16 Maio 2022, Segunda-feira
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João Paulo Diniz: “Quando transmiti a canção senti que valia a pena acreditar num País melhor, sem guerras e em paz”

Radialista anunciou a primeira senha de Abril. Combinou o sinal com Otelo Saraiva de Carvalho três dias antes da revolução. Militares “queriam” Zeca Afonso, mas o jornalista sugeriu Paulo de Carvalho para evitar suspeitas

 

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“Faltam cinco minutos para as 23 horas, convosco Paulo de Carvalho com o Eurofestival de 74: ‘E Depois do Adeus’”. Foram estas as palavras utilizadas por João Paulo Diniz, antes de soltar a canção que estava combinada como primeira senha para o desencadear da operação militar nos derradeiros instantes daquela noite de 24 de Abril de 1974. A alvorada de 25 seria diferente de todas as outras até então vividas: o cinzentismo ditatorial daria lugar ao vibrante vermelho de cravos que, daí em diante, simbolizariam o triunfo da liberdade.

João Paulo Diniz tinha então 25 anos. Volvidos 48, o jornalista, que reside em Alcochete, vai estar no próximo domingo, a partir das 16 horas, à conversa na sede da Junta da União das Freguesias de Montijo e Afonsoeiro, numa iniciativa da autarquia para assinalar a revolução de Abril. Como aperitivo, em entrevista a O SETUBALENSE, lembra o percurso profissional iniciado no Casa Pia e o histórico momento que preparou com Otelo Saraiva de Carvalho.

Há quanto tempo reside em Alcochete? Foi a primeira vez que estabeleceu residência no Distrito de Setúbal? Porquê esta escolha?

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Há cerca de um ano e é a primeira vez que habito no Distrito de Setúbal. Optei por Alcochete por estar mais próximo de um dos meus filhos e dos netos, mas também porque se trata de uma zona muito interessante, enriquecida pela proximidade do Tejo e habitada por gente boa.

Começou por fazer um teste para “A Voz do Casa Pia” e, ao mesmo tempo, acaba na rádio a fazer o Passatempo Juvenil (Páju), transmitido pelo Rádio Peninsular. E depois?

O Casa Pia Atlético Clube não é apenas futebol, também dispõe de outras modalidades. Nos anos 60 foi criado um programa de rádio, “A Voz do Casa Pia”, onde se projectavam informações relacionadas com o clube e com a própria Casa Pia. Era um programa semanal, transmitido pelo Rádio Peninsular, que integrava os Emissores Associados de Lisboa. Foi lá que prestei provas e correu tudo bem. De facto, dias depois do teste fui convidado pelo Aurélio Carlos Moreira (actual decano dos locutores e ainda em actividade) para integrar o “Páju”. Ao longo dos anos surgiram outros desafios profissionais, sendo que um dos mais interessantes foi ter estado seis anos em Londres, a trabalhar na BBC. Foi a minha universidade.

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Deu voz ao Programa das Forças Armadas (então conhecido por PIFAS). Foi aí que conheceu Otelo Saraiva de Carvalho e também Ramalho Eanes, então capitães?

Sim, estive na Guiné, era de Engenharia, mas escassos meses volvidos sobre a minha chegada fui transferido para o Comando-Chefe, para integrar o ‘PFA’ – o Programa das Forças Armadas – onde havia uma equipa admirável! Foi lá que privei com os então capitães Otelo Saraiva de Carvalho e António Ramalho Eanes, o qual viria a ser meu comandante.

“Perguntei o que poderia acontecer se as coisas não corressem bem. E Otelo explicou-me que, se corresse mal, ele e outros camaradas de armas iriam presos para a Trafaria. E eu, como civil, iria preso para Caxias”

Anunciou a primeira senha que desencadeou a operação militar “fim [do] regime” aos microfones do Rádio Peninsular. O que sentiu quando soltou a música interpretada por Paulo de Carvalho?

No dia 22 de Abril de 1974 assumi o compromisso de lançar um sinal através do Rádio Peninsular que com a Rádio Voz de Lisboa formavam a empresa ‘Alfabeta’, com as emissões via Emissores Associados de Lisboa. Aos militares que me abordaram perguntei o que poderia acontecer se as coisas não corressem bem. E Otelo explicou-me que, se corresse mal, ele e outros camaradas de armas iriam presos para a Trafaria. E eu, como civil, iria preso para Caxias… Enfim, quando transmiti a canção senti que valia a pena acreditar num País melhor, sem guerras e em paz!

Foi a 22 de Abril que Otelo lhe solicitou a transmissão da senha? É verdade que inicialmente Otelo pretendia uma canção de Zeca Afonso e que foi João Paulo Diniz a sugerir Paulo de Carvalho?

Sim, de início os militares tinham pensado numa canção de Zeca Afonso para ser o sinal. Mas numa reunião lembrei duas coisas: uma, que o Zeca estava proibidíssimo pela censura; outra, não sendo o Zeca uma voz conhecida através da rádio, isso poderia suscitar dúvidas de quem o ouvisse. Por isso sugeri o Paulo de Carvalho, cujo tema “E Depois do Adeus”, passava na rádio com enorme frequência, por ter ganho o Festival RTP.

O que mais retém na memória daqueles primeiros momentos ou das primeiras horas de 25 de Abril de 1974?

A explosão de alegria de um povo e a felicidade de inúmeros pais e mães, cujos filhos já não teriam que ir para a guerra no Ultramar.

Aqui chegados e olhando para trás, como vê a evolução de Abril?

Abril continua de pé. Lamento é os oportunistas que de Abril se têm servido…

Numa carreira profissional cheia, não faltam episódios e curiosidades. Em Paris, por exemplo, chegou a deparar-se num café com Salvador Dalí e a veia jornalística não perdoou…

Embora o encontro com Dali fosse uma mera coincidência, não deixei de o abordar. Lá diz o ditado que “quem não arrisca…”. Enfim, não petisquei…

E Nelson Mandela? Foi “a entrevista”?

Fui a Joanesburgo expressamente para entrevistar Mandela. Encontrei um homem invulgar, um fantástico ser humano. Durante a entrevista, não ouvi uma palavra de ódio ou de rancor para com aqueles que tão mal o trataram. E Mandela esteve preso 27 anos, pela sua acção política… Depois de libertado regressou à luta política, veio a ser presidente da África do Sul durante cinco anos e ainda Prémio Nobel da Paz em 1993. O meu encontro com Nelson Mandela é um marco na minha vida pessoal e profissional.

Como era ser jornalista antes e como foi (é) ser depois de 25 de Abril de 1974?

Há um antes e um depois do 25 de Abril. Antes dessa data, se um jornalista pretendesse dizer “umas verdades” tinha que dar asas à sua imaginação para tornear as dificuldades. Depois de Abril caiu a censura e, de hoje em dia, só é preciso um jornalista ser sério, respeitar o público, honrar a sua profissão. Apenas isso.

PERFIL ‘Senhor Rádio’ chamou pela liberdade

João Paulo Diniz, 73 anos, uma das vozes radiofónicas de referência e rosto do programa “Histórias da Rádio” na RTP Memória, completou meio século de carreira em 2015. Tem o nome inscrito na História da Liberdade de Portugal: assumiu divulgar no Rádio Peninsular, via Emissores Associados de Lisboa, aquela que seria a primeira senha para desencadear o movimento das Forças Armadas que terminaria com a ditadura no País.

Locutor e realizador de rádio, o também jornalista arrecadou o prémio Imprensa em 1969 com o programa “1-8-0”. Já este ano foi distinguido com o prémio Igrejas Caeiro, na área da rádio, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores. Começou no Rádio Peninsular, fez locução na rádio das Forças Armadas, na Guiné-Bissau, trabalhou no Rádio Clube Português e, depois, seis anos na BBC em Londres. Dirigiu a Rádio Alfa em Paris e voltou a Portugal para desempenhar várias funções na RDP/RTP.

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