24 Outubro 2021, Domingo
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António Correia: uma vida com as pessoas

Em 2012, a Câmara de Palmela atribuiu a António Correia a medalha de mérito, aproveitando o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações. Foi padre e professor em Palmela. Seguiu sempre as suas convicções, aproximou-se das pessoas, tem feito da vida um olhar sobre o outro

 

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A nota biográfica é curta: “O António Correia é um rapaz – os velhotes dizem sempre ‘um rapaz do meu tempo’, mesmo que tenham 83 anos ou mais – que nasceu numa aldeia do concelho de Torres Novas chamada Valhelhas em 1938″.

Mas as memórias são muitas, logo desde a infância, decorrida entre Valhelhas e Árgea: “Nos Invernos, a atravessar ribeiros, com o vento a espatifar o guarda-chuva e a ter de sair da estrada, que era só lama, e chegar à escola como um farrapo encharcado. Vivi assim, mas sem grandes lamentações”.

E também dos bolos que a mãe fazia, numa história de partilha: “A minha avó materna morava numa aldeia pequenina do concelho de Torres Novas, Santiago… A minha mãe, num Dia de Todos os Santos, foi para a casa da minha avó, que tinha um forno de cozer pão, fazer esses bolinhos. Entre a minha aldeia e a aldeia da minha avó, havia um monte onde tinha sido montada uma bataria, uns canhões, por causa dos medos de Portugal poder ser invadido pelas tropas alemãs. A minha mãe levou a carrocita, puxada pelo cavalo, com muitos bolinhos… Ao passar no monte, fez sinal aos soldados, chamou-os e deu-lhes uma quantidade grande desses bolinhos… Nunca mais me esqueceu isso…”.

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Alicerces da vida

Viveu com os pais e com os dois irmãos até aos 11 anos, idade de ingresso no Seminário da Consolata, em Fátima.

“Hoje, vêm-me à ideia descrições como a da ‘Manhã Submersa’ e digo ‘eu não passei por isto’… felizmente. E lembro-me de professores bons e gente a quem não tenho de apontar o dedo ou culpar e a quem devo muito…”.

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Três anos depois, foi a vez do Seminário de Almada, “um deslumbramento”, a que seguiram seis anos no Seminário dos Olivais, até ser ordenado padre em 1961, ano de convulsões: na Igreja, por causa do Concílio Vaticano II; na política, devido ao início da Guerra Colonial.

Ambos os temas ecoaram em António Correia, crítico desde sempre. “Lembro-me de, quando estava em Fátima, a minha mãe ter ido lá uma vez para me dar um grandessíssimo raspanete porque eu tinha a mania de criticar… eu criticava tudo… Estive mesmo para ser expulso por causa de criticar…”.

Reconhece que esse pendor de compromisso o acompanhou sempre e foi incentivado por vários professores e alunos dos seminários que frequentou, reincidentes na abertura ao mundo.

Pensar foi também motivo para amizades inesquecíveis: “A crítica tem-me sempre acompanhado na vida… Onde fui sempre mais crítico foi dentro da Igreja e também na política, muito por influência de um amigo e companheiro meu, como professor no seminário de Almada, o António Jorge Martins”.

Amizades e compromissos

João Alves, que viria a estar na origem da diocese de Setúbal e a ser Bispo de Coimbra, desafiou António Correia para ser professor no Seminário de Almada, logo após a ordenação, função que aceitou.

“Nunca me considerei inteligente para isso, eu era um aluno médio… Como sabia pouco, dava aulas de tudo – música, fundamentalmente canto gregoriano, solfejo, de História (fui substituir o João Bénard da Costa, que tinha ido para lá como leigo), de Geografia, de Introdução ao Grego… Quem não sabe nada ensina tudo!”.

António Jorge Martins, padre que, pela intervenção social, foi afastado para o estrangeiro, levou António Correia para o meio dos chamados “católicos progressistas”, onde pontificava Nuno Teotónio Pereira.

Nesse grupo, participou no “Direito à Informação”, boletim que divulgava notícias sobre os acontecimentos no Ultramar que de outra forma não passariam e levava a PIDE a “marinhar pelas paredes para saber quem o fazia”.

Fez-se também associado da “Pragma”, cooperativa fundada no primeiro aniversário da encíclica “Pacem in Terris”, que não durou muito, pois a PIDE prendeu a direcção, acto que originou uma carta dirigida ao Patriarca de Lisboa, que António Correia subscreveu.

Se António Jorge Martins teve de abandonar o País, António Correia teve de deixar o Seminário, sendo remetido para Palmela, onde chegou em 1967. A distância entre a capital e a vila era muito mais do que geográfica.

“Uma vez fui a Lisboa para tratar do problema de uma criança que tinha necessidade de ser observada. Eu era padre, fui lá, e a pessoa que estava na recepção, depois de me identificar, perguntou-me de onde era e disse que era de Palmela. ‘Onde é que isso fica?’, perguntou…”.

Proximidade com as pessoas

Chega a Palmela em 1 de Outubro de 1967, decidido.

“A casa do padre não devia ser a casa onde morava a família do padre, mas um espaço da paróquia onde as pessoas entrassem e tivessem aquele espaço como seu… Eu vinha muito marcado por essa perspectiva de ser padre ligado às pessoas. Isso foi fácil cá em Palmela, apesar de não conhecer aqui ninguém. Provavelmente por estar aberto às pessoas… A primeira coisa que eu tinha de fazer era mudar a minha linguagem…”.

Paroquiou em Palmela até 1 de Janeiro de 1975, conservando muitas memórias desse tempo.

“Numa primeira reunião que tive com o pessoal da Quinta do Anjo, que eu sabia ser uma comunidade muito marcada pela Acção Católica Rural, falámos sobre a paróquia e alguém me perguntou: ‘olhe lá e das contas da paróquia, como é que é?’ Eu disse: ‘olhe, eu sou um rapaz novo, não tenho experiência nenhuma em lidar com dinheiro, vocês são pessoas crescidas, cristãos responsáveis que têm experiência em lidar com dinheiros por causa dos vossos negócios e acho que vocês podem continuar a lidar com as contas da paróquia’. Um levanta-se e diz: ‘Você disse aí uma coisa muito certa. Nós somos maiores, somos cristãos responsáveis e podemos continuar a lidar com as contas da paróquia’”.

Outra história: “O presidente da Câmara João Ataz pediu-me se eu autorizava que se cortasse um pouco do adro da igreja, sendo preciso deitar uma palmeira abaixo, porque a passagem à vinda da rua Luís de Camões era estrangulada e, apesar dos poucos carros que havia, de vez em quando batiam. Como eu não era o dono da igreja, na missa de domingo, contei o pedido e perguntei se podíamos autorizar a obra, quem estava de acordo e quem não estava… Penso que esta atitude foi muito importante na maneira de as pessoas reagirem”.

O Zeca e a prisão

Em Palmela, um dos amigos novos foi José Afonso, que conheceu em 1969, quando o cantor andava em acção eleitoral.

Passaram a encontrar-se várias vezes. “Um dia apareceu-me a correr, dizendo que andava com medo de que a PIDE o fosse buscar a casa de noite. Eu disse ‘ó Zeca, tens a chave da minha casa, vens, sobes e ficas.’ E assim foi. Veio dormir várias vezes a minha casa”.

A polícia política apareceu na casa paroquial de Palmela, passados anos, não para levar José Afonso, mas para prender António Correia. Contudo, a prisão efectuar-se-ia no Entroncamento.

Em 15 de Dezembro de 1973, ia casar o irmão que estava em França; no dia 11, António Correia partia para o Entroncamento, onde viviam os pais e de onde tomaria o comboio para Paris no dia 13, viagem impossível, pois a PIDE apareceu no Entroncamento no dia 12.

“Na madrugada de 11 para 12, vieram à minha casa, a Palmela, perguntar por mim, que era para ir dar os sacramentos à sogra de um deles, que estava a morrer e queria o padre e mais não sei quê… Depois, foram-me buscar a casa dos meus pais, ao Entroncamento, logo de manhã… Estive preso de 12 de Dezembro até ao dia 28 de Fevereiro”.

O motivo? Ligado aos católicos progressistas, António Correia aceitou o pedido de Conceição Moita para guardar uma mala onde estariam papéis, supostamente documentos recolhidos no estrangeiro sobre o que se passava na Guerra Colonial, mala que não deveria ser aberta nem revelada.

No entanto, por linhas várias, a polícia, julgando estar na pista de armas, chegou lá. António Correia soube na cadeia qual o conteúdo da mala: uns milhares de contos que tinham sido roubados no assalto a banco em Alhos Vedros, perpetrado por organização extremista.

A prisão do pároco mexeu com a população palmelense. “Os paroquianos de Palmela começaram por fazer um abaixo-assinado com o Álvaro Cardoso à frente, a mulher, o Isidoro Fortuna, o António Fortuna… Assinaram 800 pessoas e ninguém podia assinar por ninguém… Houve uma série de pessoas que passaram três dias a aprender a escrever o nome… para poderem assinar”.

A comoção toma conta de António Correia: “Chorei e choro ainda… Quando me disseram isto, eu chorei. Ainda hoje me pergunto o que é que eu fiz por esta gente…”.

O desencanto com a Igreja

“Eu entusiasmei-me muito com o Concílio, como outros colegas meus se entusiasmaram. E começámos a ver a Igreja a andar para trás, logo com o Paulo VI… Acabou com uma coisa que nos entusiasmou muito… O Paulo VI pôs um ponto final no movimento dos padres operários”.

Todos os padres que criavam focos de esperança nas paróquias eram afastados e substituídos por outros que apagavam esses focos. “Pensei: amanhã vão-me fazer o mesmo. Não tenho resistência psíquica para fazer aquilo em que não acredito, que é o que querem que eu faça. De maneira que saio”.

Quando foi falar com o cardeal António Ribeiro para comunicar a decisão, ouviu-o dizer que fazia muita falta à Igreja em Palmela. “Disse-lhe: ‘Só agora é que me está a dizer? Já decidi e vou sair…’”.

“‘Mas tem de sair de Palmela…’”. Confrontado com a ordem para sair da vila, António Correia responde: “Olhe, fui para Palmela, as pessoas aceitaram-me, não fiz mal a ninguém nem ninguém me fez mal a mim, vou continuar a morar em Palmela…”.

E o cardeal acabou por aceitar que António Correia continuasse a viver em Palmela, o que contrariava o estabelecido. A vida, passou a ganhá-la a pintar portas e janelas, assim colaborando com um construtor.

Ainda em 1975, concorreu para o ensino, sendo colocado na Escola Secundária de Palmela, no período em que andava a ser construída, tendo sido nomeado presidente da equipa directiva.

Entretanto, frequentou a Faculdade de Letras para ter equivalências, lecionou na Escola Preparatória de Bocage e estagiou na agora Escola Secundária Sebastião da Gama, para, no final do estágio, regressar à Secundária de Palmela, onde fez a sua carreira e se aposentou.

Olha para a juventude como sempre o fez: “Os alunos que traziam problemas eram sobretudo problemas dos pais, fossem pais licenciados ou socialmente muito degradados… A juventude continua a ser uma esperança. A gente nova é muito interessante. Para fazer pão, é o fermentozinho pequenino… Não pretendo que toda a massa seja igual ao fermento. O fermento é um concentrado e há muita gente nova que é capaz de fazer coisas… tão gira nas perspectivas que tem, com dificuldades muito maiores do que as que a gente tinha…”.

A família e a Natureza

Em 12 de Outubro de 1975, casou com Elisa, união de que nasceram três filhos. Hoje, já têm seis netos. O casamento foi muito participado pelos palmelenses e houve festa grande, com as pessoas a levarem os seus petiscos e a conviverem.

Para trás, ficava um percurso intenso. Com custos. “A coisa que mais me custou foi: qual vai ser o futuro da casa paroquial? Porque a casa paroquial tinha uma história… era uma casa onde o pensamento era livre… Foi muito lindo, a casa teve uma vida muito curiosa, muita gente se refez ali das suas doenças, dos seus impasses, das suas coisas… criaram-se amizades muito lindas…”.

Não era capaz de viver na cidade. Gosta de viver onde se sente bem, com as pessoas com quem se sente bem, de preferência no campo.

“Essa ideia do campo ficou muito enraizada em mim, a Natureza ficou sempre como um ponto de referência do viver e da maneira de estar na vida, desde o trabalho no campo em si, desde a importância da poda para as árvores e para a nossa educação – vamos lá cortar aquilo que não presta… olhar muito a Natureza e gostar muito da Natureza…”.

Do alto dos 83 anos, pensa. “Como é que me meti nestas coisas? Sou um qualquer… Não tenho valor nenhum, mas quando me ponho a recordar das pedras que estão nos meus alicerces, encontro tanta gente, muito curioso…”.

*Investigador

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