos aqui também uma fase mais complicada a nível de orçamentos, mas continuamos a ter um cartaz diversificado.

O cartaz artístico é um forte “chamariz”, mas são os rituais tradicionais que têm um papel de destaque e diferenciador nesta festa, como a pisa da uva, a bênção do 1.º mosto e os cortejos. Pode explicar um pouco de cada um?
A pisa da uva começamos de manhã cedinho, no domingo, com o cortejo dos camponeses. As pessoas vestem-se de camponesas e, com cestos de uva e com carroças que transportam a uva, fazemos o desfile pelo centro histórico que vai dar aos Paços do Concelho, onde está depois a nossa adiafa, a nossa lagariça onde é pisada a uva. No fim desse processo da pisa, é medido o grau provável do vinho para o ano em que decorre a vindima e que vai indicar se temos um bom ano com um bom vinho, com um bom grau, ou se temos um ano menos bom. Temos depois também a missa em que o padre benze o mosto que é recolhido e assim concluímos este ritual.

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E os cortejos são dois.
São dois no domingo, um à tarde e [o outro] depois à noite, no qual apostamos um pouco mais – no ano passado pela primeira vez na iluminação decorativa dos carros. São 12 carros alegóricos que o compõem.

Conseguem defender esses rituais muito identitários da “concorrência” feita pelo cartaz artístico, pelos concertos, que costumam ser o principal “chamariz” em festas populares? Essas tradições não são afectadas?
Não, as pessoas vêm à festa pelas tradições, por aquilo que temos de diferente para mostrar e para oferecer a todos aqueles que ano após ano continuam a visitar-nos. Os milhares de visitantes que temos é prova disso.

O Mercado do Vinho vai passar este ano a contar com sunsets todos os dias. Qual o tipo de ambiente e de público que esperam atrair com esta inovação?
Desde que iniciámos este projeto em 2024, toda a equipa tem tido um foco principal: a dinamização daquele espaço e a atração de público para o mesmo. Porque aquele espaço é o ponto central, é aquilo que nos define, que é a promoção dos vinhos, a venda ao público, a prova, e portanto temos vindo ano após ano a investir e a apostar naquele recinto. O ano passado experimentámos fazer sunsets em dois dias e resultou bastante bem, portanto este ano lançamos todos os dias um sunset. Teremos espaços de comida naquele recinto, em que as pessoas podem petiscar, podem jantar, ouvir boa música, mas também provar os nossos vinhos e até levá-los para casa. A nossa intenção é promover aquele espaço, promover os nossos vinhos, as nossas adegas da região e isso leva-nos também à ampliação que fazemos este ano do espaço da Igreja.
Tentamos apresentar estilos musicais para vários gostos, que se adequam àquele espaço, de modo a podermos atrair público diversificado àquele recinto, que é o coração das nossas festas.

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O clube de vinho mantém-se, mas também com uma inovação, até porque vai contar com provas comentadas e showcookings. Além de aproximar o consumidor comum dos produtores da região, que outros objectivos estão subjacentes a estas experiências?
Este ano, em conjunto com a Rota dos Vinhos, da Península de Setúbal, arranjámos esta forma de impulsionar um pouco aquela que é a gastronomia regional com os nossos vinhos, conciliar tudo, com diversos chefs que irão apresentar vários pratos. Irão apresentar um prato regional, um prato típico, em que convidam uma das adegas com um dos vinhos, para as pessoas poderem ter aqui várias experiências gastronómicas, provarem vários sabores e perceberem também o que melhor se adequa ao vinho com o prato, com a gastronomia.

Há pouco falava na zona da Igreja, que vai passar a funcionar como uma extensão do Mercado do Vinho. Vai acolher pequenas adegas e produtores regionais. Este formato foi pensado para dar visibilidade a projetos familiares, de menor escala?
Sim, tem sido nossa intenção conseguirmos trazer também pequenas adegas, pequenos produtores do nosso concelho, do nosso distrito. Temos tentado de forma a que não se distanciasse também daquele espaço, do centro da festa. E por isso este ano fizemos ali uma extensão para a Igreja, do Largo de São João, onde iremos acolher pequenos produtores, pequenas adegas, mas também os produtos regionais. Teremos tudo ali bem representado.

A Festa das Vindimas de Palmela assume-se também como a primeira do género no País…
Foi a primeira do País e é muito bom representarmos esta festa. Tivemos e temos ainda o privilégio de ter um dos fundadores connosco e tem acompanhado também o evento: é muito bom ainda termos o João Camolas.

Esta Associação da Festa das Vindimas destaca-se por ser composta por juventude. Isto significa que em Palmela a tradição ainda é o que era e que, além disso, consegue ser bem transmitida de geração em geração?
Sim, somos uma equipa toda de jovens e temos tentado com que seja possível inovar aqui também um pouco, mas não descaracterizando aquilo que é a Festa das Vindimas. Acho que temos conseguido levar para a frente esse trabalho. Nós vivemos a festa também desde muito pequeninos. Íamos à festa com os nossos pais, os nossos avós, somos todos de Palmela e conhecemos muito bem as nossas raízes e a nossa identidade.

A rua da Associação das Festas deixa este ano de contar com restauração para passar a estar dedicada exclusivamente ao artesanato. O que é que motivou esta reorganização?
Temos tido muita procura por este tipo de bancas de produtos de artesanato e tínhamos o problema de onde colocar esse espaço. Este ano fizemos esta aposta de descentralizar tudo o que é restauração e colocá-la na Praça dos Sabores, criando ali um espaço dedicado e com outra imagem também. Então decidimos apostar na Rua General Amílcar Mota, que é a rua da Associação das Festas e que passará a dar lugar a tudo o que são bancas de artesanato, expositores.

Quando se fazem alterações, inovações, como esta, normalmente há também quem não goste. Já foram de alguma forma brindados com algumas críticas negativas?
Não, temos tido um feedback bastante positivo. Tivemos a apresentação oficial da festa no passado dia 18 de julho e as pessoas estão muito motivadas e felizes, digamos assim, com o trabalho que tem estado a ser desenvolvido, até mesmo nesta parte da reorganização do espaço e da festa…

A festa continua a ter três palcos, o Palco da Praça dos Sabores, o Palco Principal e o Palco do Mercado do Vinho. Como se faz a gestão de públicos para que todos estes espaços tenham vida própria e não se “canibalizem”?
No Mercado do Vinho temos um espaço que é mesmo no meio do público, para a roda de samba e também outro envolvimento, mas depois temos o palco onde apresentamos uma banda de covers todas as noites. É um espaço controlado e temos tido um feedback bastante positivo ao nível da segurança. A nossa aposta no término da noite é aquele espaço.
O Palco Principal recebe diariamente um artista e depois temos o Palco da Praça dos Sabores, onde as pessoas podem jantar e onde estão representadas as associações do nosso concelho, da nossa região, com diversas modalidades à tarde e durante a hora de jantar. Depois de jantar, este palco recebe artistas de Palmela.

O espetáculo da eleição da Rainha das Vindimas acontece na véspera da abertura oficial da festa, mas acaba por ser visto como um arranque das festividades, embora não oficial…
Existe aqui um ditado: “rainha coroada, festa começada”. Temos o júri que elege a Rainha das Vindimas, que no ano seguinte representará o município no concurso [nacional] da Embaixadora dos Territórios Vinhateiros.

Esperam maior afluência de visitantes este ano ou uma afluência à volta dos mesmos números de edições anteriores? E estamos a falar de que números?
Nós queremos sempre mais. Essa é sempre a nossa intenção, atrair novo público e novos visitantes. Temos tido à volta de 250 mil visitantes ao longo dos seis dias [de festa] e naturalmente contamos com mais este ano.

Qual é o investimento associado à organização de uma edição da Festa das Vindimas?
Com todo o apoio logístico, por parte da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia, e todo o orçamento de despesas que temos inerentes à segurança, ao arraial, aos espetáculos a tudo o que envolve a Festa das Vindimas, ronda cerca de meio milhão de euros.

E qual é o peso do apoio das autarquias?
O apoio logístico anda à volta dos 100 mil euros.

Os 500 mil euros já englobam os 100 mil do apoio logístico?
Sim, já está tudo aqui englobado, e depois a Câmara dá um apoio de 60 mil euros e conseguimos também sempre, através do mecenato da Câmara, ter um apoio extra que vai variando também os valores ao longo dos anos. A Junta de Freguesia apoia também com 7.500 euros.

Como é que conseguem o resto?
A nossa maior fonte de receita advém do espaço do terrado, que é cedido pela Câmara Municipal e que “vendemos” aos feirantes. Essa é a nossa maior fonte de rendimento. Depois temos os patrocinadores, os parceiros que continuam a apostar e a contribuir para que a festa se realize, o peditório que realizamos e inúmeros eventos.

O que o levaria a dizer no final de 8 setembro que esta edição foi um sucesso e uma das maiores edições da Festa das Vindimas?
Acima de tudo, aquilo que para mim e para toda a equipa tem sido mais importante é a parte da segurança. Queremos chegar ao fim do evento com o mínimo de incidentes, o mínimo de ocorrências. Isso para nós é fundamental também. Depois, ter as ruas cheias de visitantes, isso para nós é um orgulho imenso. Ver o nosso trabalho a ser também visitado e reconhecido por milhares e milhares de pessoas que visitam a nossa festa.

N.d.R.: Esta entrevista está disponível na íntegra aqui.

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