Ao longo destes quase 20 anos que escrevo neste espaço de opinião, dediquei dezenas de crónicas sobre o nosso querido e amado Vitória Futebol Clube.
Estive e relê-las. Em quase todas, existem dois denominadores comuns que as atravessam transversalmente; o amor enorme, avassalador e incondicional que nutro pelo nosso clube de sempre e as eternas preocupações, angústias e tristezas, decorrentes da instabilidade que tem sido uma constante, principalmente ao longo dos últimos 30 anos.
Relendo-as com atenção, existe algo de incontornável; a situação em que o Vitória se encontra, na quinta divisão, é também o corolário de opções que foram feitas, dos quais nós, os sócios, em derradeira análise, somos também responsáveis.
Mas hoje não é de lamúrias, nem de tristezas que estamos a falar, mas sim da satisfação, por sabermos que o nosso Vitória foi Campeão da Primeira Divisão da Associação de Futebol de Setúbal e que irá disputar, na próxima época, o Campeonato de Portugal (quarta divisão).
Descemos administrativamente; subimos a pulso, em campo, olhando os adversários nos olhos, sem nos escondermos em decisões manhosas de secretaria.
Não é o mesmo que vencer a Taça de Portugal, a Taça da Liga, ou disputar uma competição europeia, situações em que o Vitória Futebol Clube esteve lá e que já venceu.
Não é um sorriso rasgado e radioso das grandes finais, mas também não é um sorriso amarelo, embaraçado ou envergonhado; é um sorriso orgulhoso, genuíno, tranquilo e seguro, conscientes de nós próprios, quem somos e o que valemos.
Antes de mais, permitam-me que mencione, com apreço e reconhecimento, Francisco Alves Rito e os seus órgãos sociais que, de uma forma sustentada, têm procurado que este atinja uma estabilidade à muito desejada e tantas vezes adiada.
Depois, também uma palavra de muita simpatia e admiração para Paulo Martins e a sua equipa técnica. Reconheço-lhes competência, dedicação e vitorianismo. Espero sinceramente que se mantenham por muitos anos.
Sabemos que a economia, a política e, consequentemente, a geografia não estão a nosso favor.
Sabemos também, que muito do dinamismo empresarial encontra-se, sobretudo, a Norte.
Nessa região, numa zona compreendida entre o Douro Litoral e o Baixo Minho, encontramos na 1ª Liga, dez clubes: AVS, Famalicão, Porto, Gil Vicente, Moreirense, Rio Ave, Braga e Guimarães. Tondela e Arouca um pouco mais abaixo, mas pertencentes ao mesmo contexto.
Mais de metade da 1ª Liga, numa área cujas localidades distam no máximo 50 Km entre si, com os óbvios benefícios sociais, económicos, culturais, desportivos e políticos que daí advém, para toda uma região.
Na 2ª Liga, dos dezoito clubes totais, treze encontram-se a norte do rio Mondego.
Na 3ª Liga, existem vinte clubes, distribuídos em zona norte e sul; todavia, a “zona sul” vai até Coimbra e Covilhã.
Contudo, sabemos também quem somos; durante anos, o Vitória Futebol Clube foi “o último dos Moicanos”, o único clube abaixo do rio Tejo que se mantinha teimosamente na 1ª Liga.
Tínhamos perfeita consciência que eramos um alvo a abater, mas também que nos colocámos a jeito para que isso acontecesse.
Pela via administrativa, que não desportiva, fomos relegados da primeira para a terceira liga e daí para os distritais.
Somos Vitória, seremos sempre Vitória, o clube dos distritais que leva para os estádios mais adeptos, que muitos da primeira liga; sempre presentes, sejam quais forem as circunstâncias.
Procuro incutir diariamente aos meus alunos do Viso, o amor pelo Vitória.
Quando refiro aos meus colegas professores mais novos, provenientes de outras paragens que o Vitória eliminou equipas como o Liverpool, Inter de Milão, Fiorentina, Leeds United, Marselha, Anderlecht, ou Spartak de Moscovo, olham para mim incrédulos.
Iremos muito provavelmente percorrer ainda uma longa caminhada, mas estaremos todos juntos, unidos pela determinação, querer, vontade, paixão, amor incondicional pelo nosso ENORME VITÓRIA FUTEBOL CLUBE.
Caros amigos vitorianos. Não sei quando, nem onde, nem como, mas existe algo do qual estou perfeitamente convicto; haveremos de regressar ao lugar que é nosso, por direito.
Seremos sempre, orgulhosamente, VITÓRIA.