O exílio existiu e fez parte do caminho (3)

O exílio existiu e fez parte do caminho (3)

O exílio existiu e fez parte do caminho (3)

, Professor
13 Maio 2026, Quarta-feira
Professor

Resulta dos testemunhos recolhidos em “O que muitos andaram para aqui chegarmos” (edição Poemar, 2025) que, com as vidas retomadas e construídas na Bélgica durante o exílio, o retorno não foi para a maioria uma prioridade e Portugal passou a ser destino regular de visita (depois de 1974), mas sem a obrigação de ser o ponto final de nada: há quem venha a Portugal visitar a família, quem viva entre os dois países, quem tenha regressado, quem oscile entre a raiz e o país de acolhimento, “de coração”. Mas, quando a conversa gira para o que significa hoje o país onde nasceram, as respostas parecem revestir-se mais de nostalgia — Manuela Pereira explica, talvez, esse sentimento que lhe foi dado testemunhar com o marido: “trazia sempre um papel no bolso que dizia que, se morresse, queria ser sepultado na Bélgica e não no país que o obrigou a sair do que considerava ser a sua casa”. E, quando lhe perguntam em qual dos dois países quer ficar, responde, algo laconicamente: “Para mim, é igual: onde estiver, fico.”

Maioritariamente, a parte mais densa destes testemunhos assenta nas razões que conduziram à partida, melhor, à fuga de Portugal, numa quase necessidade de serem explicadas as razões, de ser revivido o contexto, quase para dar sentido à mudança, para justificar a vida. Outra parte significativa é ocupada com as possibilidades que cada um teve de inclusão na nova sociedade e de desenvolvimento dos projectos pessoais, sentindo-se o tom de agradecimento ao país que os recebeu e a conquista da estabilidade pessoal e social, apesar de também ter havido episódios de segregação.

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Se as memórias são o ponto nevrálgico que sustenta este livro, ele existe também para celebrar a memória — o último capítulo intitula-se significativamente “In Memoriam” e lembra uma dezena de nomes, companheiros de percurso, nascidos entre 1940 e 1951 e exilados na década de 1960, mencionados pelos entrevistados no cruzamento das histórias, por aqui passando o poeta Al Berto, António Lacerda Setas (“o primeiro português a receber o estatuto de refugiado político da ONU na Bélgica”), António Moura (paladino do movimento associativo dos emigrantes em Liège), Jorge Ramos Tavares da Silva (que divulgou a cozinha portuguesa tradicional), José Neves Morgado (formado em Filosofia em Bruxelas e quadro da RTP), Luís Rosado de Sousa (trabalhador na indústria hoteleira e taxista), Manuel Costa Neves (associativista, empreendedor na restauração, galerista e pintor), Mário Gastão Martins da Costa (autor de ilustrações e de desenhos animados), Raul Sabrosa (ligado à indústria hoteleira e, regressado a Portugal após o 25 de Abril, formado em enfermagem) e Rui Veiga Pinto (advogado e co-autor de um documento aquando do 25 de Abril que afirmava que esta data só se cumpriria com o fim da guerra colonial).

Seja dada ainda nota de algumas relações que os testemunhos recolhidos nesta obra têm com Setúbal. Em primeiro lugar, porque uma das organizadoras, membro do grupo “Poemar”, tem fortes ligações a Setúbal — Maria Manuel Gandra (n. 1944), setubalense por adopção, aqui leccionou no ensino secundário e foi professora acompanhante de estágios de profissionalização na Escola Superior de Educação de Setúbal. Depois, porque dois dos nomes que deram o seu testemunho sobre o exílio tiveram ligação a esta cidade num dado momento das suas vidas: Joaquim Tenreira (n. 1945), natural de Sabugal, diplomado em Teologia, procurou o exílio em 1972, mas, enquanto seminarista na Guarda, acompanhou os movimentos em prol de uma igreja progressista e integrou “uma equipa de padres operários, em Setúbal”, tendo trabalhado “numa fábrica de montagem de automóveis de 1968 a 1970” (experiência de que existe relato na obra “Presença e Missão”, de Elisário de Sousa, publicada em 1998, referindo o caso da Movauto, onde este grupo de padres operários a que esteve ligado Tenreira interveio); Domingos Ribeiro de Campos (n. 1941), barcelense, chegou ao exílio em 1963 e só voltou à casa da família em 1974, mas, nesse período, chegou a vir a Setúbal “fazer uma acção clandestina” sobre a qual não deu pormenores.

“O que muitos andaram para aqui chegarmos” é um título eficaz. Inspirado num verso da canção “Eu vim de longe”, de José Mário Branco, ele próprio um exilado pelas mesmas razões que vários dos intervenientes nesta obra o foram, este título homenageia a quantidade de vidas que se alteraram em defesa da liberdade e em busca da esperança, ao mesmo tempo que faz assentar a responsabilidade da manutenção dessa mesma liberdade sobre o presente, quase elaborando um mapa dos riscos, vencidos pela tenacidade de uns tantos corajosos para hoje sermos o que somos.

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