22 Setembro 2021, Quarta-feira
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Setúbal celebra a Revolução de 25 de Abril de 1974

Entre o dia 25 de Abril e o 1.º de Maio, não houve descanso na cidade. Reuniões, manifestações, propaganda nas ruas, pessoas a viverem sopros de vida únicos e inesquecíveis

 

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No dia 24 de Abril de 1974, O SETUBALENSE destaca em primeira página e em grandes parangonas “A Maçonaria no Passado e no Presente”. Neste artigo explicava-se a génese desta associação na Europa.

Durante o Estado Novo, os temas relacionados com a Maçonaria não eram objecto nem de publicitação nem de reflexão na imprensa.

Esta associação havia tido um papel decisivo na implantação da República liberal em 1910, tendo igualmente integrado nas suas fileiras muitos dos que se opuseram ao regime saído do 28 de Maio.

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Estas eram razões suficientes para ignorar a sua existência. O destaque dado ao tema na primeira página do jornal é quase premonitório.

Setúbal tinha seguido, impaciente e esperançosa, o desenlace do golpe. À porta do Círculo Cultural centenas de pessoas, sem arredar pé, tinham aguardado, numa incerteza vibrante, o triunfo militar que poria fim a 48 anos de ditadura.

O Setubalense, 3 de Maio 197

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Na madrugada de dia 25, os telefones haviam tocado e a informação ainda incerta tinha circulado, célere, instalando uma expectativa nunca conhecida. Grupos de jovens, ligados ao Círculo Cultural, essa toca oposicionista, percorrem a cidade cantando canções proibidas.

Enfrentam e provocam a polícia que nada faz. O SETUBALENSE do dia seguinte dá, em primeira mão, os detalhes sobre a forma como foram recebidas as instruções dos capitães amotinados e sublinha o carácter pacífico da Revolução: «podemos considerar inédito na História da humanidade a consumação de uma revolução sem derramamento de sangue».

A primeira grande manifestação de apoio à Revolução ocorrerá no dia 26 de Abril. Será preparada e liderada pelos jovens que então militavam naquela estrutura referencial que era o Círculo Cultural de Setúbal. Será também aqui que se fazem os primeiros cartazes, que nessa tarde serão empunhados na rua a exigir «O FIM à Guerra» e a reivindicar o fim da polícia política − «O Povo quer o julgamento dos crimes da PIDE».

Entre o dia 25 de Abril e o 1.º de Maio, não houve descanso. Reuniões, manifestações, propaganda nas ruas, pessoas a viverem sopros de vida únicos e inesquecíveis. No próprio dia 25 já tinham ocorrido algumas manifestações de apoio em vários locais da cidade.

Às primeiras horas de dia 27, as instalações onde funcionavam a PIDE/DGS e a Legião Portuguesa serão ocupadas pelos militares. A ocupação é presenciada e aplaudida por centenas de pessoas e tem a supervisão do Movimento Democrático de Setúbal (MDS).

Na delegação da PIDE/DGS os ocupantes encontrarão parte dos arquivos destruídos e documentação queimada. No edifício da Legião foram igualmente apreendidas peças de mobiliário e arquivo, bem como armamento.

As instalações da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) serão o local escolhido para a realização de vários plenários de trabalhadores de diferentes sectores. Começam a aparecer igualmente as agendas reivindicativas de operários de diversas empresas.

Paralelamente, há urgência em afastar as direcções sindicais dos sindicatos corporativos, coniventes com o anterior regime. Novos protagonistas ocuparão agora aqueles cargos.

O dia 1.º de Maio será memorável, integrando uma das maiores manifestações que a cidade conheceu. Haverá uma concentração marcada para as 15 horas na Praça de Bocage, seguida de cortejo. A acústica setubalense é agora composta por uma nova sonoridade. Do exterior da Câmara Municipal de Setúbal (CMS), ecoam canções de José Afonso.

O SETUBALENSE de dia 3 de Maio traz várias reportagens sobre os festejos do 1.º de Maio. A primeira página tem uma fotografia da Praça de Bocage repleta de manifestantes, com dezenas de cartazes contra o regime deposto. Aí surgem as primeiras reivindicações.

Milhares de populares em festa, concentrados na Praça do Bocage, escutam discursos de vários oradores que, de megafone em punho, falam à população da varanda da Câmara Municipal.

A seguir, iniciar-se-á a marcha. Seguirá pela Avenida Luísa Todi, as Fontainhas, o Largo das Areias, o Bairro da Conceição, as avenidas Duarte Pacheco, e 5 de Outubro, a Fonte Nova, regressando ao ponto de encontro inicial.

O SETUBALENSE, reportando-se à concentração e à manifestação do 1.º de Maio, refere: «Nunca tal foi visto, nem durante as grandes manifestações feitas ao Vitória. Não havia chão sem gente, não havia gente sem flor. Nas árvores, candeeiros, janelas, em todo o lado em que o corpo humano pudesse chegar, havia alguém. (…)».

E continuando no mesmo registo colorido refere, ainda: «Homens, mulheres, jovens de ambos os sexos, empunhando dísticos e cartazes, onde se liam entre outros, “Ao fim de 48 anos somos livres”, “Abaixo o fascismo”; “Vivam as Forças Armadas”, “Setúbal está com a Junta de Salvação Nacional”, “Viva o Partido Comunista Português”, “Álvaro Cunhal no Governo”, “Os jovens estão com os trabalhadores para um Portugal democrático”, “sindicatos livres”, e muitos outros referentes à situação que o país atravessa».

O repórter dá também destaque ao facto de, na varanda da CMS, onde os oradores se dirigiram aos manifestantes, ondular uma bandeira do Partido Comunista.

Explica que nesse lugar, que fora «palco de manifestações de apoio ao regime fascista (…) nunca a foice e o martelo pensaram alguma vez aparecer ali».

Apesar da intensidade do dia, à noite, no pavilhão do Clube Naval Setubalense, realizou-se um comício de apoio ao Movimento das Forças Armadas, com grande número de oradores: Jorge Luz, Carlos Lopes, Teodósio, Carlos Nascimento, Abílio Ferreira, Valdemar de Sá, Adriana Espanca, Fernando Rodrigues e José Afonso.

O primeiro de Maio de 1974 configurou a confirmação do 25 de Abril. Na ânsia de liberdade e na esperança por melhores dias. E, se isso é verdade para todo o país, será duplamente verdade para Setúbal, cidade industrial, com um passado notável de sofrimento e luta pelos ideais, que naquele primeiro de Maio pareciam estar ao alcance de todas as mãos.

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