“Aquilo era um bairro histórico, um bairro de pescadores. Quem lá passou nunca esquece”. Para a moradora, as Fontainhas eram sobretudo som, cheiro e imagem: o bater das redes no chão, o peixe fresco, as vizinhas que se tratavam por família e o marido que caminhava ao seu lado, conhecendo cada pedra do caminho. “O bairro para mim morreu”, quando Maria Eugénia diz isto, o tempo parece abrandar.
Há uma luz quente nos seus olhos, como se o passado acendesse a sala. O olhar viaja para um lugar que já não existe — pelo menos, não como ela o conheceu. A vida começou ali, entre vielas estreitas, tanques de roupa e o rumor do Sado. Maria Eugénia recorda o passado com uma nitidez que o tempo nunca apagou. Lembra-se da mãe sair às três da manhã para a fábrica de conservas, embrulhada na pressa de quem não podia falhar. “Chamavam quando queriam, às horas que quisessem”, confessa. Dentro dos edifícios, o frio colava-se ao corpo e o cheiro forte da conserva impregnava tudo. As mulheres tinham as mãos gretadas do sal, cortadas pelas redes, e ainda assim seguiam firmes, porque não havia alternativa.
A dureza daquele tempo aparece também na comida, ou na falta dela. Existiram dias em que não havia quase nada para pôr na mesa. Nessas alturas a mãe improvisava “bifes de cafeteira”, que nada mais eram do que fatias de pão com açúcar e água quente. “Era o que havia. Comíamos e ficávamos satisfeitas”, diz, num sorriso que mistura nostalgia e ironia. Crescer ali foi saber aprender desde cedo o peso da pobreza, mas também a força que se ganhou com ela. A avó materna surgia como um pilar. Vendia ostras no cais, apanhadas pelo avô ao amanhecer. “Eu e a minha irmã comíamos tantas ostras em miúdas que hoje não posso nem vê-las”, recorda, divertida.
Entre as guras que marcaram aquelas décadas, destaca-se a Tia Regélia, símbolo maior da entreajuda que de nia a comunidade, “Dava tudo a toda a gente. Tudo”, recorda a antiga residente. Ao falar do marido, o rosto amacia. Foram décadas de cumplicidade: compras na praça, rotinas partilhadas, discussões leves sobre o peixe que cava demasiado cozido, sacos carregados a dois e um mundo construído dia após dia.
O luto deixou-lhe um silêncio difícil, mas as memórias continuam a acompanhá-la. “Ele era a minha luz. Caminhávamos juntos. Era a minha companhia para tudo”. A praça ainda faz parte do quotidiano, mesmo depois de ter saído das Fontainhas. Hoje, tem o hábito de ir aos mesmos vendedores — o senhor Zé, a dona Florinda, a dona Júlia e o casal, ‘Fernando e Fernanda’. “Sabem como gosto do peixe, deixam-me escolher, tratam-me bem”, conta. Apesar de tudo, a antiga moradora já não vive no bairro. Saiu quando percebeu que o lugar deixava de ser o mesmo. Primeiro veio a ponte, depois o trânsito, as obras, a mudança de vizinhança.
As mercearias fecharam, os cafés desapareceram, as portas deixaram de estar abertas. “O bairro perdeu as pessoas. Sem pessoas, não há Fontainhas”. E há algo ainda mais profundo: hoje, evita lá voltar. “Custa–me muito. Sinto uma tristeza enorme ao ver aquilo assim”. O clube Vitória de Setúbal continua a ser uma paixão antiga, herdada da mãe e passada para as gerações seguintes. “O clube para mim morre comigo. É a minha paixão”. A bola unia a família, dava cor aos domingos e aquecia o coração mesmo nos anos mais difíceis. No ano em que o distrito de Setúbal celebra 100 anos, a história desta antiga residente mostra que a alma de um bairro não vive nas casas nem nas ruas, vive em quem o carrega por dentro.
As Fontainhas transformaram-se num espaço que lhe é estranho, mas dentro do coração de Maria Eugénia o bairro permanece intacto: nas vizinhas sentadas no muro, no cheiro da maré e no homem que ali lhe mostrou, todos os dias, o que era o amor.
Texto publicado por Maria Santos na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS