Duas gerações, uma cidade em mudança

Duas gerações, uma cidade em mudança

Duas gerações, uma cidade em mudança

Setúbal é uma terra marcada pela sua história, pelas suas gentes e pelas memórias que atravessam gerações. Entre ruas antigas, a proximidade ao rio e à serra, constroem-se identidades que permanecem, mesmo quando os caminhos seguem rumos diferentes. “Setúbal tem uma história para contar”, afirma Nuno Santos, sublinhando a importância da cidade na vida dos seus habitantes.

É neste contexto que se cruzam as histórias de Alfredo Gomes dos Santos e do setubalense que deixou a cidade para estudar, dois sadinos unidos pela mesma terra natal, mas separados por percursos distintos. As suas vidas refletem, de maneiras diferentes, as transformações que Setúbal viveu nas últimas décadas.

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Alfredo Gomes dos Santos nasceu na terra sadina a 23 de outubro de 1949 e viveu sempre no concelho. Cresceu numa cidade pobre, marcada por dificuldades, e começou a trabalhar desde cedo como soldador, sobretudo na Setenave. “Trabalhei sempre desde os 11 anos”, afirma, destacando os valores da honestidade, do respeito e do trabalho. A sua vida profissional está ligada ao período em que Setúbal era fortemente industrial.

As suas memórias incluem momentos difíceis, mas também um forte apego à cidade. “Gosto do Mercado do Livramento, gosto da Praça do Bocage”, revela. Para o antigo soldador, estes espaços representam a ligação entre o passado e o presente da cidade. Apesar das mudanças, mantém orgulho em ser setubalense.

Nuno Santos, por sua vez, nasceu igualmente na cidade do Sado, onde estudou até concluir o 12.º ano. Mais tarde, mudou-se para Lisboa para continuar os estudos, afastando-se gradualmente da terra natal. “Perdi um bocadinho o contacto com a cidade”, admite.

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As suas recordações estão ligadas à escola e à juventude, numa época em que a região começou a perder fábricas e empregos. Para o entrevistado, a vida local tornou-se cada vez mais dependente da capital. “Setúbal começa cada vez mais a ficar um dormitório de Lisboa”, afirma. Ainda assim, acredita no potencial turístico do concelho, defendendo mais investimento em infraestruturas. 

O antigo operário, por outro lado, preocupa-se com o envelhecimento da população, o aumento do custo de vida e a falta de respeito pelos mais velhos. Lamenta a perda dos valores comunitários e sente que hoje existe menos solidariedade entre vizinhos.

Apesar das diferenças, ambos partilham o orgulho da sua terra e reconhecem a importância histórica de Setúbal, sobretudo após o 25 de Abril, que trouxe melhorias visíveis à cidade. Este momento marcou profundamente o desenvolvimento do concelho, trazendo melhores condições de vida, mais liberdade e novas oportunidades. Entre a permanência do antigo soldador e a partida do setubalense que saiu para estudar, constrói-se o retrato de uma cidade em mudança, que procura adaptar-se aos desafios do presente sem esquecer o seu passado.

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No fundo, a terra onde nasceram continua a ser, para ambos, uma casa feita de memórias, identidade, pertença e esperança. Entre ruas conhecidas, rostos familiares e histórias partilhadas, a cidade mantém viva a ligação entre gerações. As histórias de Alfredo Gomes dos Santos e de Nuno Santos mostram que, apesar das mudanças, o sentimento de pertença permanece forte. Mesmo quando os caminhos se separam, a ligação à terra natal continua presente. É nessa ligação entre pessoas, lugares e memórias que reside a verdadeira força de Setúbal, construída diariamente pelas suas gentes e pela sua história.

Texto publicado por Gonçalo Domingues na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS

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