100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS. História do estaleiro naval estratégico para a Armada que emergiu no Alfeite, de onde saiu o primeiro petroleiro construído em Portugal
Foi inaugurado em 3 de maio de 1939, embora tenha iniciado atividade em pleno cerca de um ano antes, pouco depois de ter sido concluída a sua construção – em dezembro de 1937 –, a qual fora iniciada em 1928. O Arsenal do Alfeite, em Almada, viria a cotar-se como referência nacional e até mesmo internacional, quer na construção, reparação e manutenção de navios militares, quer no fabrico de navios mercantes de grande, médio ou pequeno porte.
A atividade no Alfeite foi iniciada “com as reparações dos contratorpedeiros da Armada ‘Dão’ e ‘Tâmega’, sendo este último o primeiro navio a atracar no estaleiro”, lê-se na história publicada em www.arsenal-alfeite.pt. Mas, o fabrico de embarcações marcou igualmente os primórdios da laboração, desde logo “com a cerimónia de assentamento de quilha”, no dia da inauguração do estaleiro, “daquele que viria a ser o primeiro navio” ali a ser construído – “o navio hidrográfico D. João de Castro”.
Entre as décadas de 1940 e 1960 foram construídos no Arsenal do Alfeite vários tipos de embarcações, militares e outras, mas duas entraram para a história: o navio petroleiro ‘Sam Brás’, por ter sido o primeiro a ser fabricado em Portugal; e o também petroleiro ‘Gerês’, que passou a ser o maior de sempre construído no Arsenal do Alfeite, com “191,7 metros de comprimento e 35.625 toneladas de deslocamento”.
Durante este período, além do ‘Sam Brás’ e do ‘Gerês’, nasceram no estaleiro “várias classes de navios de patrulha (N.P.) e lanchas (L.F.P), vedetas de transporte de passageiros, batelões de carga, rebocadores”, a juntar ainda aos “petroleiros ‘Sameiro’, ‘São Mamede’ e ‘Erati’ para a então designada Soponata (Sociedade Portuguesa de Navios Tanque)”, o que contribuiu para “o desenvolvimento da Marinha Mercante Nacional”.
Isto, apenas para consumo interno, porque, no mesmo horizonte temporal, o Arsenal do Alfeite construiu também para “armadores estrangeiros”, casos dos “arrastões de pesca ‘Portisham’ e ‘Portaferry’ para o Reino Unido”, do “petroleiro (casco) ‘Hector’ para a Suécia” e, no final da década de 60, do “iate ‘Donapila II’, projecto do arquitecto português, Jorge de Almeida Araújo”.
Docas aumentam capacidade
Com a década de 1970 veio o alargamento da capacidade operacional do estaleiro, através da criação de uma doca seca e de uma outra – construída no próprio Arsenal do Alfeite – flutuante e “destinada principalmente a docar e reparar os submarinos classe ‘Albacora’ da Armada”. Fruto desse investimento, durante esta e a década seguinte, foi possível aumentar a “manutenção dos meios navais da Armada”, como disso foram exemplo “as grandes revisões das fragatas e dos submarinos” e também “a grande modernização do navio escola ‘Sagres’ em 1988”.
Ainda neste período manteve-se, de certa forma, a cadência de construção de embarcações, como o navio balizador ‘Shultz Xavier’ (no início dos anos 70) e – já depois da “abertura política verificada com o 25 de Abril de 1974”, que permitiu ao estaleiro alargar “o seu mercado” – os dois “grandes navios de carga refrigerada” para a Polónia: ‘Dzieci-Polskie’ e ‘Zyrardów’. A estes somaram-se ainda “uma lancha de desembarque grande e várias de desembarque médias, um navio de pesquisas oceânicas, várias vedetas de transporte de passageiros, duas lanchas salva-vidas, lanchas de fiscalização, a classe ‘Albatroz’, duas lanchas hidrográficas, ‘Andrómeda’ e ‘Auriga’”, conforme é detalhado no mesmo histórico publicado na página do Arsenal do Alfeite.
A partir de 1990, foram operadas “várias reestruturações” que trouxeram “novas valências e capacidades ao estaleiro”, destacando-se “as oficinas de armamento e de eletrónica”, “a criação e acreditação” dos seus laboratórios e “a implementação do Sistema Informático de Apoio à Gestão Integrada da Produção”.
Por estes anos, a manutenção dos navios tornou-se “preponderante” no estaleiro, que continuou a assegurar a construção de embarcações e a apostar na inovação tecnológica. O Arsenal do Alfeite contribuiu ainda com trabalhos “para a indústria naval e metalomecânica portuguesa”, como “a enformação de chapa e construção de blocos para superpetroleiros da Lisnave na Margueira” ou “elementos de guindastes ou de pórticos: bogis, lança e pernas do pórtico da Setenave na Mitrena”, entre outros.
Em 2009, o estaleiro deu lugar, por decisão governamental, à Arsenal do Alfeite Sociedade Anónima.
Reconhecimento Distinções do Presidente da República e do município
O desenvolvimento que o Arsenal do Alfeite aportou à região e, sobretudo, ao País viria a ser reconhecido em 1990 pelo Presidente da República de então, Mário Soares. Foi no âmbito das comemorações dos 50 anos de existência, que o estaleiro foi agraciado com “a Insígnia de Membro Honorário da Ordem do Mérito Agrícola e Industrial (Classe do Mérito Industrial)”.
E em 2007 seguiu-se nova distinção, neste caso atribuída pela Câmara Municipal de Almada: “a Insígnia e Medalha de Ouro da Cidade de Almada, a mais alta distinção municipal”.
Em 5 de fevereiro de 2009, o Ministério da Defesa Nacional determinou “a extinção do Arsenal do Alfeite, com vista à sua empresarialização”. Foi então constituída a “Arsenal do Alfeite, S.A.”, uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos.