Amor pela cidade que a inspira

Amor pela cidade que a inspira

Amor pela cidade que a inspira

Maria de Caetano é fadista, setubalense e profundamente ligada à cidade que a viu nascer. Orgulha-se de afirmar “Sou lha de Setúbal” e dedica grande parte da carreira a homenagear o distrito através do fado.

Ao longo da vida, acompanhou de perto a evolução da cidade, do comércio da Baixa às mudanças sociais, mantendo sempre uma relação de amor, memória e pertença com Setúbal. Sempre viveu nesta cidade, dedicando-lhe amor e cuidado.

Desde que voltou ao fado, escreveu músicas homenageando, devotadamente, o seu amado concelho. Satisfeita, Caetano fala da evolução da Baixa, que teve o prazer de assistir ao longo dos anos: “A Baixa era o que hoje se vê de movimento nos grandes centros comerciais, mas movimento a sério.

Nas ruas, a gente era ali uns contra os outros, especialmente nas festas de Natal, as Páscoas. Trabalhava-se muito”. Ao recordar isto, a artista deixa transparecer uma saudade sincera de um tempo que já não volta. Hoje, observa com preocupação o comércio, que outrora viu florescer e agora enfrenta dificuldades. “É com grande espírito de sacrifício que os lojistas enfrentam agora a nova tecnologia”, lamenta, lembrando que cada loja é parte da história de Setúbal. ”Um totoloto que me saiu foi o divórcio”; a setubalense não esconde que viveu um casamento repleto de violência, um inferno de 32 anos.

Quando voltou para o fado, foi sem expectativas: acabara de sair de um pesadelo e só queria cantar. E cantar foi o que a salvou. Atualmente, confessa: se a sua história terminasse agora, seria realizada e feliz. Maria de Caetano tem 68 anos e, apesar de só ter iniciado a carreira de fadista há 18, sempre sonhou em cantar. Acredita que este estilo musical está mais forte do que nunca no concelho: “As pessoas, antigamente, tinham de ir a Lisboa para ouvir um bom fado e comer uma boa refeição. Hoje em dia não é necessário, Setúbal está bem representado”. Revela que a Câmara Municipal tem um projeto, que já dura há sete anos, chamado Fado nos Bairros, com o intuito de levar esta vertente musical a pessoas que não têm como assistir. “Estamos muito bem de fado em Setúbal”. Ver o distrito completar 100 anos é motivo de celebração.

Caetano recorda o antigamente com um sorriso: “Brincávamos na rua até tarde e a minha mãe juntava-se à porta com as vizinhas. Havia ali um convívio”. Nos dias de hoje, confessa que sente falta desse contacto humano. Daqui a 100 anos, a cantora afirma de maneira firme que “Setúbal é uma terra que aconteceu muita coisa e ainda vai acontecer. Setúbal vai ficar na história, para a eternidade”.

Entre os seus desejos, destaca a melhoria do problema da habitação e acredita que o avanço da tecnologia pode ajudar a melhorar a vida das pessoas e tirá-las da rua. Apesar de já ter passado por outros sítios, afirma com convicção que “Setúbal é o meu porto seguro, não me tirem daqui”.

Está certa de que a sua marca cará vinculada à cidade e será falada quando o assunto for a música, “Tenho feito muita coisa pela cidade, muita coisa que fica na história”. Cada canção é uma homenagem sincera, um legado que quer deixar, onde cada nota fala de quem é, do que viveu e do que ama. ”Eu juro mais lha da puta nenhum me põe a mão em cima”, foi esta a frase que Maria de Caetano fazia ecoar ao correr a escadaria da Conservatória da Moita, pronta para deixar para trás 32 anos de sofrimento. Neste dia, a fadista não fugia, libertava-se. Decidiu que iria finalmente começar a viver por si e não pelos outros.

Texto publicado por Beatriz Eustáquio na edição especial da revista ‘Per Local’, da ESE-IPS

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