O terrível ciclone de 1941: Salazar primeiro fez-se de morto…

O terrível ciclone de 1941: Salazar primeiro fez-se de morto…

O terrível ciclone de 1941: Salazar primeiro fez-se de morto…

Na região, nomeadamente em Setúbal, Moita, Sesimbra, Alcácer do Sal e Grândola, sentiram os efeitos do furacão

O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi o mais violento, destrutivo e mortífero que atingiu Portugal continental desde que há registos. As zonas ribeirinhas foram duplamente fustigadas: primeiro pelos ventos do furacão, depois por chuvas torrenciais, marés de tempestade, inundações. A recente série de eventos extremos de janeiro de 2026, que atingiu em cheio os distritos de Coimbra, Leiria, Castelo Branco…  rivaliza com a de 1941, mas com muito menos mortes. Relativamente à velocidade dos ventos e apesar da escassez da rede de registos de há 85 anos, podemos constatar que os efeitos foram muito semelhantes.

- PUB -

Em 1941 morreram mais de 100 pessoas, muitas foram dadas como desaparecidas, inúmeras ficaram feridas. Os impactos na economia foram tremendos e duradouros por décadas.  Para as classes populares a fome severa, o desalojamento, o desemprego e a miséria que se seguiram a 1941 foram inimagináveis. A mendicidade, sobretudo das crianças, era a única hipótese de escapar à morte. Mesmo assim a polícia não lhes dá tréguas e persegue-as:  nas ruas das cidades, à porta dos restaurantes. 

O ciclone de 41, como ficou conhecido, levou tudo pela frente: de norte a sul há relatos de pessoas que foram arrastadas pelo vento e derrubadas, no caso de Setúbal há mesmo o registo de uma senhora projetada fatalmente contra a parede numa rua da baixa. Em Grândola pessoas foram arrastadas dezenas de metros e só a custo conseguiam segurar-se, agarradas aos arbustos. As casas atingidas ficaram sem telhados e sem chaminés, que foram pelos ares. Em Coimbra destelharam-se bastantes edifícios, como quartéis, Hospitais da Universidade, Hospital Militar.

Nos dias seguintes as fábricas e armazéns de cerâmica registavam filas de pessoas em busca de telhas, como no caso da Cerâmica Lusitana, no Arco do Cego, em Lisboa. A Pastoral Coletiva do Episcopado Português, organismo da Igreja católica, recebe pessoas que a procuram como se fossem “evadidos da morte, fugitivos, esfarrapados”. Centenas de milhares de árvores, milhares de hectares de floresta foram arrancadas pela raiz ou cortadas a meio. Estradas, linhas de comboio e rede elétrica foram bloqueadas ou destruídas pela queda de árvores e desmoronamentos.

- PUB -

As zonas ribeirinhas foram as que mais sofreram: afogamentos, embarcações afundadas ou destroçadas, inundações de casas. A destruição da frota pesqueira atira milhares de pescadores e operárias conserveiras para desespero e a mendicidade. Só no caso de Sesimbra, passada uma semana dos acontecimentos, contabilizavam-se 113 embarcações partidas e 196 desaparecidas. As marinhas de sal, idem: arrasadas.  A inviabilização de colheitas agrícolas provocada pela invasão da água salgada, como no caso dos arrozais, iria agravar ainda mais a falta de alimentos: a fome. A destruição de olivais e sobreiros de cortiça engrossaram o desemprego. A herdade do Pinheiro, para os lados de Alcácer do Sal, virou “um mar de troncos lançados à terra”. As notícias de morte e destruição da zona da Grande Lisboa e distrito Setúbal são coincidentes: Lisboa, Alhandra, Sesimbra, Alhos Vedros, Setúbal, Alcácer do Sal terão concentrado o maior número de vítimas humanas. Mas atenção: um mês após o ciclone de 15 de fevereiro a Imprensa continuava a dar conta de corpos que continuavam a dar à costa achados por pescadores e populares: o de uma mulher da Carrasqueira que tinha vindo num pequeno bote aviar-se a Setúbal…o de um rapaz de 16 anos de nome José, que trabalhava nas marinhas de sal.

Em vão se procura nas páginas do jornal diário de Setúbal ao longo das semanas uma reação, uma palavra do governo, do seu chefe: Nada! Caladinho como um rato.

A inoperância do governo nos dias e semanas a seguir à catástrofe é total. A resposta do regime ao desastre nacional foi levada a cabo através do Sub-Secretariado de Estado da Assistência Social, recentemente surgido e com pouco ou nenhum orçamento. Aliás, a tarefa principal seria desenhar o plano para uma recolha de fundos de pessoas particulares a nível nacional. O mesmo se diga das câmaras municipais, se tomarmos como padrão a de Setúbal. Os dramáticos acontecimentos devastaram a cidade e o concelho, com mortes, feridos, desaparecidos, atividades económicas paralisadas ou gravemente afetadas, casas sem telhados, centenas de famílias dos bairros de barracas desalojadas e perdidas pelas ruas e caminhos, sem terem onde se abrigar e aos seus ente-queridos, como aconteceu no bairro da Monarquina junto ao hospital e nos Olhos de Água na subida para o Viso.  Como refere o jornal após passar pela censura prévia salazarista, no dia 3 de março de 1941: “A hora não é de ficar de braços cruzados à espera que o estado faça. Nunca é lícito pedir demasiadamente ao estado – e muito menos agora que são enormes os seus prejuízos”.

- PUB -

Depois mostrou a verdadeira face

As consequências da catástrofe vêm juntar-se às já difíceis condições de vida agravadas pelos efeitos da guerra mundial que começara em 1939 e que cada vez mais afetava os países parcialmente neutrais, como Portugal. Retomamos de seguida dados de um exaustivo estudo do historiador Fernando Rosas sobre estes anos.

 A fome, a escassez de alimentos, o desemprego, as famílias numerosas, a vida nas barracas, os salários miseráveis sufocados pela repressão total e o poder de compra em erosão acelerada, a inexistência do estado social, conduzem a explosões e revoltas populares logo na primavera e verão de 1941: o pessoal das minas da Panasqueira, os salineiros de Alhos Vedros e Lavradio, motins camponeses pelo Minho, Beira e Douro Litoral, Trás-os-Montes. Em novembro de 1941, ocorre a grande greve do pessoal da indústria de lanifícios da Covilhã, imortalizada pelo escritor Ferreira de Castro, no livro “A lã e a neve”. Nesta cidade da Serra da Estrela, 14 grevistas são acusados de “crime de sublevação” por um tribunal militar (!) especial. A imprensa clandestina e as autoridades da repressão registam agitação, manifestações, protestos por todos os centros industriais do país. O governo de Salazar parece ter sido apanhado de surpresa e não estar preparado para o confronto.

Ao longo de 1942 desenvolvem-se as primeiras greves intersectoriais e regionais de camponeses no Ribatejo, zona saloia de Lisboa, Alentejo. Verificam-se grandes greves na CARRIS em Lisboa, na Companhia dos Telefones, dos estivadores, das fábricas da CUF no Barreiro, na Tabaqueira, nas oficinas do Diário de Coimbra. As cargas policiais intensificam-se, acompanhadas por uma guerra ideológica contra contestação generalizada, ainda que absolutamente proibida e perseguida pelo regime fascista. O governo lança uma campanha de propaganda contra o que chama de “manobras de agitadores profissionais a soldo de interesses inconfessáveis…”. 

O outono de 1942 marca uma viragem no ambiente social do país. O governo endurece a ditadura. Há prisões de grevistas em massa, como aconteceu nas instalações da CARRIS: 1100 presos, os supostos líderes da paralisação despedidos e presos sem qualquer processo ou direito de defesa. As greves passam a ser tratadas pelo Ministério da Guerra e a regra passa a ser: fábricas em greve: todo o pessoal é evacuado e despedido. Há milhares de operários presos, despedidos, substituídos por outros. Depois vem o Verão quente de 1943, coincidente com a queda de Mussolini na Itália e a aceleração da luta antifascista. A guerra mundial acaba em 1945, com a derrota dos amigos de Salazar, particularmente Hitler.

Salazar ficará isolado na Europa, “orgulhosamente só”, ao lado do ditador de Espanha, Francisco Franco. Começa uma nova fase da ditadura, que será derrubada pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974.

Professor de história

Bibliografia: primeira parte do artigo: jornal diário O SETUBALENSE, números de 17 de fevereiro a 17 de março de 1941. Segunda parte: Fernando Rosas, HISTÓRIA DE PORTUGAL (Vol 7), Círculo de Leitores, 1994. Fotografia: Arquivo Fotográfico Américo Ribeiro (CMS).

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não