Com um sorriso rasgado no rosto, António José Grosso Eustáquio, habitante de Setúbal, deixa escapar uma verdade que carrega há décadas “Nunca senti vontade de voltar para o Alentejo. Considero-me mais setubalense do que alcaçovense”. Natural de Alcáçovas e nascido a 10 de dezembro de 1946, faz as suas malas e muda-se para este concelho no dia 13 de junho de 1970, em busca de uma nova vida. “Ora, tinha vindo da guerra do Ultramar e, para não trabalhar no campo, a única saída que havia era aqui, para Setúbal para a fábrica da IMA, Indústria de Montagem de Automóveis” recorda.
Nesta fábrica de construção de carros, não encontrou o motor dos sonhos. Trabalhou neste estabelecimento durante 12 anos, afirmando que trabalhar na IMA “era um bocado escravidão”, pois ali trabalhava-se no duro. Porém, não estranhou muito porque tinha vindo do “pão que o diabo amassou”, referindo-se à Guerra Colonial. Ainda assim, o setubalense não se arrepende de ter vindo para cá pois sempre teve uma vida tranquila agradecendo a cada prato cheio que teve direito “Nunca tive a vida de querer comer e não ter”. Mas, o tempo passa, e o que antes lhe parecia uma via de sonhos, agora parece uma estrada com o trânsito lento, e revela que Setúbal já não é o que era, que não sente que a cidade esteja a desenvolver-se de todo. Apesar de daqui a 100 anos já cá não estar, António Eustáquio revela num tom pesado que “Muita gente não vê, mas há muita miséria em Setúbal, e eu gostava que isso acabasse”.
O problema de habitação e os preços altos para necessidades básicas são algo que o amedronta e incomoda, não por ele, mas pelos outros, “Assusta-me”. “Para mim o 25 de abril foi muito bom” os seus olhos brilham ao relembrar, ainda enquanto estava na IMA, onde lutou juntamente dos colegas por melhores condições de trabalho e um ordenado mais alto, visto que, trabalhava sem pausas. “Tínhamos de assinar uma folha a dizer que nos comprometíamos a trabalhar de qualquer maneira. Quem é que ia dizer que não ao trabalho naquela altura? Ninguém”. Eustáquio afirma que esta é a sua recordação mais amarga antes da liberdade ser restaurada.
Após a Revolução dos Cravos, tudo mudou: as condições, os horários, o salário e o respeito. A pressão que antes o sufocava deu lugar à respiração. Alegria e satisfação, resume alguém cuja vida acabara de ficar mais leve. “A Feira de Santiago é a melhor do mundo” refere o habitante com orgulho. Mesmo acreditando que a cidade de Setúbal está parada, a feira nunca perde o brilho, e que esta terá sempre o mesmo valor graças às lembranças que lhe traz, como por exemplo, ir comprar as famosas farturas com a sua falecida mulher. Essas que hoje lhe enchem mais o peito do que a barriga.
O testemunho de António Eustáquio mostra como a vida marcada pelo trabalho duro e por uma chegada numa altura atribulada pode transformar-se num vínculo profundo com a cidade. A sua voz carregada com uma mistura de orgulho e preocupação, revelando um afeto que não ignora as fragilidades do presente. Entre as memórias da IMA, as mudanças do 25 de abril e o carinho pela Feira de Santiago, Eustáquio lembra-nos que a história de um distrito também se escreve através das pessoas que nele encontram o seu lugar. A sua experiência, simples, mas carregada de emoção, revela a força de quem continua a achar que Setúbal pode e merece ser melhor.
Texto publicado por Beatriz Eustáquio na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS