A guerra que se desenvolve entre os EUA/Israel e o Irão, iniciada há um mês, continua a merecer atenção, afinal as consequências económicas e financeiras, embora em diferentes graus, afetam todo o mundo, cuja economia é altamente dependente dos combustíveis.
O impacto que o conflito tem no dia a dia dos cidadãos, mais sentido, mas não só, no aumento dos commodities, no caso o petróleo e o gás, resulta do facto do Irão, que controla o estreito de Ormuz, o ter encerrado ao trânsito dos navios que transportam esses produtos fundamentais para o mundo, tanto mais que cerca de 25% do petróleo transacionado transita exatamente por ele. No momento em que escrevo largas centenas de petroleiros estão estacionados em Ormuz a aguardar que se retome o fluxo normal do tráfego, até porque a opção por outras rotas mais longínquas tinham repercussões no aumento dos preços. É a quadratura perfeita do circular dos commodities.
Neste quadro nem sequer estamos a considerar a dimensão do conflito que se estende a países da região que têm bases de países ocidentais no seu território.
Sendo a energia fundamental para a dinâmica do comércio mundial quando os preços sobem acaba por se repercutir no aumento do custo de vida, em bens e serviços, inevitavelmente nos bens alimentares. Não é de surpreender que o cabaz alimentar essencial tenha atingido o maior valor de sempre.
É evidente que são necessárias ações e diligencias políticas que visem minorar os efeitos. A injeção no mercado de barris das reservas estratégicas é uma delas, sendo certo que a dimensão da compensação fica muito aquém do número de barris que diariamente transitam pelo estreito de Ormuz. Seja como for, é um paliativo de curto prazo que não vai à raiz do problema como não vai o facto do Governo ter anunciado que a subida do combustível acima de determinado valor passa a ser suportado pelo Estado. Ou mais corretamente, o aumento da receita do Estado por conta do aumento dos combustíveis reflete-se numa baixa do ISP, originando uma neutralidade fiscal, ou seja, tem efeito neutro nas contas públicas. Nas contas de cada cidadão é que não há efeito neutro. Muito pelo contrário.
Enquanto não se resolve a raiz do problema, de mais um ‘trinta e um’ de Trump, com cessar fogo e retoma da via diplomática como instrumento de regulação de conflitos, o Governo português tem de se ‘chegar à frente´ e observar a margem que tem e, em articulação com os Partidos da oposição, avaliar como colabora na dimensão dos impactos, se de modo mais alargado ou direcionado a consumidores com menos recursos, em face da evolução da situação, e como atua perante as empresas afetadas. Dar nota de que se há acontecimentos que recomendam uma atuação reativa, outros pelo contrário convocam o Governo a uma atitude preventiva. Seja qual for a circunstância, o Governo não pode é ressonar sobre a realidade, até porque, a imprevisibilidade está aí com toda a força. Outra vez!