O social-democrata critica a “fraca” votação de militantes e diz que os eleitos para a distrital do partido nem deviam tomar posse. Paulo Ribeiro considera a reação uma cobardia
De um total de 1871 militantes inscritos (ou seja, com as quotas em dia) apenas 493 votaram nas eleições dos órgãos distritais de Setúbal do PSD, que decorreram no passado sábado em simultâneo com as das concelhias. Paulo Ribeiro foi reeleito para um terceiro e último mandato à frente da Comissão Política Distrital com 378 votos – registaram-se ainda 81 votos em branco e 34 nulos. E João Afonso, ex-presidente da concelhia do Montijo, considera que a “fraca” adesão de militantes é reflexo de que o partido bateu no fundo na região, por haver quem impeça uma renovação.
“Os resultados para a distrital manifestam uma separação entre militantes e eleitos. Só um quarto dos inscritos votaram. Os militantes já não acreditam nestas mesmas pessoas que se apresentam [a votos] à Comissão Política Distrital há cerca de 20 anos. Se acreditassem, a votação teria sido muito mais expressiva. Estas pessoas tomaram conta do partido. O que se passa com o PSD no distrito de Setúbal é um cambalacho político”, diz João Afonso, ao debruçar-se sobre os resultados para a distrital laranja. “Quando em 1871 inscritos só votaram 493 e com várias dezenas de votos em branco e nulos, isto é bem revelador do divórcio existente entre os militantes e a distrital. Almada é o caso mais paradigmático: de entre 430 inscritos só votaram 78”, justifica.
Sem nunca elencar nomes, o montijense deixa duras críticas aos social-democratas que têm dirigido os destinos da estrutura distrital nas últimas décadas e dispara: “Isto demonstra a falência do modelo político no distrito, que está cristalizado em torno de duas ou três pessoas que já não representam os militantes. Os militantes já não se reveem nestas pessoas, que estão ali apenas por interesses pessoais e taticistas.”
E até vai mais longe. “Esta Comissão Política Distrital tem legitimidade democrática, mas não tem legitimidade política. Não devia tomar posse. Deviam fazer uma leitura destes resultados, mas não fazem. Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu”, atira o montijense, que admite não ter ido votar.
Paulo Ribeiro contra-ataca
Confrontado com as acusações de João Afonso, o recém-eleito presidente da Comissão Política Distrital de Setúbal do PSD diz não reconhecer “credibilidade política” ao montijense e desdramatiza a baixa adesão de militantes às eleições.
“Houve uma única lista para os órgãos distritais e quando assim é o número de militantes que vota é naturalmente menor, porque existe menor apetência para se ir votar. Os militantes sentem-se mais impelidos a votar quando há concorrência”, explica Paulo Ribeiro, para reforçar de seguida: “Nas anteriores eleições para a distrital votaram 1127 militantes, porque havia duas listas. Tal como agora, por exemplo, para a concelhia de Palmela, onde existiram duas listas candidatas (único caso no distrito) e em que votaram 66% dos militantes inscritos”.
Sobre a falta de legitimidade política, Paulo Ribeiro não poupa João Afonso. “Não me sinto nem mais nem menos legitimado. As eleições foram marcadas com três meses de antecedência. Só não se apresentou a votos quem se sentia representado na única lista apresentada, ou quem não conseguiu apoio junto dos que não se sentiam representados, ou ainda quem não teve coragem para se apresentar”, considera, antes de endurecer o discurso. “Não só sinto legitimidade política como legitimidade eleitoral. É estranho que as pessoas se manifestem assim. A legitimidade política vê-se com quem tem mais ou menos votos. Quem não concorda só tem uma coisa a fazer: é apresentar-se a eleições. Atirar a pedra e esconder a mão a posteriori é um acto de cobardia política.”
O líder da distrital laranja “desvaloriza” as críticas de João Afonso e afasta a possibilidade de participar disciplinarmente do montijense. “Já fiz participações disciplinares relativas a militantes que se candidatam por outros partidos, o que viola os estatutos. Agora, neste caso concreto, estamos a falar de opiniões, sem nexo, sem sentido, de quem apenas quer chamar a atenção e dizer que ainda existe. Não viola os estatutos.”
Paulo Ribeiro deixa ainda um recado ao ex-presidente da concelhia do Montijo do PSD. “As pessoas têm de olhar para o seu posicionamento e a sua consciência. Cada um terá de fazer a sua introspeção, que acho que é o que ele precisa de fazer na vida”, conclui.