A autarca faz um balanço aos primeiros seis meses de mandato, revela o estado em que encontrou a autarquia e arrasa a sua antiga força política. “O recurso à mentira, o show off , que a CDU aqui faz é gritante”, atira
Na primeira grande entrevista depois de ter conquistado a presidência da Câmara Municipal de Setúbal como independente, Maria das Dores Meira abre o livro – a começar pelas contas – e não deixa “pedra sobre pedra”.
“Hoje sentimo-nos livres e muito mais democratas”, afirma, dois anos depois de se ter desvinculado do PCP. Contesta a paternidade de algumas obras reclamada pela CDU e dispara: “Deviam ter vergonha de em quatro anos terem gastado tanto e feito tão pouco.” Adianta que está a pensar solicitar a auditoria aos dois últimos mandatos à Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL) e projeta o futuro.
Faz agora dois anos que se desfiliou do PCP. O que sente hoje?
Uma paz que não imagina. Não seria totalmente séria se dissesse que o PCP não me disse muito. Disse. E muita gente do PCP me disse muito, com quem tive uma excelente relação, com quem trabalhei muito, com quem tive momentos de solidariedade, amizade, fraternidade. Dessa gente tenho saudades. Tenho saudades de quando se falava com alguma verdade, com alguma seriedade. Hoje não é nada disso. Hoje estamos a falar de um partido de funcionários, que não está próximo nem sabe o que se passa nas populações, que está a correr atrás do prejuízo e para isso passam por cima de quem tiverem de passar. São os funcionários, alguns, que estão hoje a matar o PCP.
Nada arrependida? Sente-se livre, é isso?
Nada arrependida. Sinto-me muito livre, muito leve, sem ansiedades, sem chatices de estar numa reunião que nunca mais acabava, a enfrentar pessoas que sabia que estavam a mentir, que eram de um cinismo único.
O PCP acaba de acusar o executivo municipal de instalar câmaras de videovigilância no Edifício Sado que permitem monitorizar o desempenho dos trabalhadores, o que é ilegal…
… E o que é mentira. Era ilegal se as câmaras estivessem a funcionar. Nós conhecemos a lei e sabemos perfeitamente que tem de haver autorização das entidades competentes para essas câmaras virem a funcionar. Para proteger edifícios, porque como essas pessoas muito bem sabem aquele tem sido um dos edifícios que tem sido vandalizado, onde os carros têm sido vandalizados. Hoje, o recurso à mentira, o show off , que a CDU aqui faz é gritante. O desespero é muito grande, para se afirmarem recorrem a tudo. Desafiamos a CDU local – gosto muito de separar a CDU local da outra – a vir mostrar imagens dos trabalhadores que estavam a ser filmados.
E o parecer do encarregado da proteção de dados? Está tudo acautelado?
Tudo acautelado. E não é só a apreciação do responsável da proteção de dados. Há também as entidades oficiais, e aqui falo de ministérios, da PSP, todas estas entidades têm de dar pareceres. Nada disso estava feito. Nós estávamos a ver onde é que deveríamos pôr as câmaras. E depois a documentação tem de ser feita para que isso funcione.
E quando entram em funcionamento?
Nós estamos a cumprir duas coisas que estavam no nosso programa eleitoral. Uma tem a ver com a Polícia Municipal, que já foi aprovada pelos órgãos municipais, e a outra é a videovigilância, que é também um desígnio do movimento Setúbal de Volta, do Chega e do PS. Tudo isso está a ser preparado, não está nada em funcionamento.
Mas, faço questão de lembrar os setubalenses e, acima de tudo, a CDU que quando era vereador Eusébio Candeias, e que tinha essa responsabilidade, começou a preparar a montagem de câmaras em Poçoilos. Mas eram da CDU não fazia mal. E houve trabalhadores em Poçoilos que se revoltaram e elas foram retiradas, também não tinham começado a ser utilizadas. Foi ele que preparou a legalização e nunca conseguimos que o Ministério da Administração Interna viesse a fazer essa legalização. Hoje a situação é muito mais fácil. Nessa altura foi começado pela CDU. Mas aí não fazia mal, porque era a CDU a promover essa ação.
Como tem sido governar Setúbal sem o apoio da estrutura de um grande partido num executivo com um equilíbrio de forças complexo? Não sente diferença?
Não. É um grande alívio, não tenho de dizer “sim” porque sim, o que me incomodava. De vez em quando tinha de dizer “sim”, porque: “O partido quer assim camarada, porque o partido decide que é assim”. E eu ficava sempre muito angustiada e dizia: “Mas este ‘sim’ não corresponde àquilo que as pessoas precisam ou àquilo que as pessoas querem, não pode ser ‘sim’ porque sim”. Às vezes tinha de dizer “sim”, porque era disciplinada partidariamente. Outras vezes conseguia não ser e conseguia que os meus vereadores, todos os da CDU, também não fossem disciplinados. Agora é que são todos santos. Agora é que são todos muito pelo partido. Esquecem-se que há algumas actas, que eu tenho, de reuniões da vereação em que eles eram indisciplinados, votávamos segundo a consciência daquele coletivo de vereação e não segundo aquilo que um ou dois funcionários do partido diziam.
Era um desgaste muito grande. Uma ansiedade muito grande. Noites sem dormir, de cansaço, de estar farta daquilo. Hoje tenho a liberdade de pensamento, de conversar com as pessoas que estão na oposição, de conversar com as pessoas que estão dentro do movimento de cidadãos. Hoje sentimo-nos livres e muito mais democratas.
Depois de 15 anos à frente da autarquia e de um interregno de quatro anos em Almada, veio afirmar que foi a falta de rumo de Setúbal que a fez voltar. O que encontrou agora que mais a preocupa face ao que tinha deixado em 2021?
Foi a tristeza de ver o município a definhar que me fez voltar. De ver o município sem rumo, sem estratégia, sem visão. De ver Setúbal a perder o brilho que já estava a ganhar. De ver os setubalenses e azeitonenses com a autoestima muito em baixo e de me pedirem permanentemente: “A senhora tem de voltar, faz cá muita falta”. E muitos membros do PCP ouviram isto. Eles ouviam as pessoas e os trabalhadores a pedir-me: “A senhora tem de voltar, está a fazer-nos muita falta”.
E depois chego aqui e encontro a estrutura do município numa desorganização impensável. É que só foram quatro anos. Como é possível uma pessoa sair e deixar compromissos de 20 e tal milhões, compromissos, alguns ainda não eram dívida ao contrário do que diz a CDU, e volvidos quatro anos a dívida ser de 98 milhões de euros? E esconderam muita dívida. Uma delas foi à AmarSul, de 20 milhões, e não foi em quatro anos. Foi de 2023 até 2025. Escondida. Hoje já está inserida no orçamento, nas dívidas.
Essa dívida foi vendida a uma empresa financeira.
Sim, a Amarsul vendeu a dívida a uma entidade financeira [BFF Portugal]. Mas quem assumia pagar a dívida? Ninguém. Nem os SMS, nem a Câmara. Não estava no orçamento. Hoje está tudo limpo, está tudo claro.
Qual é então a atual situação financeira da autarquia?
Em dois meses nós reduzimos quase 2 milhões de euros da dívida! Entrámos aqui em novembro, a dívida era de 98 milhões e agora passou para 96 milhões. E vamos chegar ao fim deste ano com muito menos dívida.
Neste momento estamos a fazer muita obra. Estamos a acabar as obras, algumas que foram pensadas, projetadas no meu tempo e que a CDU começou a fazer quase no final do [anterior] mandato – para ver se alguns votos salvavam a situação –, e agora a CDU vem reclamar a propriedade delas…
… Reclamar a paternidade.
Sim, vêm dizer agora: “A obra é nossa”. Mas não fico nada zangada. Fico muito contente, porque, sejam de quem forem, vêm melhorar a vida das pessoas. Não fico nada chateada que sejam da CDU ou que sejam do meu tempo. Só fico é impressionada. Deviam ter vergonha de em quatro anos terem gastado tanto e feito tão pouco. Estamos a acabar obras, que estou a melhorá-las. Hoje de manhã [sexta-feira] veio a público o vereador da CDU dizer que se ia inaugurar o Pavilhão das Manteigadas. Eu gostava de saber como é que eles iam inaugurar aquele pavilhão. Há semelhança de tudo, que quase nada acabaram, aquilo devia ficar uma vergonha. Hoje tem estacionamento, tem pilaretes, tem passeios. Está asfaltado.
Teve de ser reformulado o projeto?
Teve de ser melhorado. E teve de ser feita a requalificação do pavilhão que está ao lado e que estava imundo, em muito mau estado, chovia lá dentro… Entendi que não tínhamos de inaugurar o pavilhão novo sem dar qualidade e dignidade ao outro que está ao lado. Vão lá ver o que está ao lado. Foi feito por nós, pelos nossos trabalhadores. Nenhuma obra feita por eles acabaria como aquela. Não conheço nenhuma. As poucas que fizeram acabaram sempre em muito mau estado.
Por exemplo?
A terceira fase do Convento de Jesus ainda hoje não está acabada. Fizeram uma grande festa. Mas quem preparou o projeto da terceira fase? Foi no meu mandato. Deixei o projeto preparado, candidatado para Tribunal de Contas e já com o concurso para ser adjudicado. Chego quatro anos depois e não está ainda acabado. Mas está inaugurado.
A Avenida de Moçambique. O projeto começou no meu tempo. Eles concluíram-no e foi lançado o concurso já com eles no final do [último] mandato. Hoje aquela obra e a da Henrique Cabeçadas têm tido muita contestação. Eles não têm a dignidade e a coragem de dizer: fomos nós que lançámos a obra, é nossa. Porquê? Porque tem alguma contestação. Agora, há este incómodo, estão caladinhos. A cobardia é muito grande. Eu já lá fui mudar o projeto. Quando as pessoas falaram mal da obra, fui ao local, fiz uma reunião com os moradores…
… A da Avenida de Moçambique ou da Henrique Cabeçadas?
A Avenida de Moçambique, aumentámos mais de meio metro a via. A Henrique Cabeçadas era para ser feita em 75 dias, passaram-se quatro anos e ainda não está pronta.
Já adjudicou a auditoria aos dois últimos mandatos ou está para breve?
Não podíamos adjudicar a auditoria sem termos o orçamento aprovado. Foi aprovado na passada sexta-feira [17 de abril]. Mas há aqui uma nuance. Estamos a pensar pedir a auditoria à própria DGAL. Melhor do que a DGAL não há.
E o que espera que resulte dessa auditoria?
A verdade. Se os procedimentos estavam a ser bem feitos ou mal feitos. Se há recomendações para se alterar procedimentos.
Mantém que a oposição tem sido uma força de bloqueio. Refere-se a todos os partidos com assento no executivo municipal?
Neste momento a força de bloqueio é a CDU. Repare, a CDU numa sessão de Câmara vota de uma forma, na sessão de Câmara seguinte vota de outra forma. Acha normal? De todas as forças que ali estão a que tem menos coerência é a CDU.
Negociações Fernando José em reunião presencial para discutir pelouros
Apesar das acusações contundentes feitas a Dores Meira durante a campanha eleitoral, o socialista Fernando José sentou-se à mesa com a autarca para discutir a distribuição de pelouros. A edil revela que se reuniu com todos os partidos, com exceção da CDU.
Confirma que após as eleições Fernando José, vereador do PS, reuniu-se consigo a solicitar os mais variados pelouros?
Acho que isso já é extemporâneo e é estar a bater no ceguinho. O que eu reafirmo é o seguinte: houve negociações e houve conversas em relação à aceitação de pelouros, com exceção da CDU, e todas as forças políticas disseram que não. Mas acho que essas conversas são perfeitamente normais, especialmente de quem está a governar com maioria relativa.
Acha normal que alguém que teve um discurso tão contundente dirigido a si durante a campanha faça uma aproximação a solicitar pelouros? Acha normal que existisse abertura para isso?
Eu não estou a dizer que foram eles [PS] que solicitaram, estou a dizer que fui eu que conversei com eles para saber se havia interesse ou não em aceitar pelouros. Acho que seria normal, para quem diz que quer o melhor para os setubalenses.
Posso inferir do que disse que essas negociações foram presenciais?
Sim. Mas, acho isso normal.