17 Maio 2022, Terça-feira
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Bocage: uma história agora contada com primor

I

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Pelo que me lembro, na minha chamada memória recorrente desde priscas eras de atiçado buscador e ledor voraz, Bocage era e ficava entre um Pedro Malasartes (figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, tido como burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes, de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos) e um Casanova (Giacomo Girolamo Casanova, escritor e aventureiro italiano, tendo interrompido as carreiras profissionais que iniciou — a militar e a eclesiástica — e que passou a levar uma vida aventurada), em terras de Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa, muito antes ainda de José Saramago, portanto.

Tinha-o como um boémio aprontador em terras lusas de Cabral e de Pero Vaz Caminha. Lendo agora Bocage, o perfil perdido, que virou clássico da obra-pesquisa-documentário do mestre e doutor Adelto Gonçalves, depois de levar tempo para lê-lo, tal o peso do livraço e a densidade do historial enquanto pesquisa e documentário também, posso dizer que tive uma universidade de mais de ano inteiro sobre o poeta.

Afinal, um curso e tanto, um livro precioso, com aulas magnas desse que já é escritor esmerado de tantos outros portentosos livros, que tive o prazer de ler, curtir e gostar, e até me mesmo fazer aqui e ali breves resenhas.

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Mas com Bocage, sinceramente, tenho medo de me perder. Bocage, uma lenda, um mito, muito além de um Pedro Malasartes (como eu imaginava que era) e muito além de um Casanova que também aludi que fosse.

O livro Bocage: o perfil perdido, com qualidade historial, destrincha o mito de fio a pavio, e você lendo o projecto exuberante de livro acaba se sentido um, por assim dizer, formado, diplomado e finalmente inteirado e expert em Bocage.

Já pensou? Num apanhado imediato de querer saber quem foi Bocage, está lá o apanhado, curto e grosso: Bocage, poeta português, nasceu em 1765 e faleceu em 1805. Além de escritor e boémio, foi militar e tradutor. Suas obras apresentam marcas árcades e românticas.

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O poeta é bastante lembrado por seus poemas satíricos e de cunho anedótico. Ah, mas a figura lendária do literato e poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage é a do maior representante do arcadismo lusitano.

Ou, ainda, Bocage foi um poeta de transição entre o arcadismo — seu pseudónimo árcade era Elmano Sadino — e o romantismo. Seus textos apresentavam características de ambas as estéticas, além de peculiaridades, como amor idealizado, sofrimento existencial.

Ele era um poeta cheio de lirismo, erotismo, individualismo e sátiras, com uma linguagem neoclássica, ou seja, clara, abreviada, correcta e pomposa. Os temas mais explorados eram bucólicos, pastoris e da mitologia clássica.

II

Bocage: o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, vai fundo na pesquisa, na história, desde meados de 1711 até muito além da morte desse personagem crucial e criador de arte literária de primeira qualidade para a época em terras lusas, entre viagens, contações, registros, altos e baixos, melindres e concessões, fugas e deserções, naus e glórias, implicações e afectos, sangrias desatadas, polvorosas e amizades e conflitos.

Cantava a vida como o cisne canta a morte, disse ele. Quando escrevia, era um fugir-se como quem afiava a pena feito espada, no gume de seu contemplar, sentir, ferir-se de existir, desacomodado da vida, da sociedade, de qualquer razão pura que tivesse para viver, pior, sobreviver, literalmente às duras penas, como se sempre fugindo nos versos, nos avessos e absurtos diversos das estrofes, deles se criando, desse seu tear lírico se alimentando, se provendo; criar para fugir da ilha de ser-se ou de se ser?

Ah, o mito, a lenda, as vazantes criativas. O livro Bocage, o perfil perdido passa limpo uma vida de quem garimpou com bateia de poemas ora sofridos, ora datados, ora esculachando, criando inimigos e rancores, resmas de rimas, sentimentos revisitados, a cara e a coragem (e a ousadia) de ser ele mesmo, com seus íntimos mares navegando fastios e buscas, bandeiras e naus tenebrosas de seu tempo aqui e ali cruel com o poeta.

A obra destrincha, revela, tira véus, relata paulatinamente e tintim por tintim, um historial de vida, percalços, artes e vertedores, motivos e purgações, irrazões e deszelos…

Eis o homem, eis o poeta Bocage, muito além de si mesmo, muito além de seu tempo, firmado no macadame da história agora contada com primor.

III

Escrevendo, ele desafiava seus limites, entre distanciamento e aproximação. Escrever era sua chama. O insurgente lado crítico de Bocage, às vezes, o arrebatava. E criava polémicas datadas.

E a polémica era seu mote, seu fluxo existencial. Escreviver-se. Às vezes, a vida lhe dava meios do que buscava. E veios de criações alteradas. E ele então se vertia todo, às vezes irónico, mordaz, ferino, polémico.

Há caminhos e há solos de ausências em veredas e verdades. Os botequins de Lisboa eram a Arcádia de Bocage. Muitos confundiam a sua personalidade poética com o homem. Com seus vários versos também escritos pela mão do fingimento e cantados pela voz da dependência. Traduções. Elogios dramáticos. Improvisos de poeta agonizante, depois.

Lida poética insana. Tropel de paixões. Mente aguçada, brilhante. Discursos, historietas. Génio satírico, vida dissoluta, pendor para composições obscenas. Pavorosa ilusão da eternidade. Um artista contraditório que construiu ao longo de sua produção poética. Isso, entre tantas informações depuradas, é o que se depreende do livro.

Biografia rigorosamente pesquisada, regiamente documentada. Apresenta uma árvore genealógica do poeta enquanto mito e lenda, corrige erros históricos, relata contendas e a conseguinte grande produção poética de alto quilate. Um poeta muito além de seu tempo, muito além de sua morte.

Por essas e outras, Bocage escrevia muito e tanto, em tempos difíceis, para confirmar talvez o que nos disse Danúbio Torres Fierro: “Escrever é criar para si uma identidade”. Eis o livro, eis o homem, eis Bocage.

IV

Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana, e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP).

É autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros.

Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, R$ 85,00, 2021. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/

 

(*) Silas Corrêa Leite, escritor, professor e blogueiro premiado, é autor, entre outros, de Transpenumbra do Armagedom (São Paulo, Desconcertos Editora, 2021), Cavalos selvagens (Curitiba, Kotter Editorial; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2021), e A Coisa. Muito além do coração selvagem da vida (São Paulo, Editora Cajuína, 2021).
O autor foi vencedor do Primeiro Salão Nacional de Causos de Pescadores/USP/Jornal da Tarde/ Estadão/Parceiros do Tietê; premiado no Concurso Lygia Fagundes Telles para professor e escritor, governo do Estado de SP/ Gestão Gabriel Chalita/Secretaria Estadual de Educação; Prêmio Biblioteca Mário de Andrade (Poesia Sobre São Paulo), Gestão Marilena Chauí (Secretaria de Cultura de SP), Prêmio Fundação Petrobrás de Contos, curadoria Heloisa Buarque de Holanda; prêmio Simetria (Microconto) e Prêmio Instituto Piaget (Cancioneiro infanto-juvenil), ambos em Portugal). Site: www.poetasilascorrealeite. com.br – E-mail: [email protected]

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