Ver bem, ou julgar que vê bem não significa que tenha olhos saudáveis
Dia 12 de março assinala-se o Dia Mundial do Glaucoma, a doença ocular silenciosa que, por ser pouco conhecida, é tantas vezes diagnosticada tardiamente.
Convidámos o Dr. Paulo Matos, médico oftalmologista do COS – Centro Oftalmológico do Sul, que se tem dedicado ao tratamento desta patologia, para nos ajudar a compreender melhor o que é o glaucoma.
Começamos por lhe colocar exactamente esta questão.
O que é o glaucoma?
Dr. Paulo Matos – O glaucoma é uma doença ocular multifactorial (com diferentes causas) que danifica o nervo óptico, originando perda progressiva ou súbita da visão. No contexto actual da medicina, estes danos são permanentes e não recuperáveis.
Mas então o que é o nervo óptico?
O nervo óptico é um “cabo condutor” que transporta a imagem captada pelo olho, na retina, até ao cérebro. Com o envelhecimento, o nervo óptico vai perdendo naturalmente as suas fibras nervosas (são cerca de 1.2 milhões à nascença). O glaucoma acelera esta perda.
E qual é a frequência desta doença?
Na nossa consulta de glaucoma hospitalar percebemos a dimensão deste problema pelo número de novos casos que nos procuram, muitos dos quais carecem de intervenção cirúrgica urgente.
Estima-se que acima dos 40 anos de idade, 2% da população poderá ter glaucoma, ultrapassando os 5% nos indivíduos com mais de 80 anos.
O glaucoma constitui a principal causa de cegueira irreversível no mundo e em Portugal cerca de 200.000 pessoas terão hipertensão ocular (principal factor de risco desta doença), estimando-se que um terço destas já tenham glaucoma. Destes pacientes, metade não está diagnosticada e caminha lentamente para a cegueira sem se aperceber.
Falou em pressão ocular e glaucoma. Ter a pressão ocular elevada é sinónimo de glaucoma?
Não, nem todas as pessoas com tensão ocular elevada têm ou vão desenvolver glaucoma.
Pode haver glaucoma com uma tensão ocular normal, ou seja, inferior a 22 mmHg?
Sim. É o glaucoma de pressão normal ou normotensional (GNT).
Como é que surge o glaucoma?
O glaucoma surge quando as fibras do nervo óptico sofrem um processo de morte acelerada. A parte anterior do olho está preenchida por um líquido, o humor aquoso. Quando há dificuldade na sua drenagem (que se faz através de um conjunto de pequenos canais no ângulo irido-corneano) a pressão ocular sobe, condicionando um menor aporte de nutrientes e oxigénio às fibras do nervo óptico. Quando estas fibras entram em sofrimento, se a pressão não for aliviada, acabam por morrer.
Há mais que um tipo de glaucoma?
No adulto existem essencialmente duas formas de glaucoma: o glaucoma de ângulo aberto e o glaucoma de ângulo fechado. Os pacientes com esta doença devem ter esta informação, pois há uma série de medicamentos para patologias não oftalmológicas que exigem especial atenção quando administrados num e noutro tipo de glaucoma. O diagnóstico de glaucoma congénito é urgente e bebés com olhos muito grandes, córneas turvas e que esfregam constantemente os olhos devem ser remetidos de imediato ao oftalmologista. Outra forma de glaucoma, o glaucoma juvenil, aparece entre os 4 e os 35 anos de idade.
Como posso saber se tenho hipertensão ocular? Como se detecta o glaucoma?
Quando são os pacientes a detectar esta doença, ela já estará muito avançada. Na maior parte dos casos, o glaucoma não provoca dor e a perda de visão ocorre caracteristicamente da periferia do campo visual para o centro, sendo muitas vezes compensada por mecanismos cerebrais de preenchimento da parte da imagem que falta.
A maior parte das ópticas têm equipamentos para medição da tensão ocular e referenciam os clientes para consultas de oftalmologia quando a tensão ocular está elevada. No entanto, o diagnóstico definitivo de glaucoma exige a realização de exames complementares (perimetria, tomografia de coerência óptica, entre outros) e a sua avaliação por um médico oftalmologista, de forma a definir o tratamento mais adequado para cada caso. A hipertensão ocular poderá ser tratada nos casos em que a evolução para glaucoma é mais provável, como em pessoas mais novas, tensão ocular mais elevada, familiares do primeiro grau com a doença, míopes e ascendência africana. Há algumas doenças sistémicas, como por exemplo a diabetes, que também são factor de risco para o aparecimento de glaucoma.
O glaucoma de ângulo fechado é muitas vezes uma doença assintomática (glaucoma crónico de ângulo fechado), mas quando o ângulo irido-corneano encerra subitamente (encerramento agudo do ângulo) pode causar dores muito intensas, oculares e na cabeça (cefaleias), olho vermelho e visão turva com halos corados, acompanhados de náuseas e vómitos. Nestes casos, o paciente deve ser encaminhado sem demoras para uma urgência de oftalmologia, pois o risco de perda de visão é muito elevado quando há atrasos no diagnóstico.
O glaucoma pode ser curado?
Não pode, mas tem tratamento, que consiste em reduzir a tensão ocular (com colírios, LASER ou cirurgia), sendo esta a única forma de atrasar ou parar a progressão da doença.
Os doentes com glaucoma podem ser operados a catarata?
Sim e, em certas situações, a cirurgia de catarata até ajuda a controlar a tensão ocular.
E a cirurgia de glaucoma baixa definitivamente a tensão ocular?
Nem sempre. Com alguma frequência os pacientes têm que voltar a colocar colírios e alguns terão de ser reoperados para se manter a tensão considerada segura para parar a progressão da doença (tensão alvo).
Perante a necessidade do diagnóstico precoce e tratamento desta doença, quais as recomendações que faria aos nossos leitores?
Ver bem (ou julgar que vê bem) não significa que tenha olhos saudáveis. Sendo assim, deve consultar um oftalmologista antes dos 40 anos e depois desta idade de 2 em 2 anos. Caso haja necessidade de encurtar o tempo entre as visitas, esta indicação ser-lhe-á transmitida pelo especialista.
Paulo Matos
Médico oftalmologista