12 Agosto 2022, Sexta-feira
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João Martins: “Deixo uma casa com bom nome e reconhecida”

Criou, desenvolveu e consolidou a Escola Profissional do Montijo (EPM). Ao fim de 29 anos e uns pozinhos, o professor decidiu passar o testemunho

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É costume dizer-se que Marias há muitas na terra. Mas também Josés ou até Joões. No Montijo, porém, quando o termo professor antecede João já se sabe que se fala de apenas um: o “pai” da EPM, presidente do Conselho de Administração da Associação para a Formação Profissional e Desenvolvimento do Montijo (AFPDM), talvez melhor dizendo. E assim deverá perdurar, apesar de o docente estar prestes a colocar um ponto final na liderança do projecto que parte agora para as três décadas de existência. “Este é o momento certo para terminar um ciclo”, justifica.

Natural do Sabugal, distrito da Guarda, e formado em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa, João Martins, 65 anos, começou a leccionar em Pinhel, em 1979. Seguiu-se a Anselmo de Andrade, em Almada, e em 1981 chegou à Secundária do Montijo, actual Escola Secundária Jorge Peixinho. Em 1993 foi desafiado e aceitou avançar com a EPM. A partir de 1998, quando, por força da lei, foi necessário criar a AFPDM como entidade proprietária da EPM assumiu a presidência do Conselho de Administração. Hoje, através das páginas de O SETUBALENSE, faz uma retrospectiva ao projecto que se afirmou como uma das referências no plano educativo e formativo a nível local, regional e até nacional. Diz adeus e agradece a confiança em si sempre depositada.

Está de saída de um projecto, do qual se pode dizer que é “pai”. Porquê agora?
Este é o momento certo para terminar o ciclo na EPM. Sempre disse que quando tivesse direito a aposentar-me, o faria. Como isso vai acontecer em Setembro próximo… Creio que foi um ciclo muito longo. Ninguém, nem eu, esperava que fosse tão longo, com 29 anos concluídos e a iniciar o trigésimo.

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A EPM nasceu, através de um contrato-programa, em 1991. O que guarda na memória desse tempo?
Não acompanhei o processo de criação da escola, que foi liderado pela autarquia. Acompanhei apenas o arranque da escola, que iniciou actividade em 1993, na Quinta do Saldanha, num conjunto de apartamentos. Sei que, na altura, a sua criação teve muito a ver com as indústrias tradicionais [locais] das carnes e das cortiças. A escola arrancou com dois cursos e 30 alunos. Com um curso de design industrial com 20 alunos e um curso de indústria de carnes com 10 alunos. Iniciámos com duas turmas, com uma autorização especial da tutela para o curso de 10 alunos.

Depois veio o Conservatório Regional de Artes do Montijo (CRAM) também para essa zona.
O edifício onde hoje está o CRAM acabou por ser utilizado por nós a partir de 1999, quando iniciámos um processo novo de formação em ligação com o IEFP, o programa Aprendizagem. Esse espaço estava preparado por uma empresa de Setúbal, que tinha pensado abrir um pólo de formação no Montijo, mas que acabou por não abrir. Falei com Maria Amélia Antunes, então presidente da Câmara, que decidiu adquirir o imóvel para a autarquia com a finalidade de nos ser entregue e nós passámos a pagar uma renda. Entretanto, as formações foram crescendo e fomos alargando os espaços. Começámos com quatro apartamentos na Rua Cidade de Beja, mas rapidamente toda aquela estrutura de lojas por ali abaixo foi sendo adaptada para a área da formação. Aquele bairro era praticamente ocupado por nós até 2008, altura em que se construiu o actual edifício da EPM.

Edifício que foi uma grande obra, um enorme investimento
… Uma necessidade. Custou cerca de 4 milhões de euros, naquela altura. A construção foi suportada pela autarquia em 715 mil euros; a tutela assegurou o equipamento (mesas, cadeiras, computadores…) em 380 mil euros. E contraímos um empréstimo bancário de 2,9 milhões, que ainda não acabámos de pagar mas que está praticamente liquidado.

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Esse empréstimo teve de ser avalizado pessoalmente?
O terreno é público, foi cedido em direito de superfície pelo município, e houve um conforto da autarquia junto da banca. Houve “avales” pessoais, mas não foi nessa questão.

O que sente hoje ao entrar nestas instalações?
Foi uma grande obra, projectou a EPM, deu condições às pessoas e aos miúdos que cá trabalham. Mas não estou plenamente satisfeito. Há aqui ainda muita coisa a fazer. É que agora é preciso ampliá-la, dotá-la na área tecnológica. Isso está em cima da mesa e espero que tenha, no próximo ano, um desenvolvimento positivo, até porque temos estado a preparar uma candidatura ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência para esse fim.

Está a falar das oficinas?
O que está previsto é a construção de um edifício com cerca de 1.200 metros, a ser seccionado em cinco ou seis espaços, onde deverão ser instaladas uma área de cozinha, uma área de mecatrónica automóvel, uma área de manutenção industrial, uma área de TIC [Tecnologias de Informação e Comunicação] e uma área de electricidade. São três áreas-chave: a restauração e turismo; a tecnológica; e as TIC.

Quantos alunos tem hoje e quantos projectos desenvolve a EPM?
Antes de mais é preciso dizer que, por força da legislação, foi necessário criar uma entidade proprietária da escola e, assim, em 1998 criámos a AFPDM, que tutela tudo isto. Neste momento, a AFPDM desenvolve actividade em três grandes eixos: o principal é a formação, que tem a EPM, o CRAM, e um projecto fantástico que é o Erasmus e que em 2019 trouxe 850 miúdos estrangeiros ao Montijo (talvez cheguemos aos mil este ano). Os dois outros eixos são a relação com as empresas e a formação inicial jovem e a intervenção social e comunitária.

Quais os que merecem maior destaque?
Há três projectos-chave: a EPM, que é a âncora; depois, a partir de 2010, o CRAM, que é uma escola que tem um potencial brutal e que pode projectar o Montijo; e depois os projectos europeus. São, ao fim e ao cabo, o primeiro eixo. Mas todos os eixos complementam-se. O financiamento desta casa resulta quase exclusivamente destes projectos.

E como está financeiramente a AFPDM?
Podia estar melhor, mas também podia estar pior [risos]. Estamos bem mais equilibrados do que há cinco anos. Algum desequilíbrio que possa haver é de tesouraria. E porquê? Porque fizemos um investimento patrimonial brutal. Além dos 2,9 milhões para o edifício da EPM, investimos mais 1,5 milhões em dois prédios de habitação, a Casa Europa, que é pilar fundamental para o projecto Erasmus, ao alojar os jovens. Em períodos que não temos jovens, a Casa Europa está aberta no “booking”, como alojamento local, e a última avaliação que obteve foi de 8.4. Em condições que consideramos boas tem capacidade para um total de 80 pessoas.

Contou no investimento da Casa Europa com a comparticipação da autarquia?
São dois prédios, 16 apartamentos, 12 dos quais adquiridos pela AFPDM com crédito bancário (1,2 milhões de euros) e quatro apartamentos foram cedidos pela autarquia, em contrato de comodato.

Qual foi o momento mais difícil por que passou nesta casa e qual aquele que considera ter sido o mais positivo?
O mais crítico talvez tenha ocorrido com a mudança do Quadro Comunitário de 2014. Chegámos a ter por receber, em atraso, 1,5 milhões de euros do POR Lisboa. Viemos a receber por aí fora, mas isso criou problemas de tesouraria complicadíssimos. Foi o momento que talvez até me tenha marcado mais em termos pessoais, porque também coincidiu com um problema de saúde muito grave que tive…
O mais feliz foi quando inaugurámos este edifício, na Páscoa de 2008. Tive um conjunto de equipas com quem trabalhei que me ajudou imenso. E hoje a escola e a associação são organizações reconhecidas pela tutela, como pessoas de bem. Deixo uma casa com bom nome e reconhecida por tentar fazer, tentar ajudar sempre, por estar sempre disponível. Não há ninguém que não tenha o meu número de telefone e até hoje nunca fui incomodado por ninguém.

O edifício da EPM foi o virar de página de todo este projecto…
… Até mesmo na relação com a tutela. Passou a ser diferente. O Ministério da Educação passou a olhar para este projecto com outra credibilidade.

Foi fácil alcançar esse objectivo com a autarquia? A conclusão da obra não demorou muito.
Sim. Houve momentos de maior avanço, outros de algum recuo. Mas foi fácil. Tanto que a construção demorou apenas um ano. A empresa montou o estaleiro em Março de 2007 e entregou a obra em 31 de Março de 2008.

Fugiu à regra, não houve derrapagens?
Em termos de prazos, não. Foi exemplar. O que houve foi um acrescento ao caderno de encargos. O concurso foi lançado sem contemplar refeitório nem auditório, que custaram 800 mil euros. Aí podemos dizer que derrapou. Mas, não podíamos viver sem eles. O auditório tem capacidade para 130 pessoas e acolhe diversos eventos; e o refeitório dispensa apresentações quanto à sua utilidade. Penso que a construção deste edifício é um caso exemplar. Tem 5.500 m2 de área coberta e demorou apenas um ano a erguer.

Que nota de 1 a 10 atribui à EPM?
Não me custa nada colocar a EPM no lote das boas escolas privadas do País e tenho a certeza que não temos medo de ombrear com praticamente ninguém.

Qual é a taxa de sucesso da EPM na integração de alunos no mercado de trabalho?
Globalmente andaremos na casa dos 70%. Mas temos cursos de empregabilidade a 100%, como o da manutenção industrial, que temos desde 1996, salvo erro, foi o primeiro que tivemos sempre. O problema é que começamos a ter falta de alunos para estes cursos de maior empregabilidade. É urgente que, em termos nacionais, haja aqui uma valorização e divulgação cada vez maior porque são cursos extremamente necessários e para os quais temos cada vez mais dificuldade de arranjar alunos.

O que sente nesta hora de despedida?
Nunca fui dado a sentimentos. Não quer dizer que não os tenha. É óbvio que se disser que não sinto nada, não me fica bem. A estrutura cresceu imenso, hoje somos 150 trabalhadores, isto já não se compadece com o próprio modelo de gestão que fomos implementando. Vou com alguma saudade, seria indecente não o dizer, mas para mim está tudo muito bem resolvido, acho que é este o momento.

Como gostaria de ser recordado por todo este percurso neste projecto?
Sobretudo como uma pessoa que procurou dedicar-se, que procurou estar cá para resolver problemas e que deu o melhor de si. Muitos dirão: ‘podia ter feito de outra maneira’. Provavelmente, sim. Mas na altura, com o que sabia e com as circunstâncias com que me confrontei, creio que tomei as melhores decisões para o sucesso e a consolidação da casa. De um modo geral, as pessoas têm confiança em mim, e no que digo, e consideração por mim. O que se pode querer mais? Se isto for verdade, como acredito que é, maior homenagem do que essa não é necessária. Gostaria, sobretudo, de ser recordado como uma pessoa que esteve cá para colaborar com todos, para trabalhar, para ajudar.

E não como o rosto que ficará inevitavelmente associado a este projecto?
Isso não é o mais importante. Isto é o resultado de muita gente. É um percurso que está ao serviço da terra, das pessoas, um projecto que, até pelo modelo de financiamento, acho que é único. Não conheço mais nenhum em que tenha sido o próprio projecto que, na quase generalidade das coisas, se financiou e investiu. Foi um projecto que se construiu não numa lógica de ganhar dinheiro mas numa lógica de sustentabilidade. Não podemos desenvolver projectos de chapéu na mão. Temos de os desenvolver com vista à sustentabilidade. Essa coisa de se passar o tempo a pedir, comigo não funciona e nunca funcionou, o que não quer dizer que não tenhamos trabalhado com várias entidades.

Falou no novo ciclo que se abre. A sua sucessão tem de estar já definida. Quem é que se segue?
De acordo com os estatutos, quem nomeia os órgãos da gestão é a autarquia. Não me compete…

… Com certeza que a autarquia já o abordou.
Obviamente. Aquilo que sempre defendi é que para haver mudanças não é necessário haver revoluções. Deve haver evoluções. De certeza que, entre 150 pessoas, haverá nesta casa três com capacidade para assumir a gestão (presidente, vice-presidente e director pedagógico que também é vogal).

Para que fique esclarecido, qual é a “quota” do município na AFPDM?
Essa é uma grande confusão que se criou. Não há quota nenhuma. Os estatutos são claros: os associados são todos iguais, numa assembleia geral cada um tem um voto. Nunca houve qualquer problema em 30 anos. Em termos de administração, os estatutos prevêem que a autarquia nomeie o Conselho de Administração, que directamente nomeie o presidente e que este lhe proponha o vice-presidente que, depois, a autarquia aprova ou não. Outra coisa é o funcionamento da associação, em que a autarquia é um elemento como qualquer outro. Existe ainda um outro pormenor. Nos estatutos está também salvaguardado o património. No dia em que esta casa deixe de funcionar para o fim que foi criada o património reverte para a autarquia e, eventualmente, para o Ministério da Educação.

Já pensou no que irá fazer, agora que passará a ter mais tempo livre?
Não faço ideia de ficar ligado a qualquer cargo, em termos da AFPDM. Poderei dar algum apoio num ou noutro projecto que me parece chave. Um é o Erasmus, que acabou por se desenvolver muito à minha volta; e o outro é a parte das oficinas, a parte tecnológica – se o concurso for aprovado e se virem alguma utilidade, gostaria de acompanhar um pouco a obra. Se alguém entender que posso ser útil, cá estarei. Em tudo o resto, também estarei sempre disponível para a nova administração e virei cá as vezes que forem precisas.

E além deste projecto?
Olhe, fiz isto de alma e coração e a tempo inteiro, que é uma coisa que permite o sucesso dos projectos. Quando em 1993 me convidaram para vir para a EPM, andava num terreno ao pé do Samouco, que ainda tenho, a apanhar batatas. Vou dedicar-me um pouco à agricultura. É aquilo em que me sinto melhor. Dá-me um prazer imenso e foi o que me fez, nos momentos mais difíceis, resistir. Foi uma terapia fantástica. São 5 mil metros, tenho 150 árvores de fruto, dá bem para me chatear… Depois, espero ter um pouco mais de tempo para a família. Vou tentar compensar a minha família, a quem agradeço, sobretudo à minha mulher que foi a mais sacrificada. E quero agradecer aos colaboradores, aos alunos – foram eles que fizeram esta casa, mais do que todos nós – e às famílias, às empresas que nos ajudam, aos associados, que são sete neste momento, e à autarquia – trabalhei com três presidentes de câmara e nunca tive pressões significativas para tomar qualquer decisão e isso é bom que se sublinhe.

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