13 Junho 2024, Quinta-feira

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28 de Maio de 1926: O golpe militar que podia ter partido de Setúbal

28 de Maio de 1926: O golpe militar que podia ter partido de Setúbal

28 de Maio de 1926: O golpe militar que podia ter partido de Setúbal

Passam quase 100 anos sobre o golpe de 28 de Maio de 1926, que instaurou a ditadura militar

 

Nesta data iniciar-se-á uma mudança profunda na História de Portugal, responsável por um ciclo de quase 50 anos de uma governação inspirada nos valores do fascismo em ascensão na Europa. Como sabemos, este ciclo só terminará em 25 de Abril de 1974.

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O general Gomes da Costa capitaneará as tropas insurrectas que partem de Braga à conquista da capital. Este protagonismo da cidade dos arcebispos levará, mais tarde, Salazar a outorgar-lhe o título de “Cidade Santa da Revolução”.

O que tem ficado quase no esquecimento é que a cidade de Setúbal terá sido inicialmente escolhida para daqui partir a conjura contra o Governo Republicano. Se olharmos para a “fita” tempo, verificamos que em 18 de Abril de 1925 ocorre uma revolta militar contra as instituições da Primeira República.

Este movimento insurrecional fracassado é considerado como o primeiro ensaio do golpe de 28 de Maio. São presos dezenas de oficiais implicados na conjura militar. A prisão não lhes tolherá o passo. Ainda que presos começam desde logo a preparar nova conspiração.

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Na verdade, serão alguns destes conspiradores, detidos no Forte de Elvas que, no desenho do novo plano de operações, apontam Setúbal para o eclodir do novo golpe militar.

Recorremos ao relato do jornalista setubalense Óscar Paxeco, conhecido pelas suas ideias nacionalistas e conservadoras, que descreve as circunstâncias em que Setúbal teria estado envolvida na preparação da “Revolução Nacional” de 28 de Maio: “Falhado que foi o Movimento de 18 de Abril, resolveram os Chefes presos em Elvas ser necessário iniciar a preparação daquela Revolução que levada a cabo pelo Exército realizasse, finalmente, os fins tidos em vista pelos homens daquela Revolução.

Entre os que mais entusiasmados resolveram meter ombros à patriótica tarefa contavam-se os oficiais de Sapadores dos Caminhos de Ferro, a unidade que, sob o comando de Raul Esteves, tão alto papel tivera no 18 de Abril.

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De Sapadores de Caminhos-de-ferro havia três grupos na província: Setúbal, Santo Tirso e Entroncamento. O Grupo de Setúbal instalado em S. Francisco tinha como comandante o Capitão Nunes Correia, e entre os seus poucos oficiais o tenente de artilharia Mário de Travassos Arnedo, que logo se tornou um dos mais activos conspiradores.

Feitas as sondagens às várias guarnições do País houve um momento em que o panorama era este: todos sairiam, mas a secundar um primeiro que «arrancasse». Foi então que o tenente Travassos Arnedo de acordo com o capitão Nunes Correia comandante do grupo de SFC [Sapadores de Caminhos de Ferro] de Setúbal e com a adesão do então capitão Ricardo Durão, em serviço em Brancannes, e de parte da oficialidade de Infantaria 11 resolveu que sob a direcção dos chefes do 18 de Abril presos no Forte da Graça, de Elvas, o Movimento do Exército eclodisse em Setúbal. […]

Os trabalhos preparatórios da Revolução passaram pois a fazer-se tendo como base a sua eclosão em Setúbal sob o comando do glorioso soldado que acabaria por «arrancar» em Braga [Gomes da Costa]. Conseguida a adesão em massa do sul do País, desde Setúbal ao Algarve, chegou a marcar-se o dia para o levantamento militar.

Nesta data e a fim de acautelar a necessária manutenção das tropas, em marcha para Vendas Novas, o tenente Arnedo chegou a requisitar para o seu quartel o pão a triplicar.

E fez-se assim porque, conforme o plano previamente estabelecido, os Caminhos de Ferro de Setúbal soltariam o grito de revolta logo secundados pelos do Entroncamento e Santo Tirso, ao mesmo tempo que em Lisboa os oficiais presos por causa do 18 de Abril seriam libertados e com os regimentos que haviam tomado parte naquele Movimento iriam para o forte da Ameixoeira o qual sob o comando do coronel Graça se revoltaria, também, a fim de entreter as tropas da guarnição de Lisboa que porventura resolvessem combater a Revolução, enquanto em Vendas Novas se faria a grande concentração dos efectivos revoltados.

Gomes da Costa, que nesta altura já devia encontrar-se em Setúbal marcharia então com a guarnição desta cidade para V. Novas, onde assumiria o comando das tropas de Évora, Estremoz, Elvas, etc. já ali concentradas.

[…] Circunstâncias surgidas à última hora, entre as quais têm relevo o desligamento da EPA de Vendas Novas e do coronel Graça, comandante da Ameixoeira, fizeram com que a eclosão do Movimento tivesse de ser adiada e quando retomada a organização conspiradora esta já não tivesse como base Setúbal e houvesse que se optar, no último momento quase, pela solução de Braga”.

O tom apaixonado do relato de Óscar Paxeco não deixa dúvidas do seu apoio à causa nacionalista. Exalta e glorifica o papel de Setúbal nesta conjuntura, que, no seu entendimento, inaugurava uma nova era na História do País: “E honra para a nossa Terra não pode deixar de ser o facto de numa hora em que faltavam, pode dizer-se que totalmente, os que quisessem tomar a responsabilidade da «arrancada», Setúbal a tal se prontificasse, dispondo-se num risco que por patriotismo sofria, a ser o berço duma nova e magnífica etapa da história-pátria, tal qual tem sido a Revolução Nacional”.

É certamente exagerado considerar a disponibilidade da cidade no seu todo a embarcar na aventura golpista. Por esses anos, Setúbal seria uma cidade mais preocupada em gerir a fome e a miséria do que a protagonizar devaneios conspirativos.

O que pode ser garantido é que alguns militares radicados em Setúbal estiveram profundamente comprometidos com a conspiração nacionalista. No dia seguinte à “arrancada” de Braga, e antes dos insurrectos chegarem a Lisboa, a guarnição militar de Setúbal, após uma reunião do conselho de oficiais, decide aderir ao movimento revolucionário.

A esmagadora maioria dos oficiais assina um documento em que declara “Sob nossa palavra de honra que nos encontramos desde este momento ao lado do movimento que se está desenvolvendo no País, convencidos de que tal movimento é genuinamente militar, não político e retintamente republicano, e tem por fim a moralização dos costumes e o engrandecimento da Pátria e República”.

Nesse mesmo dia, os militares do Regimento de Infantaria 11 ocupam as instalações do Administrador do Concelho. Destituem o Administrador Afonso Teixeira de Macedo e Castro, nomeando para o seu lugar um tenente do Regimento. Assim se iniciava um novo e longo ciclo da história da cidade e do país.

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