Apresentação de ‘O Ritual do Poder: A festa, o mito e a ilusão nos comícios políticos’, de Nuno da Silva Jorge, refletiu sobre o comício enquanto instituição política e as diferenças de hoje para os anos 70 e 80
A apresentação do livro ‘O Ritual do Poder: A festa, o mito e a ilusão nos comícios políticos’ foi em Lisboa – quinta-feira, na Almedina do Atrium Saldanha – mas não faltou ligação a Setúbal, quer por o autor, Nuno da Silva Jorge, ser consultor de Comunicação da Câmara Municipal de Setúbal e ter sido responsável pela Comunicação da candidatura do movimento Setúbal de Volta, mas, sobretudo, porque o convidado para dissertar sobre a obra foi o comentador Miguel Morgado, que é natural de Setúbal e fez questão de contar algumas passagens da experiência politica que viveu na infância, pela mão do pai.

O livro, como o apresentou Miguel Morgado, que o leu “quase de uma assentada” e o considera “magnifico”, coloca o comício, “como uma verdadeira instituição, no centro da relação entre o povo e a democracia”. Na introdução, Nuno da Silva Jorge diz que “se no final desta leitura olharmos para o próximo comício e, em vez de vermos apenas bandeiras e militantes, conseguirmos ver as engrenagens invisíveis da manipulação e da experiência política, então este livro cumpriu a sua missão”.
O autor entra nos bastidores do comício dos dias de hoje, numa análise carregada de filosofia política e psicologia das multidões.
Perante uma sala com muitas dezenas de pessoas, muitas delas de pé, Miguel Morgado começou por apontar algumas dificuldades da democracia, tanto originais, como a representação, que é uma “grande mentira” em que temos de acreditar sob pena de o regime não subsistir, como actuais, como a desmobilização decorrente da maturação que, no caso português, “despolitizou a sociedade”. “Nós agora [só] acordamos para as questões políticas em momentos muito excepcionais”, atirou o comentador.

Miguel Morgado recordou que os comícios dos anos 70 e 80 juntavam muitas vezes centenas de milhares de pessoas – como o da campanha de Freitas do Amaral, na segunda volta das Eleições Presidenciais de 1986, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, a que assistiu com o pai, Délio Morgado, figura conhecida em Setúbal pelo estabelecimento clínico que manteve durante décadas na cidade – e argumentou que, nessa altura, havia uma polarização política maior.
“As pessoas falam em polarização hoje. A sério? Não viveram em Setubal no final dos anos 70, princípio dos anos 80. A polarização era bem maior naquela altura e as pessoas davam pancada umas nas outras, na rua, por causa da política. Como podemos falar em polarização quando houve este fenómeno tão grave da despolitização da nossa democracia?”, questiona.
“Quando era miúdo ouvia as pessoas a dizerem porque é que iam aos comícios: comunistas, porque havia muitos em Setúbal, agora já não há, gente do PSD, o partido com o qual o meu pai mais se identificava embora não fosse militante, PS, claro, e, até, um médico, que havia lá em Setúbal, que era do CDS.”, recorda.
Na resposta à questão de saber se a maturidade democrática levou à desmobilização das pessoas, através da despolitização social, reduzindo os comícios, Nuno Silva Jorge defendeu que se trata de diferenças de necessidade. “As pessoas, numa fase inicial da democracia, ainda não sabiam bem a que tribo é que pertenciam, ainda estavam à descoberta, havia uma necessidade distinta da que existe agora na democracia já consolidada”, sintetizou Nuno Jorge.
Numa outra questão colocada ao autor, Miguel Morgado sublinhou que, no retrato que o livro faz do comício, há uma “ausência de fronteira clara entre o partido que emerge numa sociedade democrática – os partidos que nós conhecemos em Portugal, os clássicos PS e PSD e os outros partidos mais recentes que apareceram – e o partido totalitário”. Nuno da Silva Jorge reconhece que “a experiência do comício em si é muito semelhante”, mas acrescenta que “há uma diferença que distingue a democracia dos regimes totalitários: é que no dia a seguir ao comício o adversário passa a ser tolerado”.
