27 Maio 2022, Sexta-feira
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Bocage e Camões, dois percursos de vida semelhantes

Bocage foi um admirador e leitor atento de Camões. A sua trajectória de vida assemelhou-se à do autor d´Os Lusíadas, poeta que foi sua referência maior e figura modelar, como se poderá depreender dos versos que se seguem:

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Camões, grande Camões, quão semelhante                                                                Acho teu fado ao meu, quando os cortejo!                                                                  Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,                                                                        Arrostar co’o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,                                                                        Da penúria cruel no horror me vejo,                                                                          Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,                                                            Também carpindo estou, saudoso Amante;

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura,                                                                                Meu fim demando ao Céu, pela certeza                                                                          De que só terei paz na sepultura.

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Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!                                                                          Se te imito nos transes da Ventura,                                                                            Não te imito nos dons da Natureza.

Bocage, Rimas, tomo I, 1791 (republicado nas edições de 1794 e 1800)

Como o prova este soneto, Camões pode ser considerado o alter-ego de Bocage. Porquê?

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Pelo paralelismo de vida existente entre os dois homens, plenamente reconhecido, assumido e interiorizado pelo vate setubalense: ambos foram poetas; ambos seguiram a carreira das armas; ambos foram infelizes nos amores; ambos suspiraram pela morte como forma de evasão de um quotidiano triste e esmagador; ambos foram bastante pobres, incompreendidos e marginalizados; ambos viajaram por paragens distantes e exóticas, conhecendo outras geografias e efectuando um périplo idêntico.

À semelhança de Camões, Bocage conhece realidades e destinos extra-europeus, mercê da sua carreira militar, que lhe trazem novas experiências e enriquecem a sua mundividência.

Em 1786, com apenas 20 anos, é nomeado guarda-marinha, embarcando em Lisboa rumo à Índia. Nesta viagem, à época longa e cheia de perigos, faz escala no Brasil (Rio de Janeiro) e na Ilha de Moçambique. Em finais de Outubro chega a Goa.

Nos inícios de 1789, por “méritos pessoais e serviços prestados”, é promovido a segundo-tenente de infantaria, sendo colocado na Praça de Damão, onde chegaria no dia 6 de Abril.

Apenas dois dias depois deserta, tendo passado por Surate (Índia) e, posteriormente, seguido para Cantão e Macau, território onde viveu durante algum tempo. Desta colónia portuguesa do Oriente embarcará para Lisboa, onde chega em 1790, cidade onde viverá até à data da sua morte (1805).

António Chitas                                                                                                                                                

Bocage entre nós

A presente evocação do poeta levada a efeito pela cidade seu berço, iniciada em Setembro de 2021, alguns dias antes (10/09/2021) do seu nascimento (15 de Setembro do distante ano de 1765) e a propósito da passagem do 150.º aniversário da inauguração do monumento em sua homenagem (21/12/1871) na principal praça de Setúbal, chega ao seu terminus com a abertura ao público, no mês de Março, da exposição documental sobre apontamentos da vida e obra de Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Durante cinco meses caminhámos ao lado do poeta. Ouvimos os aplausos aos seus versos de menino prodígio ainda na vetusta residência de família. O poeta desafiou Homens, Instituições e Deuses para viver sofregamente uma curta, mas por si desenhada, estada de 40 anos apenas.

Visitámos Bocage na cadeia do Limoeiro, para onde o atiraram os esbirros de uma monarquia decadente sob as ordens do intendente geral da polícia Diogo de Pina Manique.

Submetido a sofrimento físico e moral, desnutrido e exposto à intempérie e doença, submetido a “reeducação” pela Inquisição, teve nos amigos e “irmãos maçónicos” raros e férteis momentos de conforto e escrita; viria a falecer em Lisboa no inverno de 1805, deixando um extraordinário legado de vida em defesa da liberdade e uma extensa obra literária que o coloca entre os mais expressivos escritores da literatura neoclássica portuguesa em trânsito para o Romantismo.

Independentemente do pretexto, continuando a caminhar ao lado do poeta, teremos ainda, e no futuro, muito caminho por desvendar, conduzidos pela inteligência emocional e pelo lirismo poético.

Joaquina Soares                                                                                                             

A Oriente e a Ocidente: A pintura no tempo de Bocage, nas Ásias e nas Américas

Bocage viveu entre 1765 -1805 e a Europa passava por períodos de rápidas mudanças, em que os estilos artísticos associados ao pensamento evoluíam de um Rococó em declínio, a uma ascensão do movimento neoclássico, ultrapassados posteriormente pelo romantismo e pelo pensar germinado na revolução francesa.

Mas e o que se passava, o que se pintava no resto do mundo? Nomeadamente pelos locais mais a oriente e a ocidente do nosso pequeno canto europeu?

Bocage nas suas pequenas 7 vidas, passou por Rio de Janeiro, Damão e Macau.

Ora o périplo bocagiano aconselha uma abordagem aos estilos e à maneira de pensar dos principais pintores e formas de representar nos “orientes e ocidentes”, mais especificamente no Japão, na Índia, no Brasil, mas também na América do Norte, bem como reflectir sobre o legado que algumas destas formas estéticas tiveram nos anos subsequentes.

No caso do Japão, vivia-se a chamada representação do mundo flutuante que pelas suas fortes características estéticas e conceptuais deixou marcas vindouras que perduram até aos nossos dias.

“Vivendo apenas o momento, voltando nossa atenção para os prazeres da lua, da neve, das flores de cerejeira… cantando canções, bebendo vinho e nos divertindo, apenas flutuando, flutuando… recusando-se a desanimar, como uma cabaça flutuando na corrente do rio; isso é o que chamamos de mundo flutuante” Asai Ryui.

Eduardo Carqueijeiro

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