Há vidas que não se explicam só com datas ou lugares, porque o que as move nem sempre se vê, são feitas de decisões quase silenciosas e de uma coragem que cresce aos poucos.
A história de Susan Jones é assim, começa muito antes de chegar a Portugal e, de certa forma, começa até antes da própria perceber que estava a começar.
Jones tem 67 anos, é enfermeira reformada e artista plástica, nasceu em Oakland, na Califórnia, e cresceu à beira da baía que abraça São Francisco, entre a luz que brilha na água e as pontes suspensas que pareciam tocar o céu, numa paisagem que ainda hoje recorda com os olhos acesos, “É uma das zonas mais bonitas dos Estados Unidos”. Filha de imigrantes, cresceu entre histórias de partidas e recomeços, talvez sem imaginar que, décadas mais tarde, seria ela a repetir esse gesto de atravessar fronteiras para procurar uma nova versão de si mesma. E há um detalhe que a faz sorrir quando o diz, “Sou uma imigrante agora e os meus pais foram imigrantes para os Estados Unidos”.
A vida, de certa forma, fechou um círculo. A primeira vez que Portugal lhe atravessou o pensamento tinha 17 anos e vivia na ilha de Santorini, onde o pai tinha uma pequena casa. Sob o azul do mar e o branco das paredes,
preparava-se para regressar à Califórnia e entrar na universidade quando sentiu o peso do futuro. “Estava um pouco sobrecarregada com o conhecimento de todas as responsabilidades adultas que teria de enfrentar”, recorda. Pensou em ficar, começar do zero, mas percebeu que não podia fugir e nesse momento surgiu-lhe uma ideia que guardou em silêncio, “Haverá um momento na minha vida em que ainda serei suficientemente jovem para fazer outra coisa. Mas não será na Grécia. Será provavelmente num lugar como Portugal”. A vida seguiu o seu caminho e Susan Jones também.
Regressando aos Estados Unidos, construiu carreira como enfermeira, casou, teve um filho, fez amigos e nunca deixou de pintar. No entanto, quando a reforma se aproximou, voltou a ouvir aquela promessa antiga. “É como ter uma segunda vida, começar uma nova vida”. Pensou em Lisboa, mas acabou por encontrar casa em Setúbal, quase por acaso, em plena pandemia.
A chegada foi dura, uma vez que o mundo estava fechado, os cafés vazios e as pessoas distantes. Com um olhar mais pesado, Jones respira fundo e continua, “Passei cerca de oito meses sem falar com ninguém”, caminhava ela cidade, observava o rio, as ruas, mas sentia-se invisível. Tentou-se aproximar de outros estrangeiros, mas sentiu o vazio do olhar deles. “Disse ‘Hi, my name is Sun’, e ela simplesmente desviou os olhos”. Aquele instante, tão breve, deixou uma marca inesperada. Fez-lhe perceber que partilhar a mesma língua não é suficiente para criar ligação e que não tinha atravessado um oceano para viver rodeada apenas por americanos.
Aprender português tornou-se, então, uma questão de princípio e de sonho. “Sem isso, é impossível funcionar bem”, para além disso, Susan Jones quer ser capaz de explicar o seu trabalho em português, porque o que pinta é “muito poético e muito pessoal” e precisa de contar a jornada do seu coração na língua do país que escolheu. Para esta, integrar-se não é apenas morar aqui, é pertencer.
Sente falta da família e dos amigos de décadas, mas acredita que este recomeço a deixa viva. “Isto mantém-me jovem”. E talvez seja esse o pico da sua história, a coragem de cumprir, aos 67 anos, a promessa que fez a si própria aos 17.
Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS