19 Junho 2024, Quarta-feira

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Três famílias desalojadas e um pai herói [corrigida]

Três famílias desalojadas e um pai herói [corrigida]

Três famílias desalojadas e um pai herói [corrigida]

“Ninguém me impediria [de salvar a minha filha]”. Avó da criança com queimaduras em 25% do corpo. Dezasseis pessoas sem casa

O incêndio que na sexta-feira, 20, destruiu o edifício n.º 12 da Rua Machado dos Santos, junto ao Hospital do Montijo, deixou 16 pessoas de três famílias desalojadas. E, para sempre, gravado na memória de todos fica o acto heróico de um pai, Luís, que subiu pelas escadas instaladas em cima de um carro de bombeiros e trepou à cobertura da habitação para resgatar a filha de 30 meses.

Antes já a avó paterna da menina se tinha atirado do topo do edifício. A mulher, de 60 anos, havia sido apanhada nas costas e nas pernas pelas chamas. Saltou em desespero, depois de ter resguardado a criança no topo da habitação, de onde o pai a conseguiu salvar, apesar de ter encontrado alguma resistência em cima do carro de uma das duas corporações de bombeiros (Montijo e Alcochete) que acorreram ao local.

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“Ninguém me iria impedir”, disse Luís, sobre o instante de aflição e coragem vivido na véspera. O pai da menina falava para a CMTV ao lado de Ana Maria Dias, vizinha e proprietária do bar New Wave, que em declarações a O SETUBALENSE recordou o momento.

“O Luís já tinha tentado ir lá acima, mas não tinha conseguido. Cada vez havia mais labaredas e eu disse-lhe: ‘agarra-me essa toalha molhada e sobe, vai buscar a tua filha’. E ele foi logo. Houve um elemento, não sei se bombeiro se polícia, que não o queria deixar subir, mas ele subiu num segundo.”

E sobre o estado de saúde da criança e da sexagenária, Ana Maria Dias adiantou: “A bebé está bem dispostinha e vai ficar em observação no Hospital do Barreiro, por precaução devido à inalação de fumo, até segunda-feira. A avó [que foi transportada para o Hospital de S. José, em Lisboa] tem queimaduras de 2.º e 3.º grau em 25% do corpo, na parte de trás das pernas e nas costas. A informação dada à família é que ela está bem, estável, mas com dores”.

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Do combate às chamas resultaram ainda dois outros feridos, ligeiros, por inalação de fumo: um bombeiro, que recebeu cuidados no Hospital do Barreiro, e um agente da PSP, que foi assistido no Hospital do Montijo.

Ficaram sem nada

O sinistro reduziu a cinzas quase tudo aquilo que três famílias tinham. Ana Maria Dias já começou a lançar apelos de ajuda para a família de Luís, composta por quatro crianças e três adultos. E a situação não é nova.

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“O apelo já vem de há dois meses, quando as crianças perderam a mãe, vítima de um ataque cardíaco. Nessa altura ajudei a família, fiz apelos e as pessoas ajudaram bastante. Ontem [sexta-feira] voltei a fazer apelos e já vieram entregar roupas”, revelou, ao mesmo tempo que reforçou o pedido de contributos solidários. “Eles vão precisar de tudo. Quando tiverem uma casa, vão necessitar de mobílias, de tudo. Não têm dinheiro, têm um grande encargo, com quatro crianças, e a mãe [de Luís] é doente oncológica. Precisam de leite, fraldas n.º 4 e n.º 5, e de momento o que faz mais falta são bens alimentares, bens essenciais. Quem quiser contribuir deve dirigir-se ao bar New Wave, na Rua Almirante Cândido dos Reis, n.º 135.”

Habitação é outro dos problemas. Para já, a família de Luís foi realojada temporariamente na Casa Europa. “Vamos ver que seguimento a autarquia dará à situação”, acrescentou Ana Maria Dias.

E o dilema estende-se também à família de José Silva, que habitava no 1.º direito do mesmo edifício e que está desalojada. “Somos seis pessoas. Eu, a minha mulher e quatro filhos, com idades de 4, 8, 12 e 15 anos. Ficámos sem nada, sem roupas, sem livros… nada de nada. Só ficámos com o que temos vestido no corpo”, lamentou a O SETUBALENSE José Silva, que completou 36 anos neste sábado.

“A Câmara Municipal esteve cá ontem [sexta-feira] e disseram-nos que iriam falar connosco nesta segunda-feira. Desde ontem até hoje [sábado] não nos colocaram em lado nenhum. Tenho esperança na autarquia, creio que possam ajudar-nos. Mas se não ajudarem, como será?”, desabafou, perante o cenário de incerteza. “Esta vai ser uma semana de lágrimas, de desânimo, de olhar para os meus filhos sem um tecto, sem um aconchego, sem nada”, juntou.

No 1.° esquerdo habitava uma mulher de 48 anos, com uma filha de 13 e um filho de 18. Também ficaram sem casa. Foi uma outra filha, de 28 anos, que acolheu na sua residência a mãe e os dois irmãos. Também esta família, ao que O SETUBALENSE conseguiu apurar, ficou de ser contactada pela autarquia nesta segunda-feira.

Bombeiros Comandante explica actuação

O incêndio foi dado como extinto “ainda antes das 20 horas” de sexta-feira, disse Pedro Ferreira, Comandante dos Bombeiros Voluntários do Montijo, que explicou ainda a O SETUBALENSE a razão de os bombeiros não terem avançado de imediato para o resgate da criança, ao contrário do que fez o pai da menina. Segurança, foi o motivo apresentado pelo responsável da corporação que não deixou de reconhecer heroísmo à acção do progenitor da bebé. “Compreendemos a aflição do pai. Graças a Deus que correu bem. Mas antes tinham de ser garantidas as condições de segurança para que pudesse ser efectuado o resgate e não se correr o risco de em vez de termos uma vítima termos duas”, defendeu.

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