22 Outubro 2021, Sexta-feira
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Manuel Nunes de Almeida: Um forasteiro que se afirma em Setúbal nos inícios do século XX

Neste texto visamos resgatar da penumbra um lisboeta que se afirma em Setúbal nas duas primeiras décadas do século XX.

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Faz o percurso escolar entre a capital e Santarém, inicia a profissão docente no Alentejo (continuada em Aldeia Galega, hoje Montijo) e fixa-se na cidade do Sado em 1902, onde tem importante papel na educação: em especial, na elevação do liceu ao estatuto de nacional (a par da Câmara Municipal).

Depois do Liceu Setubalense (1857), Liceu Municipal de Setúbal (1858) – o 2.º a funcionar em paralelo com o 1.º – Liceu Municipal Setubalense (1863) – a fusão dos dois – e Escola Municipal Secundária (1884), sem nenhum ultrapassar o âmbito local, em 1903 é criado o Liceu de Bocage, de âmbito nacional.

Mas a importância de Nunes de Almeida na comunidade setubalense vai muito além da educação. Filho de Manuel Nunes de Almeida (Soza, Aveiro) e de Francisca de Jesus (Belas, Sintra) nasce em 14-4-1854 em São Sebastião da Pedreira (Lisboa), onde é baptizado.

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Eis o essencial da sua vida em quatro períodos: 1854-1876 – Nascimento, formação e início do professorado no Vimieiro (Arraiolos).

Apenas podemos adivinhar como lhe decorre a infância e a juventude, com progenitores bem relacionados e estimados no meio coevo. Segundo o quinzenário sadino A Mocidade, faz os estudos preparatórios no Real Colégio Militar e, depois, cursa Teologia no Seminário Diocesano de Santarém.

1876-1884: Constituição de família e primeira experiência docente. «… a convite das pessoas mais importantes do Vimieiro, foi em 1876 para aquela vila dirigir não só as aulas de instrução primária, mas ainda algumas cadeiras da secundária» (A Mocidade, 1-12-1905).

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No ano seguinte, já «professor público», casa em Lisboa com Emília Elisa de Oliveira (1861- 1885). No Vimieiro nascem-lhe três filhos: Pedro (1878-1908), Francisca (1882-1970) e Emília (1884-?).

1885-1901: Docência em Aldeia Galega. Aí, em 1885, inopinadamente, a sua vida familiar altera-se pela morte da esposa.

No ano imediato recompõe o lar, une-se a Mariana Rita Soeiro (1862-1954). Da união nascem quatro filhos: Mariana (1888-1911), Maria da Luz (1890-1975), Maria da Esperança (1892-1961) e Manuel António (1895-?).

1902-1919: Tempo de consagração, entre a posse como professor e director da Escola Municipal Secundária de Setúbal e a aposentação como reitor do Liceu de Bocage.

A comunidade local não foi indiferente à sua chegada. E ele desde logo se integra no meio social local. Sintoma da fácil e facilitada assimilação parece ser o facto de, logo em 19-3- 1904, residindo no Largo da Fonte Nova (hoje Praça Machado Santos), ter apadrinhado a união de Clotilde Bárbara Soares Pereira (1879-?) – filha do importante homem de negócios, político influente e autarca Henrique Augusto Pereira (1850-1941) – com o comerciante António José Costa.

Foi, também, um período de novos desgostos: em 1908 morre o filho Pedro e, três anos depois, a filha Mariana. No agitado meio político local desses anos alinha com o Partido Evolucionista, que tem larga implantação em Setúbal: em 1919 é o candidato local substituto à Junta Geral do Distrito.

Outra faceta da sua integração e aumento de prestígio e poder é a incursão na indústria de pescas, que acaba em 18 de outubro de 1913, ao vender o seu cerco americano (arte de pesca constituída por galeão, barca de água e quatro buques) por 2800$00, uma quantia apreciável na época.

A integração na sociedade setubalense resulta, em boa parte, das qualidades pessoais que marcam a acção como professor e reitor do Liceu de Bocage. Qualidades que os três corpos do liceu (professores, funcionários e alunos) confirmam pela forma carinhosa como o tratam: «Pai Almeida».

A referida integração e prestígio na comunidade terão ajudado o seu desempenho profissional. E o sucesso da acção profissional terá reforçado a referida integração e prestígio sociais.

Da acção como reitor realça-se o seguinte: o número de alunos ultrapassa os 100; a partir de 1906 o número de alunas deixa de ser residual; em 1908 é inaugurado um imponente edifício próprio para o liceu (é o 3.º no País, «ex aequo» com o de Faro).

Mas em 1905, quando a Câmara Municipal encomenda o projeto ao reputado arquitecto Rozendo Carvalheira (1861- 1919), é chamado para o aconselhar nos aspectos pedagógicos: o que revela o seu prestígio no campo educativo; é reitor de 1903 a 1919, um período muito instável em que os 28 liceus existentes têm entre 2 e 16 reitores (só o Infanta D. Maria-Coimbra tem também um, mas este abriu em 1918/19).

É estranho que a educação, em geral, seja valorizada nas comunidades, nos discursos das elites e entre as pessoas comuns, mas os seus principais protagonistas, não poucas vezes, sejam esquecidos ou menorizados.

Ao menos Nunes de Almeida tem o nome numa rua secundária, sem saída, mas nas imediações da Escola Secundária du Bocage (herdeira do liceu).

*Com Carlos Mouro 

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