16 Maio 2022, Segunda-feira
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Bandeira ucraniana hasteada até que a missão seja cumprida

Camião com toneladas de apoio da Izidoro/Montalva já rola rumo ao leste. Iniciativa ganhou corpo com apelo num grupo da Escola Bukan de Azeitão no WhatsApp

 

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As sete buzinadelas marcaram o arranque da jornada humanitária e foram retribuídas por um aplauso em uníssono das várias dezenas de funcionários solidários com a causa. A última palete das 22 toneladas de salsichas enlatadas era carregada por um empilhador amarelo para o interior do camião, que no manifesto de carga incluía ainda duas toneladas de roupa. Passavam 20 minutos das 17 horas, na última sexta-feira, quando o pesado começou a rolar ainda no interior da fábrica do grupo Izidoro/Montalva, no Montijo. Destino: Ucrânia.

Lá fora, alguns automobilistas que transitavam na Avenida de Olivença, paralela à unidade fabril, apercebiam-se da acção e “apitavam” em sinal de apoio. E antes do início da marcha rumo a Cantanhede – onde dois condutores ucranianos assumiram a condução, tendo como destino final a fronteira da Polónia com o território invadido – já todos haviam perfilado junto ao veículo, com as bandeiras da Ucrânia e de Portugal, de forma a que o momento ficasse registado para a posteridade.

O pesado fretado pela Izidoro/Montalva tem um longo caminho pela frente e, até que a ajuda que transporta chegue às vítimas da guerra, a empresa, com sede instalada no Montijo, vai cumprir com outro acto simbólico de solidariedade, conforme revelou Luís Rodrigues, CEO do grupo.

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“Temos várias unidades industriais e decidimos ter a bandeira da Ucrânia hasteada até ao momento em que tivermos a garantia de que a mercadoria chegou à Ucrânia.”

“Este é um acto de solidariedade nosso e dos nossos colaboradores, que demonstraram essa vontade”, realçou o administrador da Izidoro/Montalva, sem deixar de lembrar que o actual momento “é difícil para a agro-indústria”, já que “a inflacção dos custos de produção” está a assumir proporções inimagináveis. “Mas há quem esteja a sofrer mais do que nós e temos de ser solidários. Na nossa unidade industrial temos bastantes pessoas ucranianas que têm familiares do lado de lá”, frisou.

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As 22 toneladas de alimentos de mercearia, salsichas e refeições enlatadas, e as duas toneladas de roupa angariadas pela Associação dos Ucranianos em Portugal, por colaboradores da empresa e pelo Rotary Club da Quinta do Conde, entre outros, devem chegar à Ucrânia “ainda nesta semana”, admitiu depois João Rodrigues, director comercial da empresa.

“O destino é mesmo o interior da Ucrânia. A parte logística desta acção foi assegurada em coordenação com pessoas ucranianas que trabalham connosco e outras que já trabalharam e que entretanto regressaram à Ucrânia. Vão garantir a entrada e a distribuição às vítimas”, adiantou, para de seguida explicar como surgiu a iniciativa.

A mãe que fez o apelo

“Nasceu num grupo da Escola Bukan de Azeitão no WhatsApp. Uma pessoa ucraniana, com filhos nessa escola, lançou um apelo de ajuda. Faço parte dessa escola e transmiti que estávamos a preparar o envio de um camião com 22 toneladas de salsichas. A partir daí desencadeou-se uma onda de solidariedade, com muitos a quererem contribuir”, contou João Rodrigues.

Tania, a residir em Portugal há 21 anos com o marido Viktor, foi quem lançou o apelo. Acabava de seguir todos os minutos da etapa iniciada na fábrica, através de um olhar azul claro a transparecer um misto contraditório de tristeza e satisfação. Porém, a gratidão sentida ganhava. “Fiquei super contente por as pessoas conseguirem tudo isto”, confessou.

Os cabelos aloirados, pelos ombros, esvoaçavam de um lado para o outro com o vento e a angústia na voz transmitia o aperto que lhe invade o coração. Mãe, pai e irmão há muito que ficaram para trás, na Ucrânia. “Queria trazer os meus pais, mas não consegui antes da guerra”. Agora, lamentou, “quase não é possível”. Vai mantendo contacto com os seus e os relatos que lhe chegam são cada vez mais desanimadores. “Está tudo super difícil, pior a cada dia que passa”.

A seu lado, Viktor, de quem tem uma filha de 13 anos e um filho de 4, também teme pela família que deixou na cidade de Vinnytsia, a cerca de 30 Km de Kiev. “Esperamos que isto acabe muito rapidamente. Já chega. Todos querem ficar em paz”, desabafou.

Resta continuarem a ajudar como podem. O casal tem vindo a efectuar recolha de bens, em Setúbal, Pinhal Novo e até de Loures chega ajuda, para enviar para os compatriotas. “Amanhã [sábado] vamos enviar mais. Vão carrinhas quase todos os dias. Um camião por semana”, revelou Tania que, para já, não pensa regressar à terra natal.

Tatiana e Remzi, casados e a residir em solo luso vai para 22 anos, também já não pensam em voltar. São da Crimeia, onde têm familiares. “Gosto muito de Portugal, as pessoas aqui são muito boas”, justificou Tatiana. Estavam juntos com Tania e Viktor no apoio à acção que decorria na Izidoro/Montalva. A imagem reflectia a união da comunidade ucraniana em Portugal, que não tem tido mãos a medir, desdobrando-se em contactos, para garantir o máximo possível de ajuda. Sofrem de longe e agradecem de perto o contributo e a solidariedade que têm encontrado no povo português. Até ficarem sem palavras, como Sergei, o mais idoso que se encontrava com os dois casais e que acabou em lágrimas.

Entrada assegurada por rede humanitária

Igor veio há 20 anos para Portugal, onde casou com uma compatriota ucraniana. Está por dentro do plano delineado para fazer entrar a carga da Izidoro/Montalva na Ucrânia. E deixou uma certeza: “A operação logística foi assegurada com pessoas sérias, ucranianas, que trabalham desde 2016 em ajuda humanitária. Estamos a tentar ajudar quem precisa. O camião deverá chegar quarta ou quinta-feira”, disse, sem adiantar outros pormenores. Quanto ao conflito armado, juntou: “Estamos a acompanhar 24 horas por dia. Recebemos notícias dos nossos familiares e colegas que lá estão, perto de Lviv.”

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