Dos quatro elementos eleitos pelo Chega no executivo, já só resta o presidente Nuno Valente. Eleições intercalares em cima da mesa
Primeiro foi a alegada falta de paridade no órgão e depois uma “debandada” de eleitos do Chega, que veio culminar com a falta de quórum no executivo da Junta de Freguesia de Quinta do Anjo. Hoje, a partir das 21h00, a Assembleia de Freguesia reúne-se para apreciar a situação e também para “votação de pedido de parecer a entidades competentes sobre a atual composição do executivo, implicações legais e procedimento subsequentes”. E a realização de eleições intercalares é um cenário já equacionado.
A renúncia, no passado dia 17, do terceiro de quatro elementos eleitos pelo Chega no executivo da freguesia da Quinta do Anjo deixou o órgão sem quórum. Atualmente, o executivo só conta com o presidente, Nuno Valente, do Chega, e o independente José Cordeiro, eleito pela coligação PSD/CDS, a quem os social-democratas retiraram a confiança política precisamente por ter aceitado integrar o executivo.
Paula Robalo, eleita pelo Chega, foi a mais recente baixa no executivo, levando à falta de quórum no órgão que já estava reduzido à expressão mínima de três elementos e, assim, com duas vagas por preencher. E agora das duas, uma: “Ou há um acordo com a oposição, para recompor o executivo (preencher os três lugares em falta), dando continuidade a este mandato, ou então vamos para eleições intercalares”, admitiu na semana passada Nuno Valente, em declarações à agência Lusa.
Sem eleitos pelo Chega de que possa lançar mão para preencher todas as vagas, Nuno Valente está refém de um entendimento com eleitos da CDU (elegeu quatro membros para a Assembleia de Freguesia, tal como o Chega) e do PS (três eleitos) – o PSD/CDS, que elegeu dois, ainda conta com um eleito. Só que o afastamento político da oposição em relação ao Chega tem sido notório desde, praticamente, a primeira hora. Porém, há uma terceira hipótese que pode levar a um entendimento e que não foi equacionada pelo presidente da junta: a sua desfiliação do partido Chega.
Dessa forma, ou seja, se passasse a independente, deixaria de haver “linhas vermelhas” e a oposição “poderia aceitar integrar o executivo”, comentou uma fonte próxima do processo a O SETUBALENSE. Mas, essa é uma hipótese muito remota…
Do lado do PS, “há muito que é clara a posição” de não formar executivos com o Chega, conforme lembra fonte bem colocada no partido.
Na CDU, ninguém quer antecipar cenários e a posição da coligação só será assumida no tempo e no espaço próprio.
Já pelo PSD, Carlos Vitorino, presidente da Concelhia de Palmela dos social-democratas, é perentório: “Se ele [Nuno Valente] nem se entende com os próprios pares, é complicado. Nós não queremos inviabilizar nada, mas não somos obrigados a aceitar integrar o executivo – e isto vale para o PSD como para todos os restantes partidos. Em princípio não aceitaremos. Este foi um problema criado pelo Chega”, disse o responsável a O SETUBALENSE, embora tenha ressalvado que a decisão compete sempre ao autarca eleito.
O SETUBALENSE tentou contactar Nuno Valente, mas sem sucesso.
Última renúncia foi a “duas velocidades”
O Chega sabe que tem um problema de difícil resolução na freguesia de Quinta do Anjo. A renúncia de Paula Robalo do executivo, no passado dia 17, apenas acentuou a existência de clivagens internas e o processo ficou marcado por se desenrolar a “duas velocidades”.
Isto, porque a independente eleita pelo Chega já havia renunciado anteriormente, cerca de um mês antes (15 de junho), para depois voltar atrás na decisão.
Em declarações à agência Lusa, Paula Robalo esclareceu que esse pedido foi retirado para garantir a aprovação de dois projetos que tinha acompanhado: a aquisição de uma motoniveladora e a contratação dos serviços de limpeza dos arruamentos em toda a freguesia. “No dia 26 de junho, retirei essa decisão quando percebi que ambos os procedimentos ainda tinham uma etapa por concluir. Por ter acompanhado o trabalho desenvolvido até esse momento, considerei ser minha responsabilidade permanecer temporariamente e contribuir para que essa fase fosse concluída, evitando deixar pendentes processos importantes para a freguesia”, explicou.
Sobre os motivos que a levaram a deixar o executivo, justificou que já não se identificava com a atual liderança. “Já não me identificava com este executivo, com a liderança exercida, com os planos apresentados para o futuro, nem com a forma como têm sido conduzidas matérias importantes para a freguesia”, disse.
Nas eleições autárquicas de 12 de outubro de 2025, o Chega foi a força política mais votada na freguesia de Quinta do Anjo, com 26,94% dos votos e quatro eleitos, seguido pela CDU (coligação PCP/PEV), com 26,71% e também quatro eleitos, PS, com 25,50% e três eleitos, e AD (coligação PSD/CDS-PP), com 13,90% e dois eleitos.
O executivo da junta de freguesia (que emana da eleição à Assembleia de Freguesia) integrava quatro eleitos do Chega e um eleito da AD, mas neste momento, face à demissão de três eleitos do Chega, restam apenas dois, o atual presidente Nuno Valente, eleito pelo Chega, e um eleito da AD, a quem o PSD retirou a confiança política. Com Lusa