Este testemunho nasce da memória partilhada dos descendentes da comunidade varina que fez dos bairros das Fontainhas e de Santos Nicolau o seu lugar de vida, trabalho, fé e pertença. Mais do que recordar o passado, pretende homenagear os homens e mulheres vindos da Murtosa, de Estarreja e de outras terras da Ria de Aveiro que ajudaram a construir uma parte importante da identidade popular de Setúbal.
As Fontainhas e Santos Nicolau foram muito mais do que bairros. Foram espaços de solidariedade, convivência e afetos, onde as ruas serviam de recreio às crianças e os pátios reuniam famílias inteiras em torno das redes, das conversas e da entreajuda. Numa época de escassez material, abundavam a generosidade, a amizade e o sentido de comunidade.
No início do século XX, os varinos chegaram atraídos pela pesca e pela indústria conserveira. Trouxeram consigo conhecimentos náuticos, embarcações tradicionais, costumes, cantares, gastronomia e uma profunda cultura de trabalho. Os homens dedicavam-se à pesca no Sado; as mulheres desempenhavam um papel essencial nas fábricas conserveiras, enfrentando longas jornadas e condições difíceis. Muitas participaram nas lutas operárias que marcaram a história social portuguesa.
A infância era vivida entre responsabilidades precoces e brincadeiras simples. As crianças cresciam ligadas ao rio, ao cais e à vida comunitária, aprendendo desde cedo o valor do trabalho, da amizade e da solidariedade.
A Igreja de São Sebastião ocupava um lugar central na vida da comunidade. Ali celebravam-se os momentos mais importantes da existência. Entre as tradições mais marcantes destacou-se a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Tróia. A festa anual reunia fé, convívio e identidade coletiva. Durante dias, famílias inteiras atravessavam o Sado para celebrar, cumprir promessas, partilhar refeições, cantar, dançar e fortalecer laços comunitários.
Ao longo das décadas, os varinos preservaram muitas das tradições herdadas da terra natal. Foi deste povo moldado pelo sal, pelo trabalho e pela esperança que surgiu João Maria Afonso Lopes, o querido Ti João Sacristão. Antigo pescador e homem de profunda fé, teve um papel decisivo na revitalização da Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia a partir de 1945, mobilizando pescadores e operárias conserveiras para preservar um património que continua vivo na memória setubalense.
As Fontainhas e Santos Nicolau permanecem como um valioso património humano e cultural. A memória dos varinos continua presente nas pessoas, nos afetos e nas tradições que unem Setúbal à Murtosa. Talvez por isso faça sentido sonhar com uma futura geminação entre as duas terras, como símbolo de reconhecimento pelos laços históricos que as unem.
Que o Sado e a Ria de Aveiro continuem a ligar gerações e memórias. Porque há raízes que o tempo não apaga e heranças que merecem ser preservadas para sempre.