Sou de Alcochete. E digo-o com orgulho. Orgulho na terra que me viu crescer, nas suas gentes, nas suas tradições, na sua identidade única feita de história, trabalho, solidariedade e sentido de comunidade.
Alcochete não é apenas um ponto no mapa. É uma forma de estar. É um património humano construído por gerações que souberam respeitar o passado enquanto preparavam o futuro. É por isso que me custa olhar para os tempos que vivemos e não sentir uma profunda frustração.
Vivemos na era do achismo.
Hoje, cada um acha o que quer. Acha sem conhecer os factos. Acha sem compreender os procedimentos. Acha sem distinguir responsabilidades, competências ou limitações. Acha sem procurar a verdade. E, muitas vezes, acha porque é mais fácil opinar do que estudar, mais cómodo criticar do que compreender, mais rápido julgar do que refletir.
O mais preocupante é que o achismo deixou de ser uma opinião inocente para se transformar numa espécie de certificado de participação pública. Não importa se aquilo que se afirma tem fundamento. Não importa se corresponde à realidade. Não importa sequer se acrescenta alguma coisa ao debate. O importante parece ser dizer qualquer coisa. Marcar presença. Fazer ruído.
Confunde-se convicção com conhecimento. Confunde-se liberdade de expressão com ausência de responsabilidade. Confunde-se opinião com verdade.
E assim se constroem narrativas assentes em perceções, suspeitas e preconceitos, enquanto os factos ficam para segundo plano. Quem conhece os processos é frequentemente ignorado. Quem domina os assuntos é muitas vezes interrompido por quem apenas tem uma opinião mais sonora. E quem trabalha seriamente vê-se obrigado a justificar constantemente aquilo que já está explicado para quem realmente quer compreender.
Alcochete merece mais. Merece um debate público assente em informação, respeito e honestidade intelectual. Merece cidadãos participativos, mas também conscientes de que participar implica conhecer. Implica ouvir antes de falar. Implica perceber antes de concluir.
Não defendo o silêncio nem a ausência de crítica. Pelo contrário. As comunidades crescem quando existem opiniões diferentes, quando há escrutínio e quando os cidadãos se envolvem. Mas a crítica só é útil quando assenta em conhecimento. Quando procura construir e não apenas destruir.
Talvez esteja a ser exigente. Talvez esteja apenas cansado de ver tanto ruído e tão pouca substância. Mas continuo a acreditar que a nossa terra, as nossas instituições e a nossa comunidade merecem mais do que julgamentos apressados e certezas fabricadas.
Estamos, sem dúvida, na fase do achismo.
E já agora, se me permitem, é isso que eu acho.