5 Dezembro 2021, Domingo
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Funerárias temem despersonalização da morte num tempo em que os nomes dão lugar a números

Em Janeiro registaram-se mais de 250 mortes por Covid-19 em Setúbal. As morgues deram lugar a contentores frigoríficos e a despedida à distância impediu o luto das famílias

 

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Os agentes funerários de Setúbal estão a registar o maior número de óbitos desde que têm memória. Em Janeiro a vaga de frio e a Covid-19 criaram um cenário nunca visto nas morgues e atrasos nos sepultamentos e cremações, cujo tempo de espera alcançou duas semanas. E levou cremações de Setúbal até Abrantes, Almeirim e Entroncamento, segundo dados da Associação Nacional de Empresas Lutuosas.

Catástrofe social agravada pela ausência de ritos fúnebres e homenagens na hora da morte que, no futuro, “vai trazer consequências psicológicas graves”.

Uma reflexão de Pedro Conceição, administrador e proprietário da Funerária Armindo, sobre as consequências da despersonalização da morte. Algo que considera “muito violento” e que está a ser “banalizado” com a “mediatização do número de mortes diárias por Covid-19“.

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Pedro Conceição alerta que “10 mil casos assintomáticos por dia, mais cinco mil a necessitar de tratamento médico, representam também cerca de 300 mortes por dia. E dentro de uma morgue, a imagem é pesada, ultrapassa tudo o que pode ser considerado normal”.

Foi a elevada mortalidade em Setúbal e a impossibilidade de responder, “no tempo que antes seria considerado habitual”, a todas as marcações de sepultamento e cremação, que levou a Funerária Armindo a “colocar o seu plano de contingência no nível máximo”.
Também Pedro Pereira, um dos sócios gerentes da Funerária Costa, sediada em Setúbal, nunca viu um cenário como o de Janeiro passado, “em 38 anos de profissão”.

“São mais de 250 óbitos registados na Conservatória do Registo Civil de Setúbal”, afirma. “E duas semanas de espera para as famílias realizarem os funerais”.
No dia 24 de Janeiro, a Funerária Costa já estava a marcar cremações para “5 de Fevereiro”.

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À semelhança do sócio gerente da Funerária Costa, Alda Parrulas, proprietária da Funerária Sado, afirma que o número de óbitos irá “muito além dos 250” e “75% dos funerais realizados são de casos Covid-19”.

No dia 18 de Janeiro, Alda Parrulas começou a marcar cremações para 1 de Fevereiro e “tudo poderia ser pior se o crematório da Quinta do Conde não estivesse a funcionar em conjunto com o crematório de Setúbal”.

Quando vê os contentores nos hospitais, a acolher corpos, o seu sentimento é de “algo muito desumano”, mas reconhece que “é a única solução possível”, num momento em que as funerárias não conseguem realizar todos os funerais em tempo aceitável.
Actualmente, nem mesmo as indicações da Direcção-Geral da Saúde (DGS) podem ser cumpridas na integra.

“No ano passado foi publicada a directiva que aconselhava a cremação, em casos de morte por Covid-19”. Mas, com os actuais tempos de espera, “as famílias só querem dar um funeral condigno aos seus familiares o mais rápido possível”. Por isso, quando lhes é dado a escolher “dizem para avançarmos com o que estiver a ser mais célere”, recorda Alda Parrulas.

Faltam estudos sobre os riscos da Covid na saúde pública

Por conhecer esta realidade e saber que mesmo os contentores colocados nos hospitais do Barreiro e Setúbal não estão a ser suficientes para responder ao número de mortes, o administrador da Armindo considera que as funerárias devem assumir um papel mais activo, “agora e no futuro”.

Em dia de entrevista a O SETUBALENSE, Pedro Conceição tinha reunião marcada com uma empresa “para avaliar as possibilidades de contratar maior capacidade de frio”. Acredita que a gestão do futuro deve passar por “uma maior partilha de responsabilidades entre as morgues hospitalares e as funerárias”.

Caso contrário, quando surgir uma nova pandemia, “que teremos com toda a certeza”, enfrentaremos os mesmos problemas.

E questionado sobre o facto de as funerárias poderem, ou não, receber pessoas cuja causa de morte seja Covid-19, Pedro Conceição confirma que “já o fazem”, quando os óbitos não ocorrem em ambiente hospitalar.

Os profissionais das agências “têm todos os equipamentos individuais de protecção necessários e seguem os procedimentos”. Agora para alargar esta actuação no futuro “são necessários estudos conclusivos sobre o comportamento deste coronavírus nos corpos após a morte e o índice de perigosidade de contágio”.

Da mesma forna que “ainda é inconclusivo se a cremação deve ser priorizada nestes casos, em detrimento do sepultamento”.

Por essa razão já há câmaras que fazem gestão de espaços em cemitério com essa perspectiva. É o caso do Barreiro, que tem uma área definida para o sepultamento de pessoas cuja causa de morte foi Covid-19. “Ali não serão feitas exumações até que existam estudos conclusivos sobre os riscos para saúde pública”.

“Esta pandemia veio recordar que precisamos gerir melhor os cemitérios”

É sobre a gestão dos cemitérios e a forma como cultuamos a morte que Carlos Almeida, presidente da Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL) questiona: “estaremos a agir correctamente nas concessões perpétuas de sepulturas, gavetões e ossários?”. E afirma que “esta pandemia veio recordar a necessidade de gerirmos melhor os nossos cemitérios”.

Actualmente, 80% são responsabilidade das juntas de freguesia e muitos deles não têm sequer coveiro próprio.

Recursos escassos para enfrentar meses atípicos como Janeiro, “com cerca de 290 óbitos Covid diários por dia, em todo o país, mais os 400 não-Covid, que já se registavam habitualmente, com outras causas”. O que representa um grande esforço no momento final do percurso fúnebre.

“Temos todos os recursos necessários para enfrentar esta crise. São 1300 agências em todo o país. Três mil carros. Urnas produzidas num modelo standard, que nos permite ter acesso a maior quantidade. E não faltam equipamentos de protecção individual, depois dos problemas que se registaram no início da pandemia”.

O problema actual é mesmo “a última peça deste puzzle”. Os sepultamentos e cremações, que o país não está preparado para gerir, perante um cenário destes.

Num país que tem cemitérios desde 1830 e milhares de sepulturas com dezenas de anos abandonadas, Carlos Almeida diz que “não podemos continuar a parcelar cemitérios com concessões perpétuas”. Esta gestão dá origem a sepulturas, gavetões, jazigos e ossários que não podem ser removidos. “E se continuarmos a gerir recursos deste modo teremos a nossa capacidade sempre no limite e não conseguiremos encontrar cultos fúnebres adaptados à realidade actual”.

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