Setúbal precisa de uma obstetrícia segura, não de ilusões

Setúbal precisa de uma obstetrícia segura, não de ilusões

Setúbal precisa de uma obstetrícia segura, não de ilusões

17 Junho 2026, Quarta-feira
Médico, Mestre em Saúde Pública e Desenvolvimento

O debate sobre a reorganização das urgências de obstetrícia na Península de Setúbal tem gerado preocupação e inquietação. É compreensível: quando falamos de maternidades, falamos de um dos momentos mais importantes na vida das famílias. Qualquer alteração na resposta pública de saúde exige, por isso, atenção e exigência.

Mas é precisamente por se tratar de uma matéria tão sensível que importa analisá-la com serenidade. A discussão tem-se centrado, muitas vezes, na ideia de encerramento de serviços. Antes disso, convém recordar o problema: durante anos, os hospitais da região enfrentaram dificuldades crescentes para assegurar escalas completas em ginecologia e obstetrícia. Encerramentos temporários tornaram-se frequentes e a imprevisibilidade passou a marcar a realidade das utentes.

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Esta situação resulta de problemas acumulados: falta de especialistas, envelhecimento dos quadros, dificuldade de recrutamento para o SNS e pressão assistencial numa região em crescimento. Perante isto, é legítimo perguntar: era sustentável continuar como estávamos?

Uma urgência obstétrica não é apenas uma porta aberta. Exige equipas diferenciadas, capazes de responder a situações críticas para mãe e bebé. Quando essas equipas são insuficientes, a manutenção formal do serviço não garante a segurança esperada.

A reorganização surge neste contexto, com um princípio simples: concentrar recursos para garantir equipas mais estáveis e diferenciadas. Não resolve tudo, mas procura responder ao essencial: a segurança clínica.

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Naturalmente, há custos. As preocupações com deslocações e perda de proximidade são legítimas e devem ser acompanhadas por monitorização e melhoria contínua. Também é cedo para avaliações definitivas. O que sabemos é que o modelo anterior apresentava fragilidades claras e exigia uma solução estrutural.

O debate político tem sido, por vezes, simplificado. Há críticas legítimas à implementação e comunicação. Mas seria injusto atribuir a situação atual apenas ao presente, quando resulta de anos de incapacidade em resolver o défice de recursos humanos no SNS.

Mais importante do que discutir culpas é discutir soluções. Setúbal precisa de uma estratégia duradoura: atrair e fixar especialistas, melhorar condições de trabalho, reforçar a articulação entre níveis de cuidados e acompanhar o crescimento populacional com investimento em saúde.

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A questão central não é saber se uma urgência está aberta num dia específico, mas se, quando necessário, existe uma equipa preparada para garantir cuidados seguros e de qualidade. Se a reorganização contribuir para isso, deve ser avaliada com honestidade e sem preconceitos. Porque o objetivo da política de saúde não é preservar estruturas, mas garantir cuidados dignos da confiança dos cidadãos.

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