3 Março 2024, Domingo
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Alexandra Carvalho: “Investimento na frota eléctrica já está nos 92 milhões de euros”

Presidente da administração da Transtejo Soflusa diz que a inflação fez disparar valor dos contratos de renovação da frota. Dos actuais 20 catamarãs da Transtejo, 14 estavam inoperacionais. Barco da Soflusa salvou cancelamento da ligação: Seixal-Lisboa

 

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Foi secretária-geral do Ministério do Ambiente (2014-2023), função que acumulou com o cargo de directora do Fundo Ambiental desde 2017, antes de ter assumido, em 13 de Abril passado, a presidência do Conselho de Administração da Transtejo Soflusa. Alexandra Ferreira de Carvalho recebeu um herança pesada, marcada pelo chumbo polémico do Tribunal de Contas ao contrato de aquisição de baterias para os barcos da nova frota eléctrica e ainda pelas débeis condições da actual frota da Transtejo que têm culminado com elevado número de supressões de carreiras entre as duas margens do Tejo.

Em entrevista concedida a O SETUBALENSE e à Rádio Popular FM, a responsável faz o balanço ao momento que a Transtejo Soflusa atravessa e revela todos os detalhes sobre a nova frota eléctrica. Até Setembro, foram transportados 14,6 milhões de passageiros, mais 27% do que durante o mesmo período de 2022, apesar de se ter registado 10,8% de supressões de carreiras na Transtejo e 2,8% na Soflusa. A Transtejo tem mais de metade da actual frota inoperacional.

Esperava mais ou menos dificuldades do que as encontradas na Transtejo/Soflusa (TT/SL)?

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Encontrei exactamente o que esperava, estava muito bem informada sobre as dificuldades que a Transtejo enfrentava e enfrenta. Prefiro falar em desafios e não em dificuldades. E os grandes desafios prendem-se essencialmente com a frota actual, a nova frota e a carência de recursos humanos.

Qual é o estado da actual frota da TT?

A TT tem uma frota de 20 navios, desses, quando nós chegámos, 14 estavam inoperacionais. Os navios têm uma idade avançada e o problema é que não estavam a ter uma manutenção adequada. A situação era e continua a ser de supressões [de carreiras]. A frota da Soflusa é de oito navios, todos operacionais.

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E os 14 navios da TT mantêm-se inoperacionais?

Os processos de docagem custam à volta de 400 mil euros. Conseguimos no final de Abril autorização, através de uma descativação [da tutela], para fazer docagens e neste momento temos um navio que já foi docado, com o processo concluído, e três em doca: dois catamarãs [que fazem as ligações Montijo, Seixal e Cacilhas com Lisboa] e um ferry, o único que temos, que faz a ligação Porto Brandão-Lisboa, actualmente suspensa.

Que números apresenta a TT/SL este ano, em termos de carreiras e passageiros?

Até Setembro, a TT/SL transportou 14,6 milhões de passageiros, isto significa mais 27% do que no período homólogo de 2022. Atenção que 2019 foi o melhor ano para todos os transportes públicos e a TT não foi excepção. Depois tivemos a pandemia e em 30 de Setembro deste ano conseguimos pela primeira vez superar os números de 2019, em 3%. A oferta tem sofrido muitas perturbações com a supressão de viagens previstas: 2,8% na SL e 10,8% na TT. As avarias e a frota insuficiente representam, respectivamente, 43% e 47% das viagens suprimidas na TT em 2023. As supressões da SL em 2023 foram resultado de um acidente com um navio. Neste momento, praticamente não existem, porque temos a frota completa. E foi até por isso que o Conselho de Administração decidiu…

… Alocar um navio da SL à TT, para a ligação Montijo-Lisboa.

Fazer o que nós chamamos de um contrato de fretamento entre a TT e a SL, dada a grande quantidade de avarias que tínhamos… Estávamos em risco de ter de suspender completamente uma das ligações.

Qual das ligações?

Nós prejudicamos sempre em primeiro lugar a ligação Seixal-Cais Sodré, porque Seixal tem alternativa, enquanto que o Montijo não. Graças a esta decisão, única e exclusiva do Conselho de Administração, conseguimos trazer um navio da SL. O contrato de fretamento é feito por um mês, renovável por mais um. Quando os dois catamarãs que estão em docagem (o Carnide e o Fantasia) regressarem à frota da TT – o que está previsto para este mês ou princípio de Dezembro – devolveremos imediatamente o [navio] Jorge de Sena à frota da SL. Só tomámos esta decisão por termos na SL um navio em reserva. Isto permitiu evitar mais supressões nas carreiras de Seixal e Montijo.

Como classifica o trabalho realizado nestes últimos sete meses?

Quando assumi funções a empresa atravessava uma fase muito difícil, estava muito descredibilizada, devido à recusa do visto do Tribunal de Contas [ao contrato referente à aquisição de baterias para nove navios da frota eléctrica]. E o descrédito junto dos nossos passageiros é mesmo muito penalizador para a administração. Muitas supressões [de carreiras], descrédito total. Quando chego, as minhas equipas – estou a falar dos 461 trabalhadores que compõem a TT e a SL – estavam com o moral muito em baixo. A minha primeira preocupação foi começar a dar-lhes ânimo. Dizer-lhes que este é um grande desafio. O projecto da nova frota é extremamente inovador. E tudo o que é inovador e traz mudança, traz resistência, obstáculos e desafios que têm de ser ultrapassados. Foi esta mensagem que passei. Pusemos logo em marcha o concurso público internacional [para aquisição das baterias], pusemos também logo em marcha a docagem de alguns navios e fizemos, na primeira ou na segunda semana, reuniões com os sindicatos, com as comissões de trabalhadores e também com todos os presidentes de câmara.

Foram muitas as reuniões com os presidentes de câmara? Quem foi o mais reivindicativo?

Fizemos reuniões com todos, Barreiro, Seixal, Montijo, Almada e Lisboa. Foi uma reunião de apresentação do Conselho de Administração e uma reunião de apresentação das principais preocupações dos autarcas. Foram todos reivindicativos. E bem! Houve mais uma solicitação de reunião, por parte do presidente da Câmara do Seixal, que foi acolhida. E têm havido contactos muito regulares, com o presidente da Câmara do Seixal e com o presidente da Câmara do Montijo igualmente.

Mas deixe-me dizer que quando cheguei fiquei logo muito apaixonada pela TT, pelo desafio, por este negócio. Acho que a empresa tem imenso potencial e este Conselho de Administração está mesmo empenhado em não só cumprir as obrigações de serviço público como também em retomar as carreiras de turismo que, enquanto não cumprirmos o serviço público, não podemos ter. E é esse caminho que estamos a trilhar

O Governo afectou recentemente mais 10 milhões de euros para o plano de renovação da frota eléctrica. Porquê?

A principal razão foi a revisão de preços que tivemos de fazer dos três contratos, por causa do impacto da inflação. Para já, este investimento público está nos 92 milhões de euros, não nos 80. Inclui o contrato de construção dos 10 navios e um pack de baterias, o contrato de fornecimento das nove baterias e o contrato de construção das cinco estações de carregamento rápido que vamos ter em Cais Sodré, Cacilhas, Seixal e Montijo, porque a nova frota vai operar com dois navios no Montijo, dois no Seixal, três em Cacilhas e teremos três navios de reserva para quando algum entrar em manutenção ou avariar.

Navios carregam em 7 minutos “Não prevemos alterações na duração das viagens”

O “Cegonha-Branca” vai efectuar já “nas próximas semanas” as primeiras viagens experimentais, que servem para dissipar dúvidas quanto aos tempos de duração das viagens. A autonomia dos novos barcos suporta todas as travessias, até porque Seixal, Montijo, Cacilhas e Cais Sodré vão ter estações de carregamento rápido, que constituem, segundo Alexandra Carvalho, um “projecto pioneiro em todo o mundo”.

A autonomia das baterias não coloca em causa a ligação mais longa, Montijo-Lisboa? É garantido que estes navios vão fazer esta carreira?

As primeiras viagens experimentais do “Cegonha-Branca” – já entregue à TT e no qual as nossas tripulações estão a realizar formação – vão ser feitas nas próximas semanas e os passageiros vão poder entrar a bordo. A frota vai entrar em operação depois de termos navios suficientes. Está previsto que os dois últimos navios só venham em 2025, mas penso que vamos poder antecipar a entrega de todos para 2024. Penso que no segundo semestre de 2024 teremos condições de iniciar a operação. Montijo, é mesmo garantido, vai contar com barcos da nova frota e com uma estação de carregamento, cuja construção está quase a ter início. Os passageiros já podem ver a do Seixal, a torre de carregamento já está no terminal.

E este projecto das estações de carregamento é pioneiro em todo o mundo, altamente inovador, porque estas vão ser as primeiras estações de carregamento construídas offshore. A conclusão da primeira, no Seixal, está prevista para Dezembro, e a do Montijo para o primeiro trimestre de 2024. Assim que tivermos as estações de carregamento e os navios, Seixal-Lisboa será a primeira ligação e a segunda será Montijo-Lisboa, depois Cacilhas-Lisboa.

A duração das viagens vai sofrer alterações?

Neste momento, com os dados que temos, a previsão é de que os tempos de duração não vão sofrer alterações. Poderão haver, mas isso teremos de ver quando os navios estiverem a operar, daí se fazerem as viagens experimentais.

A carreira do Montijo tem uma duração de cerca de 30 minutos…

… Não prevemos que haja alteração. Posso dizer também que a estação de carregamento rápido carrega os navios em 7 minutos. Nem prevemos supressões de carreiras, antes pelo contrário (até prevemos poder fazer desdobramentos). Além disso, vamos ter ainda a frota actual como reforço, suporte, à nova frota.

Como tem estado a correr o processo de formação das tripulações para a nova frota?

A formação teve início logo em Julho a bordo do navio “Cegonha-Branca”. Foram formadas duas tripulações, tiveram uma semana de formação. Não pudemos ainda retomar a formação e vamos fazê-lo a partir do dia 20 [segunda-feira passada], porque temos o desafio da carência de recursos humanos, a nível de tripulações e de maquinistas.

Quantas pessoas fazem falta para deixar completamente estabilizada a operação?

Propusemos neste orçamento, e foi aceite pela tutela, a contratação a três anos de mais sete tripulações, compostas por quatro trabalhadores: mestre, maquinista e dois marinheiros. Tivemos autorização da tutela do Ambiente, estamos à espera da “luz verde” do Ministério das Finanças. Com mais sete tripulações conseguiríamos operar com toda a tranquilidade estas ligações.

Quando teremos o serviço da Transtejo a funcionar sem supressão de carreiras?

Estamos a fazer tudo. A minha principal missão na empresa é essa. Não consigo dizer com toda a certeza o prazo em que as supressões vão terminar, posso dizer uma coisa: já estamos melhor do que há umas semanas, estamos a dar os passos certos. Espero que Dezembro marque a viragem e em Janeiro esperamos estar em velocidade de cruzeiro.

Se pudesse voltar atrás e decidir, tornaria a assumir a presidência da administração?

Tornaria. Se calhar aceitaria mais depressa, do que aceitei quando fui convidada.

Fusão “Traz vantagens administrativas e para os trabalhadores”

A fusão da TT com a SL, anunciada pela tutela, acarreta vantagens. Desde logo, diz Alexandra Carvalho, “ao nível de trabalho administrativo e de suporte ao funcionamento da empresa”. A administração deixa de ter de apresentar orçamentos e prestação de contas para cada uma das transportadoras. “Outra vantagem é a frota poder ficar a ser gerida e adequada de acordo com as necessidades de uma ou outra ligação. E vejo vantagens para os trabalhadores, que não vão perder direitos, trabalhámos numa harmonização salarial, vai tudo ser nivelado pelo mais vantajoso para os trabalhadores”, adianta.

A responsável só não encontra resposta para o facto da fusão não ter sido concretizada antes. “Está prevista desde 2001, fizeram-se algumas tentativas no passado, nunca se chegou a acordo por razões que desconheço”, admite. E, a concluir, sublinha: “Quando me convidaram para a administração, disseram-me que essa podia ser uma possibilidade. Também não estava à espera neste ano. O processo tem de estar concluído até 31 de Dezembro deste ano.”

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