16 Maio 2022, Segunda-feira
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Acção conjunta remove cabo de amarração para salvaguardar pradaria marinha de Soltróia

Primeira campanha de restauro activo da pradaria arranca dia 29

 

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Um cabo com cerca de 200 metros que servia de base a um ancoradouro para embarcações de recreio foi removido de Soltróia, no estuário do Sado, para salvaguardar a pradaria marinha existente.

Aquela que é, de acordo com a Ocean Alive, organização não governamental que se dedica à protecção das pradarias marinhas, “uma história de compromisso pelas pradarias”, resulta de uma acção conjunta da Ocean Alive com as entidades Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), Clube Naval Setubalense, Reserva Natural do Estuário do Sado e Capitania do Porto de Setúbal.

“A remoção do cabo, que envolveu trabalho prévio conjunto com as entidades competentes e acompanhamento científico para garantir a salvaguarda da pradaria e vida marinha, resulta do compromisso da Ocean Alive para que cabos, amarrações e âncoras deixem de ser um dos problemas que estão a destruir as pradarias marinhas do estuário”, explica Raquel Gaspar, bióloga marinha e co-fundadora da Ocean Alive.

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“A cada hora que passa há dois campos de futebol de pradarias que desaparecem do mar devido a problemas como este”, alerta. Em 2018, Raquel Gaspar candidatou-se a uma bolsa de exploradora da National Geographic com o objectivo de reunir uma equipa para investigar, debaixo de água, o impacto das amarrações para barcos na integridade da pradaria.

“No estuário do Sado, há um ancoradouro estabelecido na pradaria de Soltróia, mas não só, também noutras pradarias são largadas âncoras de embarcações”, informa.

200 metros de cabo, mais de 100 metros quadrados de impacto

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Com a investigação conjunta com o CCMAR – Centro de Ciências do Mar na Universidade do Algarve, em 2020 foi possível comprovar que o cabo e as respectivas poitas estavam a criar um problema à pradaria marinha, ao longo da extensão do cabo não crescia ou crescendo havia menos plantas e essas eram sempre mais curtas.

“Hoje sabemos que são cerca de 100 metros quadrados de impacto. O cabo, ao movimentar-se, desenraíza, ceifa as plantas, que deixam de se desenvolver à sua volta”, conta. “Como resultado, a pradaria perde a integridade. Quanto mais pequena e fragmentada for a pradaria menos resistência tem para enfrentar outras ameaças e pode acabar por desaparecer”, acrescenta.

A Ocean Alive chamou a vir ver o problema “o ministro do Mar, a APSS, entidade que tutela a gestão dos ancoradouros marinhos no estuário e o Clube Naval Setubalense, a quem a APSS concessionou o ancoradouro para exploração no Verão”.

Na altura, o ancoradouro de Soltróia era constituído por cinco cabos de amarração, o primeiro, mais próximo da praia, estendia-se ao longo da pradaria. As presidências das duas entidades comprometeram-se “desde logo a não utilizar mais o primeiro cabo e a encontrar uma solução para compensar a perda do rendimento do ancoradouro em prol da preservação da pradaria. A APSS e o Clube Naval Setubalense cumpriram o compromisso”.

Neste sentido, a APSS diz a O SETUBALENSE que, por pautar a sua actividade por princípios de sustentabilidade ambiental, “uma vez identificado um problema num cabo no ancoradouro de Soltróia, com possíveis efeitos nocivos sobre uma pradaria marinha, a APSS suspendeu a utilização da parcela do ancoradouro servida por aquele cabo e dispôs-se a encontrar uma solução que permitisse eliminar a situação identificada”.

No Verão de 2021, o ancoradouro da pradaria já não foi utilizado. A 9 de Fevereiro de 2022, o cabo foi removido numa acção conjunta que contou com voluntários de várias entidades e empresas.

A APSS explica ainda que “depois de ter revisto em conjunto com a Ocean Alive um plano de intervenção no local, a APSS contratou uma equipa de mergulhadores profissionais que interveio na remoção do cabo, disponibilizando também uma embarcação de apoio e respectivo pessoal operacional para colaborar na acção e nos mergulhos preparatórios” e considera “importante realçar esta convergência e trabalho integrado em conjunto com as associações do sector, a Reserva Natural do Estuário do Sado e a Capitania do Porto de Setúbal.

Trata-se de uma acção modelo que resolveu directamente um problema específico mas foi apenas mais um passo no interesse comum da defesa da sustentabilidade ambiental no Sado”.

Para além do Ministério do Mar, associaram-se a esta iniciativa a Agência Portuguesa do Ambiente, os municípios de Palmela, Setúbal e Grândola, a Associação de Municípios da Região de Setúbal, a União das Freguesias de Setúbal e as empresas marítimo turísticas Vertigem Azul e Ahoy Portugal Sesimbra, sem esquecer os centros de investigação do CCMAR, do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do ISPA – Instituto Universitário.

O Aquário Vasco da Gama e o Oceanário de Lisboa marcaram igualmente presença porque, nas palavras de Raquel Gaspar, “esta era uma oportunidade para dar ‘outra vida’ a algum dos seres marinhos.

Determinadas espécies que vivem agarradas ao cabo e não têm mobilidade, ao serem devolvidas ao mar, não teriam capacidade de crescer. Por exemplo, alguns dos espirógrafos que viviam no cabo fazem hoje parte da vida marinha de aquários didácticos”.

Por outro lado, “no dia de retirada do cabo, o primeiro mergulho teve como objectivo remover todos os cavalos-marinhos que viviam no cabo. Contámos 30, que devolvemos à pradaria assim que o cabo foi removido”.

Para a Ocean Alive, que completa este mês sete anos de vida, “é uma recompensa do nosso trabalho podermos contar com o envolvimento da comunidade. Fazemos por mostrar que vale a pena preservar as pradarias marinhas. Procuramos que quem trabalha no estuário ou pode decidir acerca dele venha conhecer este habitat e faça a sua parte. Todos juntos podemos ajudar a reflorestar o estuário de pradarias”.

No que diz respeito ao destino do cabo, será encaminhado para a GhostNetWork, organização sem fins lucrativos que promove a comunicação entre os vários intervenientes que procuram a protecção dos oceanos, sendo o foco principal as comunidades piscatórias e a consciencialização da problemática das redes de pesca fantasma para a biodiversidade marinha, e “procurará dar uma segunda vida ao cabo através dos seus parceiros, como artistas e empresas transformadoras de plástico, que utilizam lixo marinho”, conclui.

Estudantes do Instituto Politécnico de Setúbal e jovens voluntários da Ocean Alive, comunidade piscatória, mergulhadores profissionais e biólogos também fizeram parte da iniciativa, apoiada pela Atlantic Ferries, Auchan de Setúbal, Docinho de Mel do Faralhão, Boat Center Serviços e Actividades Náuticas e pelo senhor Mário, que ajudou no transporte.

Reflorestação marinha Restauro activo arranca no final do mês

Nos próximos dias 29, 30 e 31, está prevista a primeira campanha de restauro activo da pradaria, um projecto da Ocean Alive em parceria com investigadores do CCMAR, com o apoio financeiro da associação Viridia.

“Em terra, reflorestamos um terreno plantando árvores. No mar, reflorestar quer dizer, em primeiro lugar, tirar os problemas. Se o fizermos, a maior parte das vezes a resposta das plantas marinhas é crescer. É como se o mar estivesse cheio de sementes, tem muita força e resiliência e por isso, muitas vezes, quando lhe devolvemos as condições só isso basta para o mar voltar a ter abundância”, diz Raquel Gaspar.

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