O Liceu de Setúbal: um igual muito diferente entre os seus pares

O Liceu de Setúbal: um igual muito diferente entre os seus pares

O Liceu de Setúbal: um igual muito diferente entre os seus pares

100 ANOS DO DISTRITO DE SETÚBAL, 100 ACONTECIMENTOS.

Enquadramento histórico

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A instituição liceu teve origem em França (1802), precisamente com o nome lycée, mas já no século XVI a Reforma Protestante criara o ginásio alemão. Ambos, liceu e ginásio, influenciaram o modelo de escola de ensino secundário que se impôs e generalizou em toda a Europa a partir do século XIX.

Na segunda metade do século XVIII, as reformas pombalinas deram origem à primeira tentativa de estatização do ensino, retirando-o da tutela da Igreja, onde fora praticado nos colégios jesuítas. Em 1759 estes colégios foram extintos e, em 1771, foi atribuída à Real Mesa Censória a administração das escolas de estudos menores − primeiras letras e ensino secundário – assim como do Colégio dos Nobres.

Nos primeiros anos do século XIX, depois da perturbação provocada pela deslocação das populações e pela partida da família real para o Brasil (na sequência das Invasões Francesas), o ensino passou por uma certa estagnação, aproveitada pelos liberais para uma profunda reforma geral, de que resultou, entre outras medidas, a criação da instituição liceu.

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O liceu português, filho da Revolução Liberal de 1820

Na sequência da Revolução Liberal de 1820 ocorreram duras lutas políticas entre liberais e absolutistas, que acabaram na guerra civil de 1828-34. Com o seu fim e a vitória liberal, reorganizou-se o país com vista à reconstrução e ao desenvolvimento, segundo o lema: «a instrução dos povos é essencial ao progresso». Decretou-se, então, uma reforma do ensino que englobou todos os níveis de escolaridade: primário; secundário; profissional; normal (de formação de professores do ensino primário); artístico e superior.

Neste contexto nasceu o liceu em Portugal, como uma nova escola de ensino secundário, que teve o seu momento fundador inicial em 1836, com o decreto de Passos Manuel, de 17 de Novembro. Este foi o primeiro dos decretos que materializaram a profunda reforma do ensino. Tratou-se de uma iniciativa muito inspirada no liceu francês: na concepção do ensino e nas modalidades organizativas.

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Mas não se pense que este decreto fundador inicial criou uma rede de estabelecimentos de ensino em todo o território nacional, nem que o que se construiu, lentamente, ao longo de sessenta anos, era semelhante à ideia que temos do liceu no século XX. Por isso se fala no segundo momento fundador, decorrente da Reforma de Jaime Moniz, de 1894/95, que pôs fim ao atomismo do regime de ensino por disciplinas.

Esta reforma de finais do século XIX, tal como a criação do liceu em 1836, inseriu-se no contexto europeu da contemporaneidade, em geral, e da contemporaneidade educativa, em particular. Por isso, na transição do século XIX para o XX, ocorreram em diversos países europeus várias reformas fundamentais: Reforma prussiana (1900); Reforma do «baccalauréat» francês (1902); Education Act inglês (1902), entre outras.

Em Portugal, a Reforma de Jaime Moniz moldou, profundamente, a estrutura da instituição liceu e fixou-lhe, definitivamente, o modelo do ensino por classes que, de certo modo, ainda corresponde à escola secundária de hoje. A consolidação baseada na estrutura criada em finais do século XIX permitiu vencer os desafios que a instituição liceu enfrentou na sua evolução, de que se destacam os seguintes:

1. De finais de 1920 a finais de 1930 houve um retrocesso do modelo do ensino por classes, regressando-se ao regime de estudo por disciplinas, com a finalidade de conter a procura: não passou de um compasso de espera votado ao fracasso;

2. Apesar desta restrição, a procura não parou de crescer até à chamada «explosão escolar» de meados de 1950, cujo número de alunos nos liceus mais do que duplicou em dez anos: 1956/57, 31 896 alunos; 1960/61, 46 060; 1966/67, 66 391. O que exigiu mais escolas e novas modalidades de ensino;

3. A nova realidade exigiu uma reflexão sobre o papel da educação (na ligação com o crescimento económico e com o progresso social), tendo para tal contribuído o Projecto Regional do Mediterrâneo (participado por Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Jugoslávia e Turquia, sob a égide da OCDE) a partir de 1959, o qual ajudou Portugal a definir as linhas da sua reforma educativa;

4. A criação do CPES – Ciclo Preparatório do Ensino Secundário (1967) é um exemplo da nova organização do ensino. Retirar aos liceus e às escolas industriais e comerciais os dois anos do 1.º ciclo, representou o primeiro passo da unificação do ensino pós-primário;

5. No início dos anos de 1970, a Reforma Veiga Simão, com a experiência dos 7.º e 8.º anos unificados, marcou mais um avanço no percurso iniciado pelo CPES.

6. Em 1975, um Despacho ministerial, de 1 de Agosto, instituiu o Ensino Secundário Unificado (ESU);

7. Em 1978, o Decreto-Lei n.º 80, de 27 de Abril, consumou a extinção das instituições «liceu» e «escola industrial e comercial», como última etapa da unificação do ensino secundário sob a designação institucional de «escola secundária». Integraram-se nesta nova categoria os liceus e as escolas industriais e comerciais, assim como as novas escolas secundárias a criar.

Ao ensino secundário materializado, em especial, no liceu, chamou o conhecido historiador francês Lucien Febvre «o todo poderoso Império do Meio» (nota 1), pela importância deste longo período de escolaridade na vida dos jovens. A partir do último quartel do século XIX, em diversos países a estatística fez a entrada ao serviço do Estado e o ensino secundário reforçou a consolidação do Estado-nação através da formação de cidadãos, em especial das elites dirigentes. Entre nós, durante boa parte do século XX, o final do ensino secundário coincidia, para quem estudava, ou a entrada na universidade, ou na vida profissional. A seguir vinha o serviço militar obrigatório e o matrimónio. Portanto, era o poderoso Império do Meio que dominava dos 10 aos 18 anos.

A lenta consolidação da instituição liceu em Portugal

A evolução do ensino secundário (através do liceu) foi muito lenta ao longo de décadas e teve configurações institucionais muito diversas em vários aspectos, concretamente nestes:

1. Na categoria e estatuto que ela conferia, nomeadamente, liceus centrais, nacionais e municipais;

2. Nos lugares de prática do ensino em edifícios adaptados (casas particulares; seminários; conventos; prédios de habitação; armazéns; pavilhões e edificações provisórias, etc.), até haver o primeiro programa de construção de imponentes edifícios liceais, o que só surgiu no início do século (o segundo programa foi de 1938);

3. No regime de ensino, por classes ou por disciplinas;

4. No modelo de governação, o reitor como delegado do Governo ou como representante dos professores;

5. No currículo escolar, literário e humanista ou científico e utilitário;

6. No papel social, na lógica da oferta, para formar elites, ou na lógica da procura, para promover a mobilidade social.

Apesar de as soluções encontradas terem sido híbridas, podemos identificar quatro períodos distintos neste percurso evolutivo:

1.º De 1836 a 1894/95, o período das indecisões sobre o rumo a tomar, de que resultou a muito lenta implantação da rede dos liceus no país;

2.º De 1894/95 até finais de 1920, o período da lenta, mas segura consolidação e início da expansão;

3.º De finais de 1920 a meados de 1950, o período da expansão contínua mais significativa, apesar da referida mudança de rumo nos anos de 1920/30;

4.º De meados de 1950 até 1978, o período da explosão escolar e do maior sucesso dos liceus. Ironicamente, acabou na sua extinção, com a completa unificação do ensino secundário (organizacional desde 1975; formal na designação das escolas a partir de 1978).

A evolução do número de alunos espelha bem estes períodos
PeríodosNúmero de alunos
Até 1900 (21 liceus)Cerca de 4000 alunos (em 1893/94 eram 3630)
Até ao final de 1920 (29 liceus)Cerca de 15 000 alunos (em 1927/28 eram 15 546)
Até 1953 (35 liceus)Cerca de 20 000 alunos (notas 2 e 3)

A partir de meados de 1950 deu-se a já referida «explosão escolar», e o número de alunos cresceu até à extinção dos liceus. Recorreu-se, então, à construção de novos edifícios, à abertura de secções (extensões dos liceus às localidades próximas ou que pertenciam às suas áreas de influência, o que ocorreu em 20 dos 35 liceus analisados neste texto: houve um liceu com seis, dois com cinco, seis com quatro, três com três, quatro com duas e quatro com uma, num total de 61 secções). Mais uma vez se recorreu a todo o tipo de instalações provisórias, agora também a pavilhões pré-fabricados e, até mesmo, a escolas inteiras com esta fraca e efémera qualidade construtiva. Em 1960 havia 46 000 alunos e, em 1973, o número quase triplicou: 123 000.

O Liceu de Setúbal, um igual muito diferente entre os seus pares

Nos 142 anos em que os liceus tiveram esta designação (1836-1978), o seu desenvolvimento caracterizou-se por um percurso irregular e muito diverso. Este percurso sinuoso justificou as quatro singularidades do Liceu de Setúbal, as quais ajudaram a consolidara instituição e a construir uma cultura institucional ao longo de 121 anos (1857-1978).

1.ª Singularidade: com origem bicéfala, teve como antecessores o Liceu Setubalense, particular, fundado em 1/10/1857 por António Maria de Campos Rodrigues – um forasteiro de Lisboa que escolheu a cidade de Setúbal para viver e a ela se dedicou como se fosse seu filho – destacando-se no ensino e na imprensa local (como redactor da Gazeta Setubalense, fundador e proprietário de O Districto e colaborador noutros jornais locais). Funcionou no Convento dos Grilos (Foto 1). O segundo antecessor foi o Liceu Municipal de Setúbal, fundado em 3/11/1858 pela Câmara e cuja direcção foi confiada a António José Batista Hentze. Funcionou, também, no Convento dos Grilos. Foram duas instituições com vida curta, o bicefalismo não resistiu às fragilidades de ambas (Cf. os irrelevantes currículos no livro O Liceu de Setúbal: das origens à Escola Secundária de Bocage, 1857-1999, pp. III-V), que competiam num escasso mercado de alunos, o que levou os responsáveis de ambas a fundi-las em 1863. Além disso, a Câmara Municipal compreendeu que, ao entrar numa disputa, dividindo, não potencializava os recursos para obter o objectivo maior da cidade: ter um liceu de nível nacional.

Dessa fusão surgiu o Liceu Municipal Setubalense, sob a direcção de António Pereira da Silva até 1870, quando deixou Setúbal (e foi para Évora), o qual já oferecia um currículo digno para a instrução secundária da época (Cf. op. cit., p. VI).  Continuou a funcionar no Convento dos Grilos.

E a fusão abriu o caminho para o estatuto de «nacional», conseguido, em 1903, do ponto de vista legal, com a criação do Liceu Nacional de Setúbal, no qual a Câmara concentrou os apoios financeiros. Mas, na prática, só foi «nacional» a partir de 1905/06, quando ofereceu o currículo até ao antigo 5.º ano (hoje, o 9.º ano): os 1.º e 2.º ciclos. O 3.º ciclo, com os antigos 6.º e 7.º anos, ficou reservado aos «nacionais centrais». Com a categoria de «municipal» só oferecia o 1.º ciclo (1.º e 2.º anos).

2.ª Singularidade: o pioneirismo da educação feminina, que fez parte da visão educativa da figura mais importante do liceu, António Maria de Campos Rodrigues, que marcou o rumo da instituição desde a sua criação, em 1857, até ao início do século XX. Além da visão moderna e de futuro sobre a educação feminina, que o aumento progressivo da frequência de alunas em todos os liceus do país confirmou a partir de 1880, não menos importante era o papel que atribuía à educação para o progresso da Humanidade e, em particular, de Setúbal (referindo-se-lhe, explicitamente, como «nesta Terra»). Afirmou Campos Rodrigues: «Não convém só educar um dos sexos, mas sim ambos, para que, crescendo com a mesma força de espírito, não vão encontrar-se, na idade futura, em inteira contradição»; «A instrução é o meio que mais pode melhorar a condição material e moral do homem: tornando-se, por esta forma, comum necessidade, e nesta Terra onde ela não está entranhada no espírito do povo, torna-se muito mais». (O Setubalense, n.º 120, 11/10/1857, p. 3, in op. cit., p. III). Encontramos nesta clara e determinada visão educativa a força motriz que orientou os esforços para o sucesso do liceu nos difíceis anos da segunda metade do século XIX, até à sua afirmação plena durante o primeiro quartel do século XX.

Em 1858, apenas um ano após a sua fundação, o Liceu Setubalense pôs em prática as ideias de Campos Rodrigues, com a criação de um curso para meninas (Foto 2), enquanto que, na maioria dos liceus deste período inicial da sua criação, as primeiras alunas só entraram a partir de 1880. Refira-se que, entre 1836 e 1885, o país só tinha 19 liceus: Aveiro; Beja; Braga; Bragança; Castelo Branco; Coimbra – José Falcão; Évora; Faro; Guarda; Lamego; Leiria; Lisboa – Passos Manuel; Portalegre; Porto – Rodrigues de Freitas; Santarém; Setúbal; Viana do Castelo; Vila Real e Viseu). Além do Liceu de Setúbal, só o Passos Manuel (Lisboa) teve a primeira aluna, em 1863 e, em 1865, tinha apenas dez. Em 1907, quando as estatísticas disponíveis já tinham fiabilidade, o então já Liceu de Setúbal tinha 20 alunas e 113 alunos.

3.ª Singularidade: consiste na precocidade (e excepção) quanto à casa própria. O Liceu de Setúbal foi o quarto do país (ex aequo com o João de Deus – Faro) a ter um edifício próprio (1908). O primeiro foi o José Estêvão – Aveiro (1860); o segundo, o Rodrigues Lobo – Leiria (1864) e o terceiro, o Camilo Castelo Branco – Vila Real (1901).

Refira-se, ainda, que entre os 35 liceus históricos criados no continente entre 1836 e 1953, apenas quatro tiveram duas casas próprias: Aveiro (1860 e 1952); Leiria (1894 e 1964); Faro (1908 e 1948); Setúbal (1908 e 1949). Dos restantes, vários estiveram alojados até muito tarde em edifícios adaptados e os de Portalegre e Braga nunca tiveram sequer uma.

Esta situação foi consequência e causa do sucesso da instituição. Consequência, porque foi o duro percurso desde 1857, que culminou com a subida à categoria de «nacional» (1903), que obrigou a Câmara Municipal a construir um edifício próprio. Causa, porque a partir dessas condições, raras na esmagadora maioria dos liceus da época, se projectou no centro da cidade uma instituição que até aí se escondia nos arrabaldes (no Convento dos Grilos, do outro lado da linha de caminho-de-ferro), ganhando, agora, uma visibilidade na comunidade que lhe reforçou a importância, real e simbólica, além de proporcionar aos alunos condições de acolhimento como nunca tiveram.

O primeiro edifício (Foto 3) foi concebido, projectado e construído para ser a casa definitiva pelo reputado arquitecto Rozendo Carvalheira (1861-1919). O projecto foi financiado, adiantadamente, com cinco mil escudos de fundos pessoais do presidente da Câmara Municipal, António José Baptista, até que a autarquia aprovasse e disponibilizasse a verba necessária para a construção (em 1908 havia eleições autárquicas). O local escolhido foi o, então, sapal do Bonfim, que suscitou muita discussão pública na época, e a pressa na construção impediu as fundações adequadas às características do local. Este edifício imponente foi inaugurado em 1908.

Na sequência do incêndio da Câmara, na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 (implantação da República), foram ocupadas várias salas do edifício por diversas instituições e serviços públicos da cidade. Não obstante, o percurso de sucesso não parou e o liceu obteve a categoria de «nacional central» (com os três ciclos do curso liceal) duas vezes nos anos de 1920.

As instalações acabaram por colapsar parcialmente (Foto 4), o que foi atribuído à nova e poderosa máquina para as fundações da estação dos CTT do Bonfim, construída entre 1938 e 1941. O edifício foi, então, demolido a partir de 1941, dando lugar (em 1955) ao edifício da Escola Industrial e Comercial de Setúbal.

À precocidade na obtenção de casa própria, podemos acrescentar o facto, raríssimo, de ter tido dois edifícios próprios e ambos imponentes.

O segundo edifício é o que alberga a actual Escola Secundária du Bocage, na Av. António Rodrigues Manito (Foto 5). Projectado em 1945 e inaugurado, com pompa e circunstância, de 30 de Abril a 2 de Maio de 1949. Foi da autoria do conhecido arquitecto José Blanco (1905-1990), que fez carreira na Junta de Construções para o Ensino Técnico e Secundário (substituída pela Direcção-Geral das Construções Escolares), participando em diversos projectos de escolas por todo o país. Por coincidência foi o autor do projecto do edifício da Escola Industrial e Comercial de Setúbal (de 1951), que hoje é a casa da Escola Secundária Sebastião da Gama.

4.ª Singularidade: o escasso número de reitores entre 1857 e 1953 (o lapso temporal analisado no texto), comparativamente com a esmagadora maioria dos restantes. Isto é relevante porque, neste período de quase um século em que os liceus foram criados e se desenvolveram, registou-se uma grande instabilidade legislativa, com reformas do ensino liceal em 1868, 1872, 1880, 1886, 1888, 1894, 1896, 1905, 1906, 1914, 1917, 1918, 1919, 1921, 1936 e 1947, além de muitos outro diplomas legais com implicações profundas na organização dos liceus. Viveu-se, também, uma grande instabilidade política, económica e social, contrária à estabilização e ao desenvolvimento dos liceus, a saber:

1. O Ultimato Inglês (11 de Janeiro de 1890) e o levantamento militar no Porto (31 de Janeiro de 1891), como reacção às cedências territoriais africanas à Inglaterra no conflito do mapa cor-de-rosa;

2. A bancarrota (parcial em 1891 e total em 1892/93);

3. A debilidade da monarquia e o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe (1 de Fevereiro de 1908);

4. A instauração da República (5 de Outubro de 1910), cuja turbulência política e social foi agravada, pouco depois, pela I Grande Guerra;

5. A «noite sangrenta», com o assassinato do chefe do Governo, António Granjo, e dos proeminentes republicanos Machado Santos e Carlos da Maia (19 de Outubro de 1921);

6. O golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, que instaurou uma ditadura militar até 1933, ano em que o regime ditatorial do Estado Novo se iniciou e consolidou, após o plebiscito da Constituição.

Foi, portanto, um longo período de quase meio século, em que os liceus sofreram as consequências da instabilidade, resultando no elevado número de reitores na maior parte deles.

Dividimos a análise comparativa entre o número de reitores do Liceu de Setúbal e dos restantes liceus em três períodos, correspondendo a diferentes ritmos na implantação e desenvolvimento geral dos liceus:

1.º período – Nos primeiros 45 anos (1857-1902), o Liceu de Setúbal, com a categoria de municipal (acrescentou, em 1884, a designação de Escola Municipal Secundária de Setúbal, fazendo esta já parte da rede oficial de liceus do país), teve apenas quatro reitores (chamavam-se, então, directores): António Maria de Campos Rodrigues (1857 a 1863 e 1871 a 1901), António Pereira das Silva (1863 a 1870), Francisco Cordeira, interino (1901-02), Manuel Neves Nunes de Almeida (1902). No ano seguinte, 1903, a Escola Municipal Secundária de Setúbal subiu à categoria de liceu nacional, embora, na plenitude, apenas em 1905/06, quando passou a oferecer os dois primeiros ciclos e se passou a chamar Liceu Nacional de Setúbal (nota 4).

Neste primeiro período houve apenas 21 liceus no país (aos 19 que referi na 2.ª singularidade, acrescenta-se o Maria Amália Vaz de Carvalho – Lisboa, criado em 1885/86, e o de Guimarães, criado em 1891/92), em cada um dos quais podemos encontrar o seguinte número de reitores:

Escola/CidadeN.º de reitores (1857-1902)
Bragança17
Castelo Branco16
Aveiro e Rodrigues de Freitas – Porto15
Guarda13
Portalegre e José Falcão – Coimbra12
Beja11
Braga, Évora e Viseu10
Viana do Castelo8
Faro, Lamego, Passos Manuel – Lisboa e Vila Real7
Leiria, Santarém e Setúbal4
Maria Amália Vaz de Carvalho – Lisboa e Guimarães1

Portanto, o Liceu de Setúbal pertenceu ao pequeno grupo de três liceus com o menor número de reitores. Os dois que tiveram apenas um reitor foram criados tardiamente, o que se coaduna com o seu curto período de existência.

2.º período – Nos 27 anos seguintes (1902-1929) a situação é similar, confirmada pelos seguintes números:

Escola/CidadeN.º de reitores (1902-1929)
Beja23
Braga e Lamego17
Castelo Branco16
Chaves15
Portalegre e Viseu13
José Falcão – Coimbra12
Póvoa de Varzim e Maria Amália Vaz de Carvalho – Lisboa11
Évora, Guarda, Rodrigues de Freitas – Porto, Vila Real e Guimarães10
Bragança, Passos Manuel – Lisboa, Santarém e Viana do Castelo9
Faro, Luís de Camões – Lisboa e Carolina Michäelis de Vasconcelos – Porto8
Leiria, Gil Vicente – Lisboa, Infanta D. Maria – Coimbra e Setúbal7
Aveiro6
Pedro Nunes – Lisboa e Alexandre Herculano – Porto5
D. Filipa de Lencastre – Lisboa3
D. João de Castro – Lisboa1

Dos três liceus com o mesmo número de reitores que o de Setúbal, apenas o de Leiria existiu durante os 27 anos do período considerado (o Gil Vicente – Lisboa e o Infanta D. Maria – Coimbra foram criados em 1914/15 e 1918/19, respectivamente). E dos cinco com um número de reitores menor do que o Liceu de Bocage – seis, cinco, três e um reitores – apenas o de Aveiro existiu durante 27 anos. Os restantes foram criados em 1905/06 (Pedro Nunes – Lisboa), em 1906/07 (Alexandre Herculano – Porto) e em 1928/29 (D. Filipa de Lencastre e D. João de Castro, ambos de Lisboa).

Apesar da instabilidade das direcções dos liceus, o reitor Manuel Neves Nunes de Almeida dirigiu o de Setúbal desde 1902 (ainda era Escola Municipal Secundária) até 1919/20, quando se aposentou. Marcou-lhe o rumo que o levaria à categoria de «nacional central» (com os três ciclos do curso liceal), pela primeira vez em 1921/22 e 1922/23. O estatuto foi perdido em 1923/24, pela diminuição do número de alunos devido à escassez do financiamento autárquico, mas foi recuperado em 1925/26.

3.º período – Nos últimos 24 anos (1929-1953) o regime político começou a estabilizar-se a partir de 1933 e a impor regras gerais, firmes e autoritárias, que tiveram reflexo nas direcções dos liceus. Os reitores passaram a ser os delegados do Governo e não os representantes dos professores. O número de reitores em cada liceu reduziu-se bastante:

Escola/CidadeN.º de reitores
Viseu12
Gil Vicente – Lisboa9
Viana do Castelo8
Castelo Branco, Guarda, Lamego e Póvoa de Varzim7
Aveiro, José Falcão – Coimbra e Guimarães6
Faro, Rodrigues de Freitas – Porto, Chaves, Portimão e Covilhã5
Leiria e Vila Real4
Beja, Luís de Camões – Lisboa, Alexandre Herculano – Porto, Carolina Michäelis de Vasconcelos – Porto, D. Filipa de Lencastre – Lisboa, Figueira da Foz, Rainha Santa Isabel – Porto e Setúbal3
Braga, Bragança, Portalegre, Santarém, Maria Amália Vaz de Carvalho – Lisboa, Pedro Nunes – Lisboa, Infanta D. Maria – Coimbra e D. João de Castro – Lisboa2
Évora e Passos Manuel – Lisboa1

Mais uma vez se verifica que o Liceu de Setúbal, apesar de neste período ter tido três reitores, acabou por quase se enquadrar no grupo dos que tiveram apenas um, pois o primeiro foi interino, por pouco tempo, e o terceiro substituiu o segundo por morte inesperada deste – António Manuel Gamito – que ocupara o cargo de 1929 a 1950.

Concluindo, pode dizer-se que as quatro singularidades conferiram uma identidade ao Liceu de Setúbal que o diferenciou dos restantes: foi um igual muito diferente entre os seus pares.

Mas se da primeira não se pode concluir ter o liceu obtido vantagens, das restantes três, sim. A precocidade da educação feminina abriu-lhe horizontes, deu-lhe prestígio social e alinhou-o com o futuro da igualdade entre sexos no acesso à educação; a casa própria (que foram duas) deu-lhe visibilidade simbólica e real no centro da cidade e condições materiais de funcionamento; o escasso número de reitores foi uma marca da instituição durante quase um século (1857-1953), um factor de estabilidade interna e um instrumento de persistência de propósitos e de credibilidade externa, especialmente se tendo em conta as dificuldades imprevistas, assim como o mar de tormentas da instabilidade legislativa, política, económica e social que originou situações diametralmente opostas de instabilidade directiva na maioria dos outros liceus.

Desta quarta singularidade destacaram-se, como figuras maiores, quatro directores/reitores: António Maria de Campos Rodrigues, ao leme de1857 a 1863, 1870 a 1884 e 1886 a 1901, Manuel Neves Nunes de Almeida, de 1902 a 1919, António Manuel Gamito, de 1929 a 1950 e Cipriano Mendes Dordio, de 1920 a 1926 e 1950 a 1953.

Manuel Henrique Figueira

*Texto publicado no n.° 1 da revista Arrábida, em 26-6-2026.  Dado que O Setubalense abrange um público mais vasto e popular, decidiu-se republicá-lo aqui.

Notas de rodapé:

1 – In Ana Teresa Santa-Clara & António Nóvoa (coord.), Liceus de Portugal: Histórias, Arquivos, Memórias. Porto: ASA, 2003, p. 17.

2 – Os dados comparativos referem-se apenas aos liceus do Continente, pois na Biblioteca Nacional de Portugal (Lisboa) não há elementos sobre os insulares: Funchal, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta. E o projecto Praxis, que produziu o livro Liceus de Portugal: Histórias, Arquivos, Memórias, uma monumental história monográfica dos 35 liceus históricos criados entre 1836 e 1953, na qual colaborei com as monografias dos liceus de Setúbal, Beja, Viseu (em co-autoria) e D. Filipa de Lencastre – Lisboa, por insuficiência de financiamento não contemplou os liceus insulares.

3 – O ano de 1953 é a data limite a partir da qual os liceus criados depois dela não ultrapassam os 25 anos de existência até à sua extinção, em 1978. Este é o arco temporal mínimo para se fazer a história de uma instituição deste tipo.

4 – A efemeridade do 2.º liceu, criado em 1858 e funcionando ao mesmo tempo e no mesmo local do primeiro, criado em 1857, por não ter passado de um epifenómeno que se extinguiu em 1863, levou-nos a não considerar António José Batista Hentze e José Emídio Adaúta Pacheco e Silva nesta contagem.

Bibliografia: FIGUEIRA, Manuel Henrique (1999). O Liceu de Setúbal: das origens à Escola Secundária de Bocage (1857-1999). Setúbal: Escola Secundária de Bocage, pp. 11-64.

 − FIGUEIRA, Manuel Henrique (2007). Liceu de Bocage − Setúbal: Histórias e Memórias (1857-1974). Setúbal: Escola Secundária de Bocage, pp. 9-110.

Relatórios do Liceu de Setúbal, 1938 a 1949, Arquivo Histórico do Ministério da Educação.

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