20 Setembro 2021, Segunda-feira
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Figuras históricas da região: Muitas mentiras sobre Carlos Rates

Foi porventura o setubalense que mais se salientou no movimento sindical em Portugal, ao tempo da 1.ª República. Sobretudo pelo contributo que deu, entre 1911 e 1914, para a formação do que viria a ser a CGT (Confederação Geral do Trabalho). Terá sido ainda, em grande medida, pelo prestígio dessa altura, que veio mais tarde a ser secretário-geral do PCP (entre 1923 e 1925). Acabou, todavia, por renegar esse passado, aderindo ao salazarismo (em 1931).

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A biografia de Carlos Rates, o seu percurso militante e ideológico, é sem dúvida muito interessante, até como janela de observação para a história colectiva que viveu. Permanece porém mal conhecida e pouco estudada.

À semelhança, afinal, do que acontece com a generalidade das “figuras gradas” do antigo movimento operário e sindical. Apareceu uma história ficcionada, repleta de boatos, invenções e mentiras. Não será dessa forma que tal lacuna poderá ser preenchida.

Como é possível, por exemplo, inventar que, em 1925, Rates foi candidato a deputado pelo Partido Republicano da Esquerda Democrática, logo a seguir a ter sido expulso do PCP? E apagar que, muito diferente, quem participou nessas eleições nas listas da Esquerda Democrática foi o PCP, enquanto colectivo partidário e com quatro candidatos, na sua primeira disputa eleitoral? [começar por ver, por exemplo, o jornal O Comunista, 08/11/1925, pág.4].

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Antes de apresentar Rates como apoiante do regime de Sidónio Pais, em 1918, talvez tivesse sido bom verificar se ele não estava afinal a exercer o seu trabalho como funcionário público, numa colocação que obteve sob um governo anterior.

E teria sido básico ler o pequeno livro em que Rates criticou a “experiência sidonista” de forma bem clara, contestando a “influência monárquica”, o “domínio da reacção militar e clerical”, o “sufocamento das liberdades públicas” e “processos de governo inadequados” [Rates (1919), O problema Português, pág.8].

Dizer que Rates foi sempre perseguido pelo Partido Democrático de Afonso Costa é não apenas falso como constitui uma grosseira deturpação da história. Esse partido, que hegemonizou a 1.ª República, teve uma séria tendência para hostilizar e reprimir o movimento sindical.

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Mas também existiram vários momentos de diálogo e cooperação, aliás alguns deles protagonizados por Carlos Rates. E que são fundamentais para se compreender como, ao despedir-se da função de secretário-geral, Rates aconselhou o PCP a “servir de muleta” ao Partido Democrático, como “mal menor”, para não auxiliar a “ascensão do fascismo” [“Relatório do secretário-geral”, O Comunista, 09/05/1925, p.2].

É falso ainda que Rates tenha sido o primeiro “líder” do PCP. Antes de fazer essa afirmação seria conveniente investigar a história do PCP no período anterior, de 1921 a 1923. E será de elementar honestidade não apagar nem amesquinhar o papel de Henrique Caetano de Sousa como “secretário da Junta Nacional” (em 1921/22), e de José de Sousa, como “secretário-geral” (em 1923).

São apenas alguns exemplos. Num pequeno artigo não dá para esclarecer tanta mentira. Mas cada mentira é mais uma sombra a obscurecer o percurso de Rates e as histórias colectivas de que ele fez parte.

Neste tempo de “trumpismo” e de “fake news”, há quem diga que os factos não interessam e que o que conta é uma “boa” história. Mesmo que falseada.

Pois é preciso defender o valor da verdade histórica e do rigor informativo, da responsabilidade na verificação dos factos; com os devidos métodos para evitar equívocos, como o cruzamento de diferentes fontes primárias ou a leitura crítica da bibliografia e das próprias fontes. Não há outro caminho para uma historiografia séria e de qualidade.

*Luís Carvalho – Investigador

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