Durante décadas, o pacto social da educação em Portugal assentou numa premissa inquestionável: estuda, tira um curso superior, afasta-te do trabalho manual e vais estar protegido das crises e da automação. Vendemos a gerações sucessivas a ilusão de que a sala de aula teórica e o escritório com ar condicionado eram escudos à prova do futuro. Estávamos redondamente enganados.
Os dados recentes de um dos gigantes da tecnologia, sobre o impacto da Inteligência Artificial no mercado de trabalho vieram implodir este mito com estrondo. A nova vaga tecnológica não está nas fábricas a substituir braços, nem nas oficinas a apertar parafusos. Está nos escritórios dos edifícios corporativos. A IA afeta hoje, de forma desproporcional, as profissões de colarinho branco, de salários altos e com elevada exigência académica.
Programadores, analistas financeiros, redatores e gestores intermédios veem as suas tarefas cognitivas e repetitivas serem devoradas por algoritmos implacáveis. A máquina, afinal, provou ser o derradeiro burocrata.
Neste cenário de automação intelectual, o que sobra para o ser humano? A resposta reside naquilo que não pode ser digitalizado: a experiência do mundo físico e o instinto. O instinto não é uma intuição mágica; é uma base de dados orgânica, profundamente empírica, construída sobre anos de falhas, improvisos e contacto direto com a realidade. O mecânico que ouve um motor e sabe o que está errado, o enfermeiro que lê a hesitação no olhar de um paciente, ou um professor que sente a quebra de atenção numa sala de aula não estão a aplicar regras lógicas. Estão a usar os calos da experiência. A IA processa resmas de informação à velocidade da luz, mas é completamente cega a esta sabedoria táctil.
Aqui reside a grande falha e o desafio urgente da escola. Continuamos a formatar os nossos alunos para competirem num jogo que as máquinas já ganharam. Avaliamos a sua capacidade de memorizar, de cruzar dados e de redigir respostas padronizadas – precisamente o que a inteligência artificial faz em três segundos e a custo reduzido. Em vez de treinarmos “analistas de secretária” (chalaça intencional), a educação precisa de recuperar o valor da oficina, do laboratório, do debate cara a cara e da gestão da imprevisibilidade humana.
Num mundo inundado por texto perfeito e análises preditivas imaculadas, a produção intelectual mediana perdeu o seu valor económico, lembrem-se que a IA é uma máquina que prevê sempre a média. O que passa a ser escasso – e, portanto, altamente valioso – é a capacidade de intervir na realidade material e humana. Na revolução que já começou, o diploma será apenas o bilhete de entrada; o verdadeiro capital de sobrevivência será o instinto e a capacidade de nos posicionarmos acima da média.