29 Junho 2022, Quarta-feira
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Pedras contra Salazar: Jovens setubalenses saem à rua num dia assim…

Amanhã farão 60 anos sobre o dia em que centenas de jovens, desafiando a repressão, saem à rua, e munidos de paus e pedras vão afrontar e enfrentar a polícia e o regime

 

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Este início da década de sessenta vai revelar-se penoso para o ditador. Em Fevereiro de 61 rebentara a guerra das colónias. As palavras de Salazar ficarão gravadas na acústica política daqueles anos e ecoarão nos quatro cantos do regime: “Para Angola, rapidamente e em força” a que se juntava o “orgulhosamente sós”.

O fatídico ano de 61 acabará com a invasão de Goa a 19 de Dezembro e com o golpe de Beja a 31 do mesmo mês. A ditadura vivia momentos conturbados. Tinha ainda a memória recente do que havia sido o primeiro de Maio de 1961, uma verdadeira explosão anti regime, pelo que estava vigilante neste Maio de 62.

E com razão. E sobretudo em Setúbal, essa cidade mal-amada pelo Estado Novo. Tinha havido múltiplas distribuições de panfletos nas mais importantes fábricas da cidade e também em outros espaços da convivialidade operária; era ainda possível apanhar alguns destes panfletos em vários outros pontos da cidade, incluindo o centro histórico.

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O SETUBALENSE em primeira página alertava: “Preparam-se para o dia 1º de Maio, manifestações subversivas contra as quais o governo anuncia tomar providências”. O PCP e as Juntas Nacionais Patrióticas estavam, de facto, a organizar várias iniciativas de mobilização contra o regime nas áreas urbanas de Lisboa e Setúbal e também no Alentejo.

Apesar de todas as expectativas durante o dia 1.º de Maio não ocorreram, em Setúbal, as manifestações ou concentrações anunciadas. A forte presença policial nas ruas pode ter dissuadido qualquer acção. Não se contava, por isso, que o que não sucedeu no dia 1 viesse a verificar-se no dia 28.

Dia 28 de Maio de 1962

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Os manifestantes começaram por concentrar-se na Praça de Bocage por volta das 19 horas, depois da saída das fábricas e das oficinas. Vão ouvir-se as primeiras palavras de ordem contra o regime: “Liberdade” e “Fora Salazar”.

As primeiras escaramuças com a polícia, que se vê impotente para deter os manifestantes, começam a acontecer. Num segundo momento, a manifestação sai em desfile e dirige-se para a Avenida Luísa Todi, concentrando-se em frente da Caixa Geral de Depósitos.

Para além de palavras de ordem gritadas contra o governo, a multidão começa a apedrejar o edifício. Só depois chegará a PSP com reforços, dando lugar a novos confrontos, nos quais foi igualmente apedrejada e apupada. Não é possível determinar o número de manifestantes.

Mais do que um polícia nos seus depoimentos refere-se à “multidão” que se concentrou em frente à CGD. O Avante! assegura que “milhares de pessoas durante várias horas conquistaram as ruas da cidade”.

O carácter massivo do ajuntamento é-nos dado também por um dos chefes da polícia, José da Silva, que tinha sido destacado para a Praça de Bocage “para dispersar o ajuntamento de indivíduos que ali se encontravam para se manifestarem contra as Instituições Vigentes [sic]”.

O mesmo polícia afirma que como estavam vários grupos na Praça, optou por verificar quem estaria a dar ordens e instruções aos manifestantes: “Cerca das dezanove horas e trinta minutos notou que dois indivíduos, que depois soube chamarem-se Carlos Lucas Napier e Rogério Filipe dos Santos Silva, tinham em volta de si muitos indivíduos aos quais pareciam dar ordens, pelo que ordenou ao subchefe Figueiras a sua detenção”.

Por sua vez, através do testemunho prestado pelo comandante da PSP de Setúbal, Francisco António da Costa, no processo instaurado pela PIDE, podemos perceber que a polícia foi incapaz de durante a fase inicial do protesto prender qualquer manifestante, face à multidão que se concentrou em frente da CGD: Das “capturas efectuadas nesse dia nenhuma foi em flagrante delito, mas sim, por motivo da acção envolvente das forças da ordem, quando agiram em locais onde sabiam que se encontravam grupos”.

O testemunho prossegue, declarando-se que posteriormente, ainda junto à CGD, se terá conseguido prender Saul dos Santos, trabalhador do Hospital de São Bernardo, e mais quatro ou cinco manifestantes, por serem os que mais se destacavam nos apupos à polícia quando esta chegou.

Estas prisões terão motivado não só o aumento daqueles apupos – “Fora a polícia”, «Malandros», «Bandidos» – como também de novo arremesso de pedras. A carga policial seguinte causará a dispersão da multidão.

Por pouco tempo, porém. Após a debandada, os manifestantes, munidos de paus, irão concentrar-se em grupos mais pequenos em diversos locais do centro histórico, preparando-se para novos enfrentamentos com a polícia. Nesses recontros foram feitas dezenas de prisões.

Todos estes episódios ocorrerão entre as 19 e as 20 horas e trinta minutos do dia 28 de Maio. Contudo, quando as forças policiais julgavam ter a situação controlada, serão alertadas pelo comandante do Quartel do 11 para o facto de grupos de indivíduos apedrejarem a parte poente das janelas do quartel e estarem a apedrejar igualmente os candeeiros de iluminação pública da cidade.

Este novo incidente inicia-se por volta das vinte e três horas. A chegada da força policial será novamente recebida com apupos e palavras de ordem contra a polícia, enquanto os manifestantes fugiam em direcção às Fontainhas, refugiando-se em várias embarcações da Doca do Comércio.

A polícia cercará a doca de pesca não tendo grandes dificuldades em encontrá-los. Outro grupo tinha-se dirigido para o centro histórico da cidade onde tenta resistir à investida da polícia junto à Rua João do Galo, sendo, no entanto, obrigado a fugir, aí havendo, de igual modo, algumas prisões.

Ainda que não se possa aquilatar o número de participantes nesta fase do motim, a resistência à força policial indicia que o número de manifestantes seria ainda significativo.

Muita gente conseguiu fugir, como admite o próprio chefe da polícia, que não esconde a sua frustração: “Dado o burburinho que se estabeleceu, tornou-se difícil identificar quem quer que fosse, pois que a maioria dos que insultavam a polícia com impropérios vários tais como «Malandros», «Bandidos», «Vão trabalhar», conseguiram fugir sem serem identificados, nem sequer referenciados, por serem, segundo dizem, moradores nos bairros circunvizinhos”.

Apesar de nos dias anteriores ao 28 de Maio ter havido panfletos e pichagens a convocar a população, as forças policiais haviam pensado que tudo não passava de propaganda e aparentemente terão sido apanhadas desprevenidas.

A resistência, o atrevimento e a radicalidade dos confrontos terão configurado uma verdadeira surpresa. É o próprio chefe da polícia que confessa que para proceder às detenções foi “necessário travar luta de corpo a corpo”.

Refere ainda os edifícios que terão sido alvo da acção desse dia: edifícios da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência e da Fundação Nacional para a Alegria do Trabalho”. A PSP de Setúbal fará dezenas de prisões.

O Avante! refere-se a “70 manifestantes presos”. Após um primeiro interrogatório, 31 dos detidos serão enviados para PIDE no dia 29 de Maio. Nos primeiros dias de Junho serão ainda presos, e enviados para a polícia política, Eduardo Magno Figueiredo e Armando Luís Belém, acusados de serem dois dos mais importantes instigadores da rebelião.

Apesar do relatório da PIDE fazer referência à existência de mulheres entre os que se manifestaram durante a tarde, todos os detidos serão do sexo masculino. Estes acontecimentos não terão integrado uma mera manifestação em que se gritavam algumas palavras de ordem e depois se fugia.

O que se passou foi uma acção de uma combatividade até aí desconhecida. O arremesso de pedras contra edifícios e a luta corpo a corpo com a polícia são factos que denotam uma dureza e vontade de resistência, a que o regime não estava habituado. Estávamos em plena ditadura. Qualquer acção contra o governo podia significar prisão e tortura.

E, no entanto, durante praticamente quatro horas, centenas de pessoas, na sua maioria jovens trabalhadores, tomam conta da cidade, uma cidade marcada e alvo de especial repressão, ostentando de forma violenta a sua oposição a Salazar, ao regime e às condições em que viviam.

Amanhã perfazer-se-ão sessenta anos sobre este motim, mantido até agora no esquecimento. A memória deste dia deve, contudo, ser preservada. Porque sem memória não há futuro.

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