Ler diários é uma forma de aprender a reagir e a lidar com a vida e com o mundo, seja porque podemos encontrar soluções coerentes ou imaginativas, seja porque podemos conviver com trajectos que não se nos adequam ou que nos fascinam. Em todo o caso, um diário oferece-nos aquilo que é uma aparente confidência, o resultado de momentos de diálogo do diarista consigo, um frente-a-frente do eu com o tempo da escrita (ou consigo), instantes que são de isolamento, de reflexão, de selecção (ou lembrança) dos momentos e dos pensamentos acontecidos ou sentidos, um gesto em que o registo mais se assemelha a um espelho (mesmo que retrovisor), em que fica o que marca, em que se nega o esquecimento. Tinha Ruy Cinatti (1915-1986) os seus 19 anos quando justificou o seu diário — “O que vou fazer, vai-me servir de espelho retrospectivo. Porque eu necessito muito, dadas as minhas condições de vida e a minha maneira de ser; e a melhor maneira de eu me poder analisar é fixar, duma maneira mais duradoura do que a memória, todos os acontecimentos da minha vida, de tal forma que possa desenvolver o que em mim há de bom e combater tudo que me seja prejudicial tanto ao espírito como ao corpo, é redigindo um diário.” (em “Diários 1933-1943”, Universidade Católica Editora, 2025).
“Aparente confidência”, como ficou registado acima. Inicialmente, é o guardar segredo, uma forma de preservar para si o importante da vida. E assim pode continuar a ser, se o diário se mantiver conhecido apenas pelo próprio. Mas, se lemos diários, é porque alguém decidiu partilhar connosco os supostos segredos da sua vida, construídos sobre os acontecimentos privados ou públicos, sobre os pensamentos e as emoções, sobre a vida como construção e caminho, afinal, o essencial em que assenta um diário, pois, como explicou João Bigotte Chorão (1933-2019), em “Diário 2000-2015” (Imprensa Nacional, 2017), “só ao homem interior é dado escrever boas memórias e bons diários”, pois “os diários não são agendas, registo cansativo e um pouco exterior de encontros, leituras, viagens”.
Não se está com isto a dizer que de um diário publicado se devam esperar revelações e segredos. O diarista não desconhece que, ao contar a sua vida, o primeiro trabalho é “o de saber o que deve entrar e o que fica de fora”, disse-o Anabela Mota Ribeiro (n. 1971), em “O quarto do bebé” (Quetzal, 2023). Foi este cuidado na escolha que, em “Tempo Contado – Diário Maio 1994-Maio 1995” (Quetzal, 2010), J. Rentes de Carvalho (n. 1930) confessou não ter tido numa determinada fase da sua vida, o que lhe valeu considerável mal-estar: “Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a provável razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez. Eu tinha dezasseis anos, a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos, as bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos foi das coisas que nunca consegui esquecer ou perdoar.”
Há diaristas que assumem o critério do que pode ser um diário publicável. Mais reservado, Vergílio Ferreira (1916-1996), romancista, ensaísta e diarista, observou, no seu “Conta-corrente”, em nota de 1 de Fevereiro de 1969: “Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós. (…) O meu ‘diário’ está nas centenas de cartas aos amigos.” Mais pragmático, Eugénio Lisboa (1930-2024) afirmou, em “Aperto Libro – Páginas de Diário I – 1977/1990” (Opera Omnia, 2018), que “um diário é uma conversa com os outros.” Mais directo, Rentes de Carvalho, em “Pó, cinza e recordações – Diário Maio 1999-Maio 2000” (Quetzal Editores, 2014), explica: “Tenho eu a ideia, talvez incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me fraco gosto, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, continuo a acreditar que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.”
O que une as três opiniões é o conceito do que é partilhável. O critério para o que o diarista deve mostrar, definiu-o muito bem e assertivamente Ambrose Bierce (1842-1914): “o relato diário daquela parte da vida de uma pessoa que, sem corar, ela pode fazer a si própria.”