21 Setembro 2021, Terça-feira
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“A melhor gare do País” funcionou durante seis décadas no coração da cidade de Setúbal

Rumo a Cacilhas partiu o primeiro autocarro verde e branco, com “esperança de que existia futuro no negócio” e “pureza nas suas intenções de bem servir”

 

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Com destino a Cacilhas, pelas 17 horas e 10 minutos de dia 25 de Julho de 1959, partiu o primeiro autocarro da estação rodoviária na Avenida 5 de Outubro. Estava inaugurada, pelas mãos de A Transportadora Setubalense, “a melhor gare do País”.

O momento, oficializado pelo corte “da fita simbólica que vedava” o acesso ao espaço, foi presenciado pelo presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Magalhães Mexia, acompanhado de “Raúl Monteiro e Louro, chefe da secção de Finanças de Setúbal, e de José de Almeida Cassar, comandante das corporações de bombeiros”.

Até se chegar a este histórico resultado, foram necessários dez anos, com a primeira ‘pedra’ a ser lançada em 1949, no dia em que a empresa dos irmãos João Cândido, António Coelho e José Augusto Belo solicitou à autarquia sadina autorização “para construir uma estação terminal e intermediária, privativa das suas carreiras”.

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No entanto, publicava na altura O SETUBALENSE que “deste gesto poderia a João Cândido Belo & C.ª dispensar-se, pois ao Fundo dos Transportes Terrestres competia a construção das estações rodoviárias”.

O local para a sua edificação, “inteligentemente indicado pelo antigo ministro das Obras Públicas José Frederico Ulrich”, foi definido tendo também em conta que a Avenida 5 de Outubro “fica situada no centro geográfico e populacional de Setúbal”. A escolha viria a ser “determinada muito antes mesmo de iniciada a construção e até antes de terminadas as negociações”, já que a zona se encontrava “carecida até então de características de artéria comercial”.

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As obras arrancaram em 1953, capacitando a estação de ‘camionagem’ “exactamente com todos os requisitos e segundo o esquema de uma verdadeira gare”, dotada de quatro pisos. Enquanto “a frente, que bastante embeleza a Avenida 5 de Outubro, é constituída pelo corpo principal do edifício”, para o primeiro piso foram pensadas “as instalações para o público, tais como o átrio, sala de espera, bilheteira, despacho de bagagens, arrecadação de volumes de mão e cabines telefónicas”.

Este andar recebeu igualmente “o gabinete do chefe de estação, instalações para o pessoal, um pequeno refeitório, instalações sanitárias para homens e senhoras e, ainda, uma agência de viagens e turismo”.

Na divisão de cima estava disponível “um gabinete para a gerência”, a par de uma “sala de estar, salão de festas, escritórios e o depósito de bagagens”. Já “o terceiro e quarto pavimentos” encontravam-se “reservados a residências”.

O acontecimento representou um passo histórico para a mobilidade setubalense, com o equipamento a “proporcionar comodidade [à população] e a imprimir dignidade aos transportes ao serviço [da firma]”, assim como “honrava” os que visitavam Setúbal e “todos aqueles que A Transportadora Setubalense” trazia ou fazia passar pela cidade.

Com o novo edifício, num total de 3 mil e 200 metros quadrados, a empresa conseguiu quadruplicar o seu movimento, visto que as paragens rodoviárias se encontravam anteriormente ligadas às estações de caminhos-de-ferro.

João Cândido Belo arriscou e fundou A Transportadora Setubalense

A Transportadora Setubalense nascera três décadas antes, a 28 de Julho de 1928, para fazer “concorrência” à Seixalense, a única empresa que realizava viagens entre Setúbal e Lisboa.

O plano, imaginado e colocado em prática por João Cândido Belo, consistia na aquisição de uma “camioneta de passageiros para tentar as mesmas carreiras”. Na época, a família “apenas possuía uma camioneta de carga, que empregava no transporte de mercadorias entre Sesimbra” e o concelho lisboeta.

Belos na Praça de Bocage

Como este serviço “nem sempre era compensador”, João Cândido decidiu utilizar todas as suas economias e arriscar, ainda que com hesitação. A sua visão trouxe modernidade à cidade. “Foi um sucesso”, garantia O SETUBALENSE.

A partir daí, já em sociedade com os seus dois irmãos, “foi correspondendo aos desejos e necessidades das populações interessadas, adquirindo novas camionetas e melhorando o número de horários”. Com sede em Vila Nogueira de Azeitão, a empresa, passados quatro anos, contava já com 25 veículos de “passageiros, de carga e outros motorizados”.

Quatro anos depois, o negócio expande-se “com a compra de [metade] da Empreza Auto-Cars Setubalense, pelo valor da dívida que esta tinha com João Cândido Belo”.

Em 1937, por sua vez, o número de veículos sobe para os 30, enquanto que no ano seguinte, é adquirida a “Empresa Setúbal-Outão, de Olímpio Moreira dos Santos”. Já no início da década de 40, “dá-se a primeira grande expansão para o Alto Alentejo”, com a exploração da carreira Barreiro-Évora a ser transferida para A Transportadora Setubalense.

Chegado o ano de 1942, da frota fazem parte 45 autocarros. No ano em que comemorou um quarto de século, o negócio tinha ao seu serviço 130 viaturas – “duas furgonetas [destinadas ao transporte de mercadorias de relativamente pouco peso], 5 carros ligeiros, 5 de carga e 118 de passageiros”.

Nos dez anos seguintes, muitas são as novidades a registar, com a chegada dos serviços sadinos a Castelo Branco e Lagos. Com a inauguração da ponte Marechal Carmona, que liga as duas margens do Rio Tejo, em 30 de Dezembro de 1951, A Transportadora Setubalense tomou a decisão de investir na área do Ribatejo, ao reforçar as carreiras diárias para Vila Franca de Xira, provenientes de Coruche, atravessando Salvaterra de Magos, Benavente e Samora Correia.

A sua presença em territórios alentejanos foi fortalecida em 1957, com a aquisição da “Empresa de Viação Murta”, em Portalegre, e da “Inácio Gonçalves Capucho”, em Évora.

Estrada para o Portinho da Arrábida

Em 1958, com a considerável quantidade de “220 camionetas”, A Transportes Setubalense cobria já uma “extensão de rede de 4 783 quilómetros, distribuídos através de seis províncias (Beira Baixa, Ribatejo, Extremadura, Alto Alentejo, Baixo Alentejo e Algarve) e oito distritos (Castelo Branco, Beja, Évora, Faro, Lisboa, Portalegre, Santarém e Setúbal)”.

 

Nesse mesmo ano, as viaturas da empresa rodaram mais de 8,5 milhões de quilómetros, com o apoio de “648 empregados e 238 operários”. As “despesas com o pessoal, combustíveis, pneus consumidos, contribuições e impostos” ascenderam os 26 mil e 520 contos [o equivalente a mais de 132 mil euros, não ajustado ao actual valor do euro].

O passo seguinte viria a ser dado com a abertura de uma gare própria da empresa, que antes desenvolvia a sua actividade na Praça de Bocage.

Apesar de “o movimento que durantes anos” caracterizou a histórica zona, “cujo comércio também tanto se animou com o vaivém dos autocarros”, os irmãos Belo decidiram colocar em prática a inovadora ideia, “com o louvável propósito de dotar Setúbal com uma estação digna” e de fazer “face às necessidades sempre crescentes dos serviços” da empresa.

O terminal rodoviário era “motivo de orgulho” para a família e para a cidade sadina, “tanto pelas suas instalações como pelo sentido moderno da sua montagem, pois o próprio esquema da circulação de veículos e movimento do público, sem as dificuldades e os incómodos” que caracterizavam “o acesso às camionetas de passageiros”, constituía “uma inovação em Portugal”.

Nos anos 70, foi novamente tempo de expandir o negócio, com a compra da “Camionagem Ribatejana, Lda.”, em Santarém, da “Camionagem Vilela, Lda.”, na Marinha Grande, e dos “Serviços Municipalizados de Évora”.

As duas últimas aquisições, da “Joaquim Natário”, em Vieira de Leiria, e “Translagos”, em Lagos, registam-se em 1973. Nesta época, de acordo com um texto impresso num lápis publicitário, fabricado pela “Viarco”, os autocarros setubalenses percorriam cerca de 25 mil quilómetros por dia.

Autocarros verdes de esperança e brancos por puras intenções

O primeiro autocarro de A Transportadora Setubalense foi oferecido pela casa de automóveis C. Santos de Lisboa, que simpatizou com a ideia de João Cândido Belo. O veículo, assim como os que foram sendo adquiridos posteriormente, caracterizava-se pelas suas fortes cores. O verde representava a esperança que existia no futuro do negócio, enquanto que o branco tinha como simbolismo “a pureza das suas intenções de bem servir”.

Os autocarros eram “os melhores modelos da época”, com “todas as comodidades” para os passageiros. Os lugares disponíveis nas carreiras rapidamente esgotavam. “Os tejadilhos, quer de pequenos volumes de mercadorias, quer de bagagens, representavam um duro trabalho para os cobradores de bilhetes, que contavam com a ajuda dos motoristas”.

Empresa passa para a “Rodoviária Nacional” em 1976

Com o sector de transporte de passageiros a ser nacionalizado em 1976, com efeito a 1 de Junho, A Transportadora Setubalense, de João Cândido Belo & Cª. Lda., viria a ser integrada na “Rodoviária Nacional”, assim como todas as empresas por si anteriormente adquiridas.

Nesta altura, a firma contava com 577 autocarros, incluindo três de turismo, possuindo licença para explorar 306 carreiras e empregando 2 179 funcionários. Os veículos, com a criação dos “Centros de Exploração de Passageiros (CEP)”, são renumerados. Nas viaturas passaram a constar quatro números, pelo que o primeiro identificava o CEP e os restantes o seu número interno.

Assim, a empresa da família Belo foi repartida por três: pela CEP 4 – Rodoviária do Tejo (com sede em Torres Novas), CEP 7 – Rodoviária do Sul do Tejo (com sede no Laranjeiro) e CEP 8 – Rodoviária do Alentejo (com sede em Azeitão).

Contudo, tudo viria a ser alterado em 1990, com o início do processo de privatização da “Rodoviária Nacional”, sucedida pela “Rodoviária Nacional, Investimentos e Participações”.

Com a sua venda, a “Rodoviária do Tejo” é adquirida pela “AVIC” de Viana do Castelo, “Joalto – Rodoviária das Beiras” e “Rodoviária do Entre Douro e Minho”, enquanto que a “Rodoviária do Alentejo” é adquirida pelo grupo Barraqueiro e pela “Empresa de Transportes António Cunha”, passando a “Belos Transportes”.

A “Rodoviária Sul do Tejo”, que em 1995 passou a chamar-se Transportes Sul do Tejo (TST), é adquirida pelo Grupo Barraqueiro em 1998. Passado um ano do virar do século, os serviços rodoviários na Península de Setúbal, até então da “Belos Transportes” – que em 2002 altera por escritura pública a sua denominação para “Rodoviária do Alentejo” -, transitam para a TST, sendo que, em 2003, são ‘entregues’ ao grupo Arriva, adquirido em 2010 por uma empresa alemã.

Este ano, o transporte público rodoviário de passageiros em Setúbal volta a vivenciar mudanças estruturantes, com a saída da Transportes Sul do Tejo da cidade sadina em Setembro, para dar lugar à NEX Continental Holdings.

Ao nível de infra-estruturas, a sexagenária estação na Avenida 5 de Outubro deixou de existir como os setubalenses a conheciam, com o serviço a passar para a zona da Várzea. A última grande transformação está a poucos meses de chegar, com a inauguração do novo Terminal Interface de Setúbal, edificado na Praça do Brasil.

*Com “Restos de Colecção”, de José Leite, e “A Transportadora Setubalense de João Cândido Belo & C.ª Lda. – Uma Presença no Ribatejo”, de José Gameiro

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