1 Outubro 2022, Sábado
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Catarina João: A artista que encontrou nas figuras e dioramas a chave para o bem-estar mental

Com encomendas até ao Natal, a jovem de 36 anos tem especial carinho pelas personagens e cenários da Marvel, Star Wars e Harry Potter

A Catarina João “é uma pessoa em busca constante, que demorou 36 anos a descobrir-se”. É assim que a jovem almadense, a morar no Seixal desde 2008, se define, depois de saltar de curso em curso e de trabalho em trabalho, sempre em busca de uma única ambição: “Ser feliz”. Chegou a tocar bateria, fez teatro e dança, trabalhou como design, em vídeo, fotografia e produção de eventos, mas confessa que, apesar de o seu percurso ter estado ligado às artes, sempre teve “a sensação de que estava incompleta”.

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Em 2020 encontrou “finalmente” a resposta. Colocou de lado o receio que sentia e ‘gritou aos sete ventos’ o que realmente é: uma artista. Diagnosticada há cerca de um ano e meio com uma depressão severa, descobriu nas fi guras e dioramas a chave para o bem-estar da sua saúde mental. “Acho que a minha forma de estar e de criar também é uma consequência da minha forma mental”, conta.

Tomou a decisão de apresentar-se ao público “em nome individual, num processo de aceitação como artista”. Harry Potter, Star Wars e Marvel são os seus três universos, sendo que este último “é o filho favorito”.

A “viver um período que nunca esperava”, Catarina João ambiciona no futuro conseguir “criar um podcast para falar abertamente sobre saúde mental”, até porque admite ser “uma pessoa muito comunicativa e sem vergonha na cara”.

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Como começou todo este projecto?

Começou há muito pouco tempo.

O projecto nasceu no início da pandemia, na altura em que fomos todos para casa. Trabalhava numa empresa de telecomunicações há três anos e estava tudo tranquilo, mas a pressão de estar em casa e de estarmos todos na incerteza e em pânico começou a consumir-me. Via as notícias e começava a chorar. Tudo provocava me crises de ansiedade horríveis. Cheguei, em Junho de 2020, a ir para o hospital a achar que estava a ter um ataque cardíaco. Nessa altura já tinha uns cinco gânglios a formarem-se no pescoço. Andei meses sem saber o que tinha e com dores horríveis. Entretanto meti baixa médica. Em consulta com a minha médica de família, esta pergunta-me o que é que havíamos de fazer em relação à minha ansiedade. Eu, em negação, disse-lhe que estava bem, apesar de estar completamente depressiva, ansiosa e com ataques de pânico.

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Nisto, vou fazer uma ecografia e o médico diz-me que um dos gânglios tinha um aspecto que não estava a gostar muito. O que ouvi foi ‘tens cancro e vais morrer’. Nesse dia liguei à minha médica de família e reconheci que tínhamos de fazer algo para a ansiedade porque não conseguiria avançar sozinha. Tomei um antidepressivo muito leve durante seis meses, para me ajudar a controlar a ansiedade, enquanto a medicação para os gânglios não estava a fazer efeito. Nessa altura o meu marido disse-me para me despedir, que não me queria em stress e que eu estava a consumir tudo o que as pessoas que me diziam. Meti então a carta de despedimento em Agosto e três dias depois os gânglios desapareceram. Isto é a prova de que a nossa cabeça controla tudo e trouxe-me a uma busca muito intensiva sobre mim própria.

Em que momento entram as figuras e os dioramas na sua vida?

No período da baixa médica estava a enlouquecer, sem saber o que fazer, até que a determinada altura aparece-me um vídeo no Youtube de um casal nórdico, que faz montes de projectos manuais e que estava a fazer um Book Nook de Harry Potter. Harry Potter é muito especial para mim, tanto que este ano fui a Inglaterra fazer a tour toda, como que em jeito de conclusão da minha terapia. Quando vi o vídeo pensei imediatamente ‘eu tenho de fazer isto’.

Já tinha experiência no mundo dos trabalhos manuais e das artes?

Tinha. Fiz o meu primeiro 10º ano em Artes e depois fui para música porque o curso não era bem para mim. A escola entretanto fechou e fui estudar Produção Audiovisual na ETIC.

Desde então já trabalhei com vídeo, fotografia, design e produção de eventos. O meu percurso sempre foi praticamente ligado às artes, mas sempre tive a sensação de que estava incompleta. Então quando vi o vídeo, fui buscar a caixa que ainda tinha em casa com materiais do secundário e comecei a cortar cartões. Fui a algumas lojas comprar materiais, mandei vir outros pela internet e fiz a minha primeira peça sozinha em Agosto de 2020. Demorei quase o mês todo.

O que sentiu?

Nos momentos em que estava de x-acto na mão a esculpir coisas era como se o mundo parasse. Estava super zen. Comecei a ver que aquilo era super terapêutico para mim.

Mostrou a peça a alguém?

As únicas pessoas a quem mostrei foi à minha mãe, ao meu marido e à minha prima, que é super nerd. Como era a única pessoa que percebia o que eu estava a fazer, era a quem eu mostrava tudo.

E o que dizia a sua prima das peças?

Dizia-me que estavam excelentes e que tinha de mostrar às pessoas. E eu dizia que não, que estava a fazer aquilo para mim. Era um momento egoísta, só meu. Quando terminei a primeira peça, comecei logo a fazer a casa dos Weasleys, também do Harry Potter. E a minha prima continuava a insistir. E eu continuava a dizer que não. Era a primeira vez na minha vida que não estava a procurar fazer um negócio com algo. Como sempre fui muito empreendedora, foram raros os períodos em que trabalhei para um patrão. E mesmo nessas alturas estava sempre muito independente.  Sempre fui pró-activa, mas aquele era um momento terapêutico, só meu.

Em Outubro, no meu aniversário, o meu marido viu que andava a namorar uma impressa 3D e ofereceu-ma. Entrei numa fase super criativa. Como queria experimentar montes de coisas, fiz as prendas de Natal que ofereci à família.

Foi aí que percebeu que esta era a sua paixão?

Percebi em Fevereiro de 2021, em que tive um acidente e cortei-me na mão esquerda. Estava sozinha em casa, consegui chamar uma amiga e fui para o hospital. Fui operada de urgência e fizeram-me a reconstrução do dedo. Bateu-me forte o facto de que se eu tivesse desmaiado podia ter morrido e percebi que não tinha feito nada do que queria fazer na vida. Estive seis anos na Faculdade de Direito e faltam-me quatro cadeiras para acabar o curso. Decidi que aquilo não era para mim, mas fui tirar o curso porque achava que tinha de ter um emprego. Ainda há aquele estigma de se querer ser artista, mas que se tem de tirar um curso para ser mais seguro. Fui super infeliz.

A minha vida mudou quando acordei no recobro e a enfermeira me pergunta o que é que eu fazia. Eu respondi que era artista. No dia seguinte lembro-me de acordar e de ter tido uma sensação espectacular, apesar de ainda não saber se a minha mão ficaria funcional. Mas naquele momento tomei uma posição e decidi que eu é que iria definir a minha vida.

E como foi fazer a primeira peça pós-cirurgia?

Quando fui fazer a minha primeira peça pós-cirurgia, tive de pegar numa faca para esculpir a esponja com que trabalho e parecia que tinha Parkinson. Teve de ser o meu marido a pôr a mão dele por cima e a ajudar-me até conseguir. Demorei sete meses. Só trabalhava com uma mão. Já recuperei 90% da mobilidade. Isto tudo para dizer que foi um percurso muito atribulado. O que é curioso é que sou grata por tudo o que aconteceu.

Porquê?

Precisava de qualquer coisa que fosse mesmo disruptiva. Sinto que estava adormecida e que não estava a viver o expoente máximo da vida. Isto foi o que a vida me deu para me ajudar. Acho que foi o período da minha vida em que eu mais chorei. Foram momentos muitos impactantes, que agora se reflectem na minha forma de estar no projecto.

O que signifi ca para si o processo de criar?

Eu faço porque tenho a necessidade urgente de criar. Só nos acontece quando estamos em harmonia com o que estamos a fazer. Vivo em paz com isso, porque percebi que é o meu processo e o meu caminho.

Há muitas coisas na minha forma de estar que ‘não são normais’. Tenho quase a certeza de que estou diagnosticada com Transtorno de Défice de Atenção com Hiperactividade porque encaixo em 95% das características. Quero evitar tomar medicação, porque receio que me ‘normalize’, no sentido em que acho que a minha forma de estar e de criar também é uma consequência da minha forma mental. Por isso é que tenho a sede de estar sempre a fazer e de procurar coisas que me preencham.

Mas ainda há muitos tabus no que diz respeito às doenças mentais e no que diz respeito às artes. Quando as duas se juntam é um ‘cocktail molotov’. Tenho sentido que tenho desbravado caminho porque não tenho problemas em falar em público. Não tenho vergonha na cara. Não sou nada tímida, sou é introvertida.

E quando é que decide tornar o projecto público?

Em Agosto de 2021. A Comic-Con anunciou, no Instagram, que o evento ia acontecer e lembrei-me que costuma haver um mercado para os artistas. Liguei à minha prima e muito timidamente perguntei-lhe se haveria de tentar ir. Ela respondeu-me logo ‘vamos, vamos fazer amigos’. Esta frase é uma das minhas frases-chave. Ela não tem noção do quão importante esta frase foi para mudar a minha vida. Quando ela me dá a validação e diz que vai comigo, é tudo para mim. Era impensável eu ir sozinha, expor as minhas coisas ao público, quando estava há um ano fechada ‘no buraco’, sozinha, a lidar com um turbilhão de emoções. E lá fomos. De Agosto até Dezembro, com a mão ainda a recuperar, fiz o máximo de peças que consegui para levar.

Como correu?

Montei uma banca com umas vinte peças e levei montes de coisas inacabadas, para encher. Como adoro ver o processo dos outros, pensei que talvez houvessem pessoas que se iriam apaixonar pelo meu processo. Foi extraordinário. Passei quatro dias a falar. Não tive a banca sem ninguém uma vez que fosse.

Só fui à Comic-Con mostrar as minhas coisas e, de repente, apercebo-me que estou a fazer a diferença. Ainda não atingi metade das coisas que quero, mas se fosse embora hoje, já levava um quentinho no coração.

Fez contactos por lá?

Conheci o João e a Ana, da Nerdy Core, em Coimbra, e é um casamento para a vida. Tanto que as minhas peças só existem lá. Não estão expostas em mais lado nenhum. Tudo por causa da sintomia que temos. Através deles tive o prazer de conhecer o Jorge Gabriel, que é um nerd de primeira. É um ser humano maravilhoso e do mais doce que pode haver. Tem sido uma verdadeira enxurrada de amor.

E depois da Comic-Con?

Comecei a ter montes de encomendas. Na Comic-Con distribui marcadores de livros, com o meu número. A partir daí, as coisas foram acontecendo. Não publicava nada nas redes sociais e comecei a partilhar. A certa altura falaram-me na Twitch, para começar a fazer uns directos. Actualmente é no Instagram e Twitch onde me encontram. Fez-se um grupo muito interessante de pessoas boas, que estão a procurar caminhos saudáveis e felizes.

Depois, em Abril deste ano, convidaram-me para um evento de fãs do fi lme do Doctor Strange. Tive montes de pessoas a ver as minhas peças, incluindo o Nuno Markl, de quem sou super fã, e o Diogo Valsassina. O Nuno Markl partilhou um vídeo das minhas peças e no dia seguinte o meu Instagram explodiu. Também já conheci o Quimbé, outro ser extraordinário. Ter o privilégio de lidar com pessoas que desbravam caminho neste meio, que é duro, nem sei como descrever.

Como é o processo de fazer as figuras e dioramas?

Ao nível das figuras em miniatura, são impressas em resina, em 3D. Normalmente compro os ficheiros a artistas escultores e faço a respectiva impressão. Não faço eu a escultura 3D. Imprimo a figura e pinto-a. Trabalho em várias escalas diferentes. O que mais gosto de fazer é pintar dioramas. É o meu desafio, de pegar no momento favorito de alguém e recriar essa cena. É algo que me fascina.

Onde arranja os materiais?

Gosto de reaproveitar tudo. Tenho um quarto cheio de ‘tralha’. Gosto de ir caminhar a parques e ir buscar paus, ervas e pedras, por exemplo. Depois desinfecto e esterilizo tudo. Aproveito tudo o que é diferente, desde que não seja perecível. Uso muito material da área da construção. Gosto de dizer que o que reaproveito não é lixo, é arte em progresso. Dizem-me que os cenários ficam muito realistas. É normal porque uso coisas da natureza.

Existem algumas peças que não goste de fazer?

Não gosto de tudo o que tem a ver com terror explícito, como entranhas ou sangue a voar. Já tive pedidos, mas digo sempre que não vai acontecer porque detesto esse universo. Odeio palhaços, também. Tento encaminhar sempre para outro artista que faça. Não vou fazer a peça porque sei que não vou dar o meu melhor, até porque todas as peças levam um bocadinho de mim. Quando faço uma peça para um cliente ela tem de ir melhor do que se fosse para mim. Não vou nunca permitir que isto que faço hoje se transforme numa coisa má.

Quais os planos para o futuro?

Um dos planos é ir à Comic-Con este ano novamente. Vou participar no Rolisboa, que é uma espécie de concentração dedicada a jogos de tabuleiro. Tenho o calendário bloqueado, com encomendas até ao Natal. Estou a viver um período que nunca esperava. Tenho muitos planos na cabeça. Gostava de criar um podcast para falar abertamente sobre saúde mental. Outro dos meus objectivos, quando tiver um nome já com impacto, é formar um colectivo de artistas.

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